Jerusalém, 01/03/2005 – O tiroteio de recriminações entre israelenses e palestinos soa com a mesma intensidade que nos piores tempos da intifada, depois do último atentado em Telavive, reivindicado pela organização Jihad Islâmica. O ataque suicida contra uma discoteca de Telavive na noite de sexta-feira abalou mais do que um tênue período de relativa calma. Também demoliu o que diziam os líderes dos dois lados: que o avanço decisivo do processo de paz estava por perto, na esquina. Funcionários palestinos em Ramalá responsabilizaram Israel por este primeiro atentado em tempos de cessar-fogo. É o mesmo que disse em circunstâncias parecidas durante quatro anos, até que o novo primeiro-ministro, Mahmoud Abbas, acertou uma trégua no mês passado com seu par israelense, Arial Sharon.
"Não é apenas o clima. Toda a experiência foi muito negativa", disse o novo vice-chanceler palestino, Abdullah Abdullah, em seu escritório em Ramalá. Depois, culpou Israel por não cumprir os compromissos assumidos na cúpula de Sharm el-Sheikh, no Egito, há três semanas. Os israelenses "não devolveram as cidades que prometeram, bloqueiam o regresso dos deportados e ainda não estabeleceram os critérios para libertação de presos palestinos", acrescentou. Ao mesmo tempo, o governo de Israel desenvolveu políticas que não de utilidade ou que, inclusive, foram provocativas, como o anúncio de novas construções em assentamentos judeus da Cisjordânia e a manutenção da construção do muro ao redor dessa região, ressaltou Abdullah.
Estas atitudes dificultam a Autoridade Nacional Palestina (ANP) e Abbas manterem quietos os grupos combatentes, afirmou o vice-chanceler. As autoridades palestinas consideraram insignificantes os passos dados por Israel, com o fim do "assassinato seletivo" de dirigentes palestinos, o alívio do fechamento de algumas cidades, a permissão dada a palestinos para voltarem aos seus empregos em território israelense, a libertação de 500 prisioneiros e o regresso de alguns deportados. "Como poderemos devolver as cidades se eles são totalmente incapazes de se responsabilizarem pela segurança, como já vimos?", disse á IPS Raanan Gissin, assessor de Sharon.
Israel continua comprometido com os acordos de Sharm el-Sheikh, mas, se reserva o direito de agir "para proteger a população", advertiu Gissin. A mudança de tom ficou evidente nos dois lados. Gissin aplaudiu algumas das medidas tomadas pela Autoridade Nacional Palestina, mas, também as considerou "totalmente insuficientes". Não "vimos fazerem o suficiente contra os grupos terroristas. Não os desarmam, não os prendem. Detêm alguns poucos e depois os deixam ir. Estamos vendo os resultados", afirmou. Sharon chegou a ameaçar com novas ações militares depois dos atentados, que custaram a vida de cinco pessoas e causaram ferimentos em mais de 60.
O governante israelense afirmou que o processo de paz não avançaria enquanto a ANP não adotar "ações vigorosas" contra os combatentes. De fato, Israel suspendeu a já atrasada entrega de cinco localidades da Cisjordânia à sua contraparte palestina, e suspendeu suas conversações sobre a libertação dos prisioneiros. Por seu lado, a Autoridade Nacional Palestina condenou o atentado. Abbas afirmou que vai "contra os interesses" do povo palestino e qualificou seus responsáveis de terroristas, ao mesmo tempo em que adiou as conversações com as organizações combatentes, previstas para esta semana no Cairo.
O grupo fundamentalista islâmico Jihad islâmica se responsabilizou pelo ataque. Um porta-voz da organização o atribuiu a violações israelenses da trégua. O suicida que cometeu o atentado precedia de Tulkaren, povoado sob controle israelense. Dirigentes da Jihad Islâmica em Damasco ordenaram o ataque, a Síria está por trás da operação, garantiu nesta segunda-feira o chanceler israelense, Silvan Shalom, aos embaixadores. O governo de Bahar al-Assad rejeitou essa versão. Mas, também a segurança palestina se referiu a fatores externos por trás dos ataques. Um alto funcionário mencionou especificamente a Síria, o Irã e o movimento Hezbolá (Partido de Deus) do Líbano.
"A influência externa é real e tentamos por muito tempo detê-la. É, para nós, um verdadeiro problema", disse o funcionário. Durante a intifada (insurgência popular palestina contra a ocupação, iniciada em setembro de 2000), células diversas de várias organizações – principalmente Jihad Islâmica e Brigada de Mártires de Al Awsa – buscaram fontes externas de apoio, disse o informante. "Quando um movimento tem seus líderes em Damasco, levará em conta os desejos da Síria", acrescentou, em referência ao Hamas e à Jihad Islâmica.
Por sua vez, Gissin advertiu que Israel agiria contra a Jihad sem levar em conta "limitações geográficas", o que implicaria um ataque dentro de território sírio. Por sua vez, o vice-primeiro-ministro, Shimon Peres, afirmou que não é o momento de pressionar Damasco. As autoridades da segurança da Palestina admitem que precisam de muito tempo para reafirmar seu controle. Abdullah recordou que o novo gabinete está funcionando há poucos dias. O informante anônimo da IPS disse, por sua vez, que será necessário pelo menos um ano para reconstruir os serviços de segurança palestinos. As fontes assinalam, ainda, um aspecto preocupante. Mahmoud Abbas está comprometido com a trégua, mas, muitos na estrutura do governo palestino, sem mencionar as organizações externas, não seguem a mesma linha. (IPS/Envolverde)

