Havana, 04/03/2005 – Organizadores de um congresso dissidente previsto para acontecer em Cuba, em maio, desmentiram esta semana que a reunião seja entorpecida pelas críticas do também opositor Movimento Cristão de Libertação (MCL), encabeçado por Oswaldo Payá. "Não tenho nada a comentar, temos muito trabalho", disse à IPS Martha Beatriz Roque, principal incentivadora da Assembléia para a Promoção da Sociedade Civil de Cuba, cujas bases organizativas serão discutidas nesse encontro. No congresso, cuja realização requer autorização governamental, deverão participar cerca de 400 pessoas, entre delegados e convidados estrangeiros interessados em uma transição política nesta nação caribenha de sistema socialista e partido único.
Segundo seus promotores, a reunião aconteceria em comissões que já estão praticamente constituídas e, entre outros objetivos, se proporá a analisar idéias de trabalho com a sociedade civil. "Essa reunião de 20 de maio é mais uma iniciativa de uma parte da oposição, e não de toda oposição", afirmaram por escrito Payá e outros 13 membros do MCL, quatro dos quais subscreveram o texto desde a prisão. A declaração acusa as "pessoas" que "convocam esse evento" de fomentar e dirigir "campanhas sistemáticas de difamação, confusão, desânimo, provocações e mentiras contra o Projeto Varela e o Diálogo Nacional".
O Projeto Varela tentou conseguir pela via constitucional um referendo sobre mudanças democráticas, que Havana cortou pela raiz com uma reforma da carta magna que determinou ser "irrevogável" o socialismo. Em maio de 2004, Payá acrescentou a essa proposta seu chamado a um Diálogo Nacional aberto a todas as tendências de dentro e fora do país com vistas ao projeto de um programa de transição política e preparar o futuro democrático em Cuba. Com essas iniciativas, Payá e seus seguidores disputam protagonismo com outros setores da dissidência interna, que também inclui o Movimento Todos Unidos e a coalizão de cunho moderado Arco Progressista.
Segundo o MCL, a campanha foi aumentando até converter-se em "chantagem" e inclui o "convite público" para que esta organização social-cristã compareça à reunião. "Não podemos enganar a opinião pública internacional e o povo cubano com uma falsa imagem de unidade", diz o texto, e o MCL reitera que não participará do congresso, embora respeito os que dele participarem. Tampouco participará o Arco Progressista. " Não participaremos, mas não criticamos nem desejamos nada de ruim ao propósito de se reunir", disse à IPS Manuel Cuesta, porta-voz dessa coalizão integrada por grupos próximos da social-democracia.
Cuesta preferiu não comentar a declaração de Payá e seus correligionários. "O silêncio é a melhor resposta. Não podemos nos permitir o luxo do embate político", disse. Apesar de sua virulência, as críticas não entorpecerão a reunião de maio, disse à IPS o advogado René Gómez Manzano, outro dos principais promotores da Assembléia, junto com Roque e Félix Bonne. Em sua opinião, a divergência tampouco é sinal de desunião da oposição interna ao regime, pois existe "coincidência no fundamental" quanto a temas como democracia, direitos humanos, abertura econômica e liberdade para os "presos políticos".
Gómez Manzano, Roque e Bonne pagaram com prisão suas atividades opositoras junto a Vladimiro Roca, agora porta-voz do grupo Todos Unidos, movimento que estará representado no congresso da Assembléia. Roque foi detida novamente em 2003 e condenada a 20 anos de prisão no julgamento que também condenou a duras penas outros 74 opositores acusados de tentativas de "desestabilizar" o país. Nesses processos, mais de uma dezena de dissidentes revelaram suas verdadeiras identidades como agentes encobertos dos serviços de inteligência cubanos e testemunharam contra os acusados.
A declaração do MCL se referiu a evidências públicas segundo as quais "estas figuras (os promotores da Assembléia) e outros preparavam e desenvolviam" campanhas contra suas iniciativas com esses falsos opositores. "Junto a estes agentes, eles descarregaram toda sua agressividade até que os 75 foram detidos, entre eles cerca de 50 ativistas do Projeto Varela, a maioria ainda na prisão. O pior é que continuam agindo da mesma forma", acrescentou o texto. Após deixar a prisão em junho do ano passado por razões de saúde (condição que não representa uma liberdade definitiva), Roque se dedicou inteiramente à reorganização da Assembléia para a Promoção da Sociedade Civil.
Roque disse que várias personalidades políticas internacionais aceitaram seu convite para assistir o encontro, cuja envergadura obrigaria a utilizar um espaço público para suas sessões. O antecedente mais próximo de uma convocação semelhante remonta a 1996, quando o governo cubano negou à organização Concilio Cubano (que reunia organizações dissidentes de diferentes perfis) a autorização para realizar uma reunião pública. A Assembléia está formada por 340 pequenas organizações de todo o país e pretende, entre outros objetivos, trabalhar para construir e articular um "movimento social pacífico que permita a preparação para a mudança á democracia". Todas as organizações de oposição atuam na ilegalidade e o governo cubano invariavelmente rotula seus dirigentes de "mercenários a soldo do império", numa alusão aos Estados Unidos. (IPS/Envolverde)

