África: Um papa como "símbolo de unidade"

Johannesburgo, 05/04/2005 – Enquanto católicos de todo o mundo choram a morte de João Paulo II, outros concentram sua atenção na sucessão. Para os católicos da África, que aumentaram de forma constante nos últimos anos, a questão é clara: o novo papa deve ser africano. O número da praticantes do catolicismo nesse continente aumentou 3,4% em 2003, enquanto na Europa permaneceu constante, segundo o último anuário pontifício. Na Ásia, houve aumento de 2,2% e na América de 1,2%. Atualmente, a África representa 13,2% dos 1,1 bilhão de católicos de todo o mundo.

Chirevo Kwenda, diretor do departamento de estudos religiosos da Universidade da Cidade do Cabo, considerou que a eleição de um papa africano é "uma antiga dívida pendente". O último clérigo de origem africana a conduzir a Igreja Católica foi Gelasio I, entre os anos 492 e 496. Além disso, "temos um africano de alto nível no Vaticano", recordou David Monyae, professor de relações internacionais da universidade de Witwatersrand, de Johannesburgo. Monyae se referia ao cardeal Francis Arinze, um nigeriano de 72 anos que foi um próximo assessor de João Paulo II.

Arinze é uma autoridade em assuntos islâmicos, e isto poderia jogar a seu favor quando os 118 cardeais habilitados para votar na escolha do novo papa tomarem sua decisão, num momento de crescimento do radicalismo islâmico em várias partes do mundo. Entretanto, Arinze é considerado um ultraconservador em assuntos religiosos, que sem dúvida manteria a posição de João Paulo II sobre anticoncepção, união homossexual, divórcio e aborto. A possibilidade de manutenção de várias destas posturas no novo papado não agrada muitos católicos.

As autoridades da Igreja Católica não aceitam o uso da camisinha nas relações sexuais, embora seja considerada uma ferramenta fundamental para deter a pandemia de aids que arrasa a África. O Vaticano promove a abstinência sexual como forma de combater esse flagelo. "Sempre discordamos da visão católica. Qualquer um que desestimule o uso da camisinha não é realista", disse á IPS o presidente da comissão sobre HIV/aids da Associação Médica do Quênia, Odongo Odiyo. "As pessoas mantêm relações sexuais pertençam ou não a uma igreja, sejam católicas, ou não. Na luta contra o HIV/aids, devemos encontrar uma forma de ajudar as pessoas, e uma maneira é estimular o uso da camisinha", ressaltou.

Alguns sacerdotes católicos do Quênia se afastaram das diretrizes do Vaticano nessa questão e distribuíram camisinhas para ajudar na luta contra a aids, disse Odiyo. Atualmente, a África subsaariana é a região com maior número de infectados pelo HIV/aids: 25 milhões, ou 70% do total mundial. Peter Gichangi, professor de ginecologia e obstetrícia da Universidade de Nairóbi, afirmou que a postura católica sobre a anticoncepção também foi contraproducente para as iniciativas de planejamento familiar na África. "Desestimular métodos de planejamento familiar, incluindo o uso de camisinha, leva a uma escalada do crescimento da população e a gravidez indesejada, que fazem com que as mulheres recorram ao aborto", disse à IPS.

Em suas numerosas visitas a países africanos, João Paulo II condenou o uso da camisinha e promove a abstinência sexual e a fidelidade como forma de controlar a aids. Mas o papa também se pronunciou sobre outros assuntos que dizem respeito aos africanos. Na primeira missa de Páscoa do novo milênio, apelou para o fim do racismo e da xenofobia, e, um ano antes, havia condenado a guerra em Angola e acusado os implicados de "egoísmo". Quando os rebeldes da República Democrática do Congo impediram que o bispo Kukaru regressasse à sua congregação em 2000, João Paulo II condenou esta ação perante milhares de pessoas durante uma audiência semana na Basílica de São Pedro, em Roma.

"Quando veio ao Quênia em 1995, pregou a paz e disse que sem paz não pode haver desenvolvimento. Disse aos quenianos que abandonassem o tribalismo que provocou violentos choques em 1992", recordou o sacerdote Emmanuel Ngugi, encarregado da igreja da Sagrada Família de Nairóbi, Ngugi, que defendeu as políticas do Vaticano sobre anticoncepção, chamou João Paulo II de "símbolo de unidade". Desde que iniciou seu pontificado em 1978, o número de católicos na África aumentou quase 150%, para 137,5 milhões, segundo o Serviço de Notícias Católico. (IPS/Envolverde)

* Com a colaboração de Joyce Mulama, desde Nairóbi.

Moyiga Nduru

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