Infância: O negócio de educar as meninas

Genebra, 19/04/2005 – Quem desejar um bom rendimento para seu investimento deve empregar o dinheiro na educação, especialmente em áreas que assegurem o acesso ao aprendizado das meninas, recomendou Carol Bellamy. O mais notável é que Bellamy não se ocupa de previsões do mercado financeiros, muito pelo contrário. Atua no campo humanitário, em particular há 10 anos como diretora-executiva do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Entretanto, as recomendações da funcionária persuadiram muitos. Por exemplo, o governo da Noruega, que anualmente destina entre US$ 50 milhões e US$ 60 milhões a investimentos voltados a ajudar a resolver o problema educacional no mundo.

É um dinheiro muito bem gasto e pensamos continuar agindo assim, afirmou Wegger Strommen, representante permanente da Noruega junto às agências que a Organização das Nações Unidas tem em Genebra. A rentabilidade se obtém porque a educação é muito mais do que simplesmente aprender, explicou Bellamy, que no final deste mês passará seu cargo no Unicef para Ann Veneman, a ex-secretária de Agricultura dos Estados Unidos. Isso acontece quando a educação permite salvar vidas. Por exemplo, os adolescentes aos quais se protege contra o vírus da deficiência imunológica adquirida (HIV), causador da síndrome da deficiência imunológica adquirida (aids), ou dos recém-nascidos aos quais os conhecimentos sobre saúde e nutrição de suas mães podem ajudar.

Esses são apenas dois dos benefícios que a educação pode dispensar, como aponta o relatório do Unicef intitulado "Progresso para a Infância", que Bellamy apresentou nesta segunda-feira em seu último contato com a imprensa em Genebra como sua diretora-executiva. A educação também permite transformar vidas: desde os adolescentes que têm a oportunidade de sair da pobreza até as meninas às quais oferece um novo sentimento de auto-estima e uma posição na sociedade, insiste o documento. Por esse motivo, o Unicef dedicou o informe ao tema da educação de toda a infância, com ênfase especial nas meninas.

A questão também mantém relação estreita com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, o conjunto de metas estabelecidas pela ONU com a intenção de atingir o progresso social e econômico para todas as nações. Uma dessas metas pretende assegurar que em 2015 todas as meninas e todos os meninos no mundo tenham terminado um curso completo de ensino primário. Outro objetivo é acabar com a disparidade de gêneros no ensino primário e secundário até o final desse ano. O informe estabelece que em termos gerais se conseguiu progressos significativos em dois aspectos: levar a criança à escola e reduzir a diferença de gênero.

Ao redor de 86% das crianças em idade escolar de todo o mundo vão atualmente à escola. Há quatro anos esse indicador era de apenas 82%. Assim, pode-se afirmar que pela primeira vez caiu para menos de cem milhões o número de meninos e meninas que não vão à escola, afirmou Bellamy. Em 2001, esse número era de 115 milhões. Entretanto, os progressos seguem em ritmo muito lento, reconheceu. Para alcançar os objetivos em 2015, de um curso completo de ensino primário, será preciso acelerar os esforços em muitas regiões e muitos países. De um total de 180 nações estudadas, 125 podem conseguir este ano a igualdade entre os gêneros no ensino primário. O total inclui 91 países em desenvolvimento e 34 industrializados.

Porém, há três regiões, Oriente Médio e África do Norte, Ásia meridional e África ocidental e central, onde as disparidades ainda se mantêm profundas. Bellamy mencionou países que estão mais perto da meta de igualdade entre os sexos para este ano, com Peru, Santo Tomé é Príncipe, Suriname, Vietnã, Gana, Colômbia, Moldóvia, Azerbaijão e Bósnia e Herzegovina. Os mais distantes desse objetivo são Iêmen, Níger, Chade, Burkina Faso, Malí, Costa do Marfim, Guiné-Bissau, Benin, Guiné e Paquistão. A paridade entre os gêneros na educação requer um valor tão fundamental para a consecução dos Objetivos do Milênio que é a única das metas com um prazo reduzido, que vence no final deste ano.

As projeções do Unicef indicam que em 2005 o índice mundial de paridade entre os gêneros é de 0.96%, o que significa 96 meninas na escola para cada grupo de cem meninos. Esta agência da ONU conclui que este número coloca tecnicamente o mundo no bom caminho para conseguir a igualdade dos sexos no ensino primário, um passo determinante para o objetivo da educação para todos. Entretanto, a ajuda internacional para a educação deve aumentar de forma marcante, alertou Bellamy. A diretora do Unicef calcula que a cada ano serão necessários novos investimentos no valor de US$ 5,6 bilhões para concretizar o objetivo da educação primária universal.

Nessa área, somente cinco países – Dinamarca, Holanda, Luxemburgo, Noruega e Suécia – cumpriram o compromisso de destinar 0,7% de seu produto interno bruto à ajuda oficial ao desenvolvimento. Em suas palavras de despedida, Bellamy advertiu que a educação não é uma questão opcional que deve ser financiada quando a economia melhorar, se é que chega a fazê-lo algum dia: é um direito humano. Conseguir que a educação seja gratuita como resultado de um direito é um requisito essencial para criar um espírito nacional em favor do ensino primário universal, insistiu. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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