Beirute, 15/04/2005 – O Iraque tem novo governo, a Arábia Saudita realizou eleições municipais limitadas, o controle da Síria sobre o Líbano está terminando e milhares de pessoas saem às ruas do Cairo para pedir a renúncia de Hosni Mubarak, presidente do Egito desde 1981. Aparentemente, sopram ventos de democracia no Oriente Médio. Mas, aqueles que comemoram a nova tendência fazem três perguntas: Quantas das concessões que esses governantes fizeram sob pressão norte-americana desapareceriam se Washington moderasse o tom de suas advertências? Para onde levarão estes movimentos democráticos? E, se algum for derrubado, provocará um efeito dominó? Alguns analistas acreditam que, embora exista certa ligação entre os movimentos democráticos em diferentes países do Oriente Médio, o resultado em cada um será determinado por condições internas.
"Sim, os árabes estão falando de democracia porque os Estados Unidos o fazem, mas, no final, cada país tem suas próprias características, e se um movimento triunfa ou não depende do que ocorre em cada país, não em Washington", disse à IPS o colunista Jihad Khazen, baseado em Londres. "É por isso que suspeito da sinceridade destes discursos (sobre democracia), porque quem os pronuncia o faz por pressão e não por sentimento", acrescentou. Desde os primeiros dias de seu primeiro mandato, em 2001, o presidente George W. Bush deixou claro que a democratização do Oriente Médio era parte essencial de sua política externa. Mais tarde, anunciou que a invasão do Iraque seria o primeiro passo nessa direção.
Em um discurso pronunciado terça-feira a soldados norte-americanos, Bush comparou a queda de Bagdá, em abril de 2002, à queda do Muro de Berlim, em 1989, e disse que se o Iraque conseguir construir um sistema democrático abrirá as comportas da democracia em todo o Oriente Médio, de Damasco a Teerã. Porém, poucos analistas compartilham do otimismo de Bush. Muitos desconfiam, por exemplo, da autenticidade do movimento democrático no Egito, onde Mubarak pediu ao parlamento que reforme a Constituição para que os eleitores possam escolher entre vários candidatos nas eleições presidenciais deste ano, em lugar de confirmar no cargo o mesmo presidente mais uma vez. Os críticos dizem que, ao mesmo tempo em que adota esta iniciativa, o presidente egípcio reprime a oposição.
"Enquanto Mubarak falava de democracia, a polícia secreta invadiu a casa de meus pais, interrogou meus familiares e quis deter meu pai por um artigo que escreveu e nunca chegou a ser publicado", disse Mohamed Fadel Fahmy à IPS. Fahmy contou que seu pai, um engenheiro que tem cidadania egípcia e candense, é membro do opositor partido Waftd e costuma escrever colunas para o periódico partidário e outras publicações. O artigo que provocou a ira do governo "convocava manifestações contra Mubarak e o acusava de ser um ditador com roupa de liberal", explicou. O jornal de Waftd não publicou o artigo porque os editores "o consideraram extremamente direto". Fahmy disse que seu pai estava no Kuwait, onde trabalha, quando as forças de segurança chegaram. Posteriormente, foi detido nesse país, mas as circunstâncias não foram claras e não se sabe se a breve detenção foi um pedido das autoridades egípcias. No mês passado, a polícia egípcia prendeu dezenas de ativistas políticos que pediam a renúncia de Mubarak.
O caso do Egito é importante porque muitas nações árabes o tomam como modelo político. "Este país é um caso delicado. Sempre guia o resto da região, para bem ou para mal. Se houvesse um movimento no Egito seria mais fácil do que houvesse em outros países", disse Khazen. Por ouro lado, "se essas experiências com a democracia não prosperarem, digamos no Iraque ou no Líbano, também afetarão a dinâmica interna da região, porque líderes de outros países dirão que se tentou e somente se produziu instabilidade", previu o professor Nizar Hamza, da Universidade Americana em Beirute, em declarações à IPS. "Teria sido preferível que isto ocorresse por iniciativa dos próprios árabes, não por pressão externa", afirmou Hania Refaat, executiva de marketing no Egito. (IPS/Envolverde)

