Gleneagles, 26/04/2005 – Bretanha, 26/04/2005 – O longo e sinuoso caminho que vai de Edimburgo, a capital da Escócia, até a pequena localidade central de Gleneagles, onde em julho acontecerá a próxima cúpula do Grupo dos Oito, não foi construído para o traslado de centenas de milhares de manifestantes em um ou dois dias. Gleneagles tampouco tem espaço para eles. Na realidade, trata-se de um exclusivo hotel em forma de castelo com um famoso campo de golfe, e só consta dos mapas extremamente detalhados, em letra muito pequena. Para chegar até ele, é necessário um motorista escocês com experiência. Mas, é precisamente nesse lugar onde os presidentes dos Estados Unidos, George W. Bush e da Rússia, Vladimir Putin, e os chefes de governo de Grã-Bretanha, Canadá, França, Alemanha, Itália e Japão, adotarão importantes decisões mundiais.
O governo britânico, próximo anfitrião dos sete países mais industrializados do mundo mais a Rússia, tem presentes as maciças e violentas manifestações de grupos altermundistas em Seattle (EUA, 1999) e Gênova (Itália, 2001), por ocasião da Terceira Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio e de uma Cúpula do G-8, respectivamente. Funcionários do governo da Grã-Bretanha insistem em afirmar que Gleneagles, no condado escocês de Perthshire, não foi escolhido por se tratar de um local de difícil acesso. "Existe um caminho mais amplo para Gleneagles", explicou Paul Kyle, diretor de desenvolvimento econômico do conselho da região de Perth and Kinross.
Esse caminho é o A9, um atalho que passa pelas montanhas e permanecerá aberto durante a cúpula. Mas, se forem permitidos que veículos carregados de manifestantes sigam pela estreita A823 rumo a Gleneagles, a história será outra. A proprietária do hotel é a Diageo, uma multinacional que possui algumas marcas mais conhecidas de bebidas alcoólicas. De certo modo, representa o tipo de globalização que muitos grupos da sociedade civil rejeitam, em particular se os líderes do G-8 se hospedam em meio ao luxo obtido com os frutos dessa globalização. Esses grupos nunca conseguirão se aproximar da periferia da Gleneagles. Para garantir isso, as forças de segurança da cúpula, que acontecerá entre 6 e 8 de julho, terão apenas de bloquear um sinuoso e estreito caminho.
"Retiro acessível", diz um folheto do hotel em uma de suas páginas. "Em meio ao campo", diz em outra. Gleneagles oferece o que chama de um caminho "fora do mapa" pelo qual os hóspedes mais aventureiros podem chegar em veículos todo-terreno, atravessando montes barrentos e pequenas correntes de água. Mas, é improvável que os manifestantes tentem este caminho para fazer uma entrada ao estilo James Bond em Gleneagles. Resta, então, a população local. Em Gleneagles, os habitantes se limitam aos 600 empregados do hotel (mais de um por hóspede). A população "real" mais próxima se encontra na localidade de Auchterarder, a cerca de dois quilômetros. Auchterarder tem oficialmente 3.945 habitantes. O oficial de polícia Fraser White servirá de elemento de ligação com a população local durante a cúpula do G-8, com a ajuda de mais um ou dois funcionários. Isso será suficiente, porque ninguém espera nenhum problema com essa gente.
"A polícia já realizou muitas reuniões. Elaboramos um boletim para distribuir casa por casa, porque há muitos mitos sobre o G-8 e queremos que as pessoas estejam bem informadas", explicou á IPS Joanna Dean, diretora de comunicações do conselho regional de Perth and Kinross. Em algum momento chegou-se a temer que os residentes pudessem ser atraídos pelos manifestantes, mas a polícia local considera isso improvável, primeiro porque muitos moradores de Auchterarder são empregados do hotel de Gleneagles. Todos os estabelecimentos comerciais do povoado têm nomes locais. Nem um restaurante norte-americano de comida faz food, nem uma filial de alguma gigantesca rede britânica de lojas. Isto significa que os líderes do G-8 poderão conversar tranqüilamente em Gleneagles, sem que nenhum visitantes inoportuno bata à sua porta. De fato, nunca chega nenhum ao hotel. (IPS/Envolverde)

