Buenos Aires, 17/05/2005 – Na Argentina há meninas, adolescentes e jovens que permanecem desaparecidas. Os casos parecem isolados, mas especialistas e familiares denunciam que as vítimas são seqüestradas por redes de exploração sexual que operam com cumplicidade de autoridades políticas, judiciais e policiais. "Há nove anos tentamos tornar visível na Argentina a questão do tráfico de mulheres, mas a sociedade não quer ver porque pensa que a prostituição é um mal necessário e prefere culpar as vítimas", disse á IPS Sara Torres, representante na Argentina da Coalizão Internacional contra o Tráfico de Mulheres. A natureza deste crime torna difícil elaborar estatísticas. Os dados somente são inferidos das denúncias de pessoas desaparecidas e na forma de hipótese.
A organização não-governamental Rede Solidária busca atualmente 190 "pessoas perdidas", das quais 67% são mulheres. Se for feita uma estatística por idade, se notará também que a grande maioria (63%) dos procurados por seus familiares tem entre 13 e 18 anos. Em conversa com a IPS, o diretor da Rede Solidária, Juan Caber, afirmou que nos últimos sete anos foram registrados mais de 300 casos de adolescentes perdidas, das quais 90% foram encontradas. "Entre as que foram aparecendo houve 10 meninas e contaram que foram exploradas sexualmente", revelou. Os casos de mulheres desaparecidas se apresentam de forma periódica e isolada. Os meios de comunicação não relacionam um caso com outro e com pouco tempo de uma busca sem sucesso, suas histórias desaparecem da primeira página. Tampouco estabelecem ligações os investigadores judiciais ou policiais, nem as autoridades governamentais.
Para mencionar apenas alguns casos, em 2002 foi seqüestrada Marita Verón, de 23 anos, na província de Tucumán. Uma mulher conseguiu escapar de uma rede de exploração sexual nessa província e assegurou ter tratado da jovem, mas as batidas policiais e judiciais, como sempre, chegaram tarde ao suposto cativeiro. Fernanda Aguirre, de 13 anos, foi seqüestrada em junho de 2004 em San Bento, na província de Entre Rios. A justiça procura seu corpo sob a terra, mas sua mãe tem pistas que a levam a crer que caiu em uma rede de prostituição. Pessoas que se identificaram como seus captores pediram resgate de apenas US$ 600, mas depois que esse dinheiro foi pago, a menina continuou desaparecida.
O caso mais recente é o de Florência Penacchi, de 24 anos, vista pela última vez ao sair de seu apartamento em Buenos Aires no dia 16 passado. Seu rosto sorridente se repete nos cartazes de rua por toda a cidade. Mas não há pistas nem pedidos de resgate. "Viram fumaça, como se tragadas pela terra", afirmou Carr. Também há casos de jovens estrangeiras das quais não se encontra pistas. Uma delas é a turista alemã Nikola Henkler, de 28 anos, desaparecida em San Carlos de Bariloche, na província de Rio Negro, em dezembro de 2002. Outra é a suíça Annagreth Wirgler, de 23 anos, desaparecida na província de La Rioja em agosto de 2004.
Torres destacou que em 2002 a Argentina ratificou o Convênio Marco das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional e o Protocolo para Prevenir, Reprimir e Sancionar o Tráfico de Pessoas, Especialmente de Mulheres e Crianças. Mas esses compromissos não se vinculam com os desaparecimentos de mulheres dentro do país. "O tema da venda dos corpos para exploração sexual está muito banalizado, inclusive, há juízes, promotores e policiais que admitem a existência de prostíbulos que deveriam estar proibidos pela legislação local e pelos compromissos assumidos pelo país em nível internacional", alegou.
"No imaginário da sociedade, estes locais são legais, mas não é verdade", ressaltou Torres. Além disso, aponto como cúmplices meios de comunicação que "exaltam a venda dos corpos" e outros como o jornal Clarín, que publica classificados de venda de sexo na seção de "serviços úteis para a mulher e o homem". Organizações femininas preocupadas em dar visibilidade ao tráfico de mulheres realizam seminários de especialistas, mas sem nenhum contato com familiares das desaparecidas, que muitas vezes têm mais pistas, dados e conhecimentos sobre a pesquisa dos que os profissionais preparados para esse fim.
A IPS conversou com Maria Inês Cabrol, mãe de Fernanda Aguirre, que desapareceu há mais de nove meses em Entre Rios. "Sempre penso que a levaram para se prostituir", diz esta mulher desesperada, que já percorreu sete províncias em busca de algum rastro de sua filha. Cabrol afirma que "não há palavras" para explicar a dor de uma mãe que tem sua menina roubada quando caminhava perto de sua casa. "Cada dia que passa aumenta o sofrimento. Não posso imaginar como estará, uma menina tão apegada a mim, que não tem em quem confiar", afirma.
Em busca dessa menina, a polícia deteve um homem com antecedentes penais que poucos dias depois apareceu enforcado na delegacia em que estava detido. O suposto suicida é primo de um conhecido proxeneta de Entre Rios que está preso, mas não acrescenta nada à investigação. Em dezembro apareceu em Las Termas, na província de Santiago Del Estero, uma mensagem manuscrita pedindo ajuda. Os peritos chegaram a resultados contraditórios, mas a mãe não tem dúvidas. "É a letra da minha menina", afirma. A polícia e a justiça fizeram numerosas batidas em Las Termas e houve detidos por casos de exploração sexual de menores, mas nenhum sinal de Aguirre.
Cabrol viajou duas vezes a Santiago Del estero. "Em Las Termas, os moradores, motoristas, polícia, todos me dizem que a menina está la, mas está com o irmão do intendente e a polícia federal está metida no caso", revela a mulher, quase em um sussurro, como se temesse ser ouvida. Em sua desesperada busca, se encontrou com o presidente Néstor Kirchner, ministros do governo nacional, legisladores e governadores, juízes, policiais e integrantes de organizações sociais. "Todos garantem que darão o que eu pedir, mas o que quero é a minha menina".
A mulher está em contato permanente com Susana Trimarco, mãe de Marita Verón. Graças ao trabalho incansável de Trimarco, foram descobertas numerosas pistas de uma associação de proxenetas que opera pelo menos nas províncias de La Rioja, Tucumán, Buenos Aires, Córdoba, Santa Cruz e com vínculos também na Espanha. Em carta aberta este ano, os familiares de Verón, com apoio de diversas organizações defensoras dos direitos humanos, informaram que sua investigação havia contribuído, junto com o trabalho da polícia, para a libertação de 17 mulheres que estavam em mãos destas redes de criminosos, algumas delas nas cidades espanholas de Bilbao, Burgos e Vigo.
"Na Argentina estes crimes têm impunidade, e graças ás cumplicidades da justiça, polícia e muitos políticos, estas máfias contam com grande zona liberada para negociar com a vida de nossos filhos", denuncia o comunicado divulgado em abril por alguns meios de comunicação. O comissário da divisão de inteligência da polícia de Tucumán, Jorge Tobar, foi um funcionário-chave na investigação desses casos, embora suas declarações às vezes sejam censuradas pela instituição policial. Seu compromisso com a perseguição deste crime parece uma decisão pessoal.
"Na Argentina existe um sistema de crime organizado que captura mulheres e as vende para que trabalhem na prostituição em regime de escravidão. São vendidas como gado, deslocadas, exploradas, e tudo acobertado", disse Tobar em uma entrevista publicada pelo jornal Página 12, de Buenos Aires. Tobar interveio no caso Verón e em operações junto com funcionários da Interpol que permitiram resgatar na Espanha 25 mulheres procedentes de várias províncias argentinas que eram exploradas sexualmente naquele país. O policial afirma que existe uma enorme diferença de recursos em um e outro país para perseguir esse crime.
O comissário conseguiu dados sobre Aguirre. "Detectei sua presença em Santiago Del Estero e informou o lugar exato onde estava, mas a justiça e a polícia fizeram 19 batidas antes de se dirigirem ao local-chave", afirmou. Quando finalmente chegaram, a adolescente já não estava. Em abril último, um relatório do Departamento de Estado dos Estados Unidos alertou que na Argentina existem "severos problemas" para controlar o tráfico ilegal de pessoas, uma falha que tem a exploração sexual e trabalhista como uma de suas mais perversas derivações. Mas o governo rebateu a advertência. O ministro do Interior, Aníbal Fernández, considerou o relatório "muito prejudicial" para a imagem do país e que seu único objetivo era promover a venda de algum software de controle de pessoas que o governo "não está disposto a comprar". (IPS/Envolverde)

