Cuba: Congresso dissidente desagrada governo e oposicionistas

Havana, 20/05/2005 – Um encontro de dissidentes previsto em Cuba para esta sexta-feira e sábado desafia tanto o governo de Fidel castro quanto outros grupos de oposição, que consideram o encontro uma fraude e uma provocação. O congresso, organizado pela Assembléia para Promover a Sociedade Civil (APSC) acontecerá a céu aberto na residência de um dos dirigentes dessa coalizão de aproximadamente 350 organizações do país."Já está tudo praticamente pronto e, ao que parece, o governo não impedirá a reunião, embora tenha procurado criar obstáculos", disse à IPS o opositor René Gómez Manzano, membro do Grupo Executivo da Assembléia, junto a Martha Beatriz Roque e Félix Bonne. Segundo a convocação, trata-se de uma reunião geral dos grupos da Assembléia com a intenção de estabelecer um plano de trabalho conjunto que permita "alcançar a meta de uma Cuba livre e democrática".

Manzano assegurou que cerca de 55 delegados de diferentes províncias já estão em Havana para participar do encontro, para o qual foram convidados membros do corpo diplomático acreditado em Cuba e personalidades internacionais. Segundo o ativista, muitos convidados não chegarão porque não conseguiram vistos para viajar à Cuba, entre eles Mikhail Gorbachov, último presidente da União Soviética, dissolvida em 1991. Também não obtiveram vistos mais de 18 deputados do Parlamento Europeu interessados em participarem como "observadores internacionais". Fontes diplomáticas européias confirmaram que autoridades cubanas de imigração impediram, na terça-feira, a entrada no país dos legisladores poloneses Boguslaw Sonik e Jacek Protasiewicz.

Os legisladores checos Karen Schwarzenberg e Arnold Vaatz tiveram melhor sorte e se preparam para participar do encontro, na qualidade de convidados da coalizão dissidente Todos Unidos e da Fundação Lawton de Direitos Humanos. "Levaremos uma mensagem de saudação e defenderemos o fim dos sectarismos e das posições excludentes, que sejam evitadas as desqualificações entre nós", disse à IPS o porta-voz da Todos Unidos e presidente do Partido Social-democrata de Cuba, Vladimiro Roca. O filho do falecido líder comunista cubano Blas Roca, passou cinco anos na prisão, até maio de 2002, processado por atividades antigovernamentais junto com Roque, Manzano e Boné, condenados a penas menores. Formavam o Grupo dos Quatro, que havia assinado o documento "A Pátria é de Todos", considerado subversivo pelas autoridades.

Martha Roque foi presa novamente em março de 2003 e submetida a julgamento junto com outros 74 oposicionistas, sob acusação de conspirar com uma "potência estrangeira" (Estados Unidos), mas, foi solda no dia 23 de julho de 2004 por razões de saúde. Em um forte ataque aos organizadores do encontro, esta semana, o Movimento Cristão Libertação (MCL), liderado pelo oposicionista Oswaldo Payá, o qualificou de "fraude contra a oposição facilitado pela prisão da maioria de seus líderes. É público que Martha Beatriz Roque e seus dois ajudantes (Manzano e Bonne) estavam coordenados com agentes da segurança do Estado e apoiados por setores duros do exílio", disse a organização nesta quinta-feira, através de um comunicado.

O MCL queixou-se de que a "manobra do 20 de maio" beneficia o governo, que "quer destruir o movimento cívico do Projeto Varela e passar esta imagem negativa de uma oposição aliada aos extremistas". O MCL promove o Projeto Varela, que conseguiu milhares de assinaturas para solicitar mudanças no sistema socialista de governo, e o Diálogo Nacional, aberto à participação dos cidadãos para desenhar uma transição Política. O encontro da APSC recebeu adesões polêmicas de grupos anticastristas no exílio, como o Alpha 66 e o terrorista Luis Posada Carriles, que pouco antes de ser detidos esta semana nos Estados Unidos qualificou o encontro de Havana como histórico e significativo. Depois de divulgado o comunicado do MCL, a IPS tentou, sem sucesso, voltar a conversar com os dirigentes da APSC.

Outro crítico do encontro é o oposicionista Eloy Gutiérrez Menoyo, que desde agosto de 2003 espera autorização para viver e estabelecer em Cuba um escritório de sua organização Mudança Cubana, criada enquanto permaneceu exilado nos Estados Unidos. "Guerra anunciada não mata soldado", disse à IPS o dissidente, para quem essa reunião está "manipulada" e "infiltrada". "Talvez, tenha impacto como propaganda, mas carece de importância para o crescimento da oposição interna", afirmou. Também se retirou do encontro o Arco Progressista, uma coalizão de grupos de tendência social-democrata especialmente crítica do confronto de Washington com Havana.

"Nada que tenha proximidade com a atual política dos Estados Unidos em relação a Cuba pode contar conosco", disse à IPS o dirigente Manuel Cuesta, porta-voz do Arco Progressista e secretário-geral da Corrente Socialista Democrática Cubana. O ativista apresentou como outra razão para não participar do encontro "o estilo unipessoal" de condução política da APSC, que enfraquece as posições de consenso "fundamentais" para "democratizar Cuba". Manzano descartou que as discordâncias tenham impacto negativo no desenvolvimento do congresso, em cuja preparação a APSC contou com apoio financeiro de "organizações do exílio cubano e não-governamentais", explicou.

Na segunda-feira, Castro voltou a repetir que os oposicionistas são "mercenários a serviço do império" e considerou que o encontro dissidente é uma "provocação" organizada por "elementos contra-revolucionários". Castro se referiu ao encontro ao comentar o anúncio feito por Washington no último dia 12, de que entregaria US$ 6 milhões ao Grupo de Apoio à Democracia (GAD) por meio da norte-americana Agência Internacional para o Desenvolvimento (Usaid). O GAD, com sede em Miami, presta ajuda humanitária a ativistas, presos políticos e seus familiares em Cuba. Segundo Fidel castro, esses fundos estão destinados a fomentar a desestabilização, a conspiração e a subversão internas. (IPS/Envolverde)

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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