América Latina: pobreza da população negra fora do foco

México, 19/05/2005 – A população negra da América Latina e do Caribe é quase quatro vezes maior do que a indígena, mas sua situação de pobreza e discriminação permanece atrás dos bastidores, apesar de ser igual ou maior do que dos povos originários da região. É que, ao contrário dos indígenas, calculados em cerca de 40 milhões, os 150 milhões de afrodescendentes têm pouco poder político, organizações atomizadas e sua situação recebe menos atenção em fóruns internacionais e pesquisas acadêmicas. Os estudos disponíveis indicam que mais de 90% da população descendente dos escravos trazidos da África para a América na época colonial são pobres, têm acesso apenas aos empregos de menor remuneração e conta com baixo nível de instrução. Além, disso, são sujeitos a uma aguda discriminação por causa da cor da pele.

"Os negros continuam sendo os mais excluídos, são, em geral, a última roda do carro, depois até mesmo dos indígenas", disse à IPS Quince Duncan, membro da Comissão Científica do programa A Rota do Escravo, do Fundo das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Uma pesquisa de 2001 feita pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe diz que "a população afro-latina e afro-caribenha", que chega a quase 30% do total de habitantes da região, é de "alta densidade e pouca ressonância". Embora somem 150 milhões de pessoas, a maioria delas concentrada no Brasil, na Colômbia e Venezuela, chama a atenção a tênue presença política desta comunidade, seu pouco acesso a instâncias de governo, bem como a falta de dados completos sobre sua situação econômica, diz o estudo da Cepal intitulado Discriminação Étnico-racial e Xenofobia. Existe uma "invisibilidade do problema negro", concluiu esse estudo.

No Brasil, a população branca é 2,5 vezes mais rica do que a negra; na Colômbia, 80% dos afrodescendentes vivem na pobreza extrema e, em Cuba, único país da América com sistema econômico socialista, vivem nas piores habitações e têm os trabalhos de pior remuneração, segundo pesquisas feitas nesses países. "A situação dos negros merece menos atenção do que a dos indígenas, pois chegaram à América depois da conquista européia, seus parâmetros culturais não são originários da região e sua integração ao trabalho foi mais plena e rápida", explicou Duncan, em entrevista por telefone desde a Costa Rica, onde reside. Na América Latina e no Caribe, "o racismo se concentra, sobretudo, nos negros, mais do que nos indígenas, e isso é evidente em toda a América, embora haja países realizam esforços importantes para reverter a situação", acrescentou o pesquisador.

Duncan faz parte de um programa da Unesco, criado em 1994, que realiza estudos e promove encontros sobre a história e situação dos descendentes dos escravos africanos. O presidente do México, Vicente fox, levantou uma onda de críticas por ter declarado no último dia 13 que seus compatriotas fazem trabalhos nos Estados Unidos "que nem mesmo os negros aceitam fazer". Fox teve de pedir desculpas e se explicar para Washington, cujos porta-vozes reclamaram dessa declaração. "As críticas feitas ao presidente mexicanos são justas, pois assumiu os estereótipos que existem sobre os negros. Porém, devemos dizer que grande parte da população da América pensa de maneira semelhante", afirmou Duncan. No início do ano, e por iniciativa oficial, foi realizada no Equador a Primeira Pesquisa Nacional sobre Racismo e Discriminação Racial", entre um universo de 37.500 pessoas.

Os resultados mostram que 65% dos entrevistados acreditam que em seu país existe racismo e 88% afirmaram que os negros são os mais discriminados. No México, onde menos de 2% dos 104 milhões de habitantes são de raça negra, uma pesquisas divulgada em outubro de 2000 pelo jornal El Universal revelou que 56,6% dos consultados consideravam que em seu país existe racismo. Além disso, 61,1% deles disseram crer que a discriminação existe por causa da cor da pele. Estudos do Ministério da Educação do Brasil, o país com a população de origem africana mais numerosa da América Latina e do Caribe, indicam que entre os universitários apenas 2,2% são negros, contra 18% de mestiços e 80% de brancos. A porcentagem de analfabetismo no Brasil é 2,5 vezes maior entre os negros do que em outros grupos raciais.

Em Cuba, onde 30% de seus 11,2 milhões de habitantes são negros, o racismo continua vivo e inclusive se intensificou nos últimos 10 anos, segundo um estudo de 2003 feito pela Academia de Ciências a pedido do governo de Fidel Castro. A revolução não conseguiu reduzir "as diferenças no status social e econômico da população negra do país", reconhecem Castro em um discurso. Na Colômbia, o Departamento de Planejamento Nacional (estatal) informa que 80% dos negros do país vivem abaixo da linha da pobreza. "Mas – segundo Duncan – a situação de discriminação está mudando em toda a América Latina, pois são feitos esforços, embora ainda pequenos, para revertê-la".

A Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial, impulsionada pela Organização das Nações Unidas, foi ratificada por quase todos os países da América Latina e do Caribe, e o compromisso de diminuir esse flagelo foi reiterado em declarações feitas em numerosas reuniões de chefes de Estado e de governo sobre o assunto. Duncan destacou, em especial, os esforços que vêm sendo feitos há vários anos pelo governo do Brasil, ressaltando que no País já existem secretários de Estado e magistrados de raça negra.

O estudo da Cepal também avalia as mudanças. A marginalização dos negros "começa a mudar com a maior presença de movimentos sociais afro-latinos no Brasil, Equador, Colômbia e em outros países, que não só apresentam suas demandas nos fóruns internacionais e aos seus respectivos governos como, também, tornam mais notórias suas especificidades como grupos com identidade própria de longa trajetória", destacou Duncan. (IPS/Envolverde)

Diego Cevallos

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