Direitos Humanos: Rebeldes amigos dos EUA cometem abusos no Irã

Washington, 20/05/2005 – A organização de direitos humanos Human Rights Watch denuncia que a organização rebelde iraniana Mohahedin Khalq (MEK), que procura apoio dos Estados Unidos, comete torturas e submete prisioneiros a isolamento prolongado. Os insurgentes asseguram que realizarão operações apoiadas por Washington para instaurar a democracia no Irã, onde desde 1979 vigora um regime da ala xiita do Islã. No mês passado, a MEK realizou uma Convenção Nacional por uma República Democrática e Secular no Irã, no histórico Constitution Hall da capital norte-americana, da qual participaram vários importantes legisladores do governante Partido Republicano.

Mas, em seus 20 anos de trajetória como grupo armado protegido pelo ex-presidente iraquiano Saddam Hussein, sobram acusações que colocam em dúvida seu compromisso com a democracia, segundo o relatório "Sem saída: Abusos contra direitos humanos em acampamentos da MEK", publicado pela Human Rights Watch. "O governo iraniano tem antecedentes trágicos em matéria de direitos humanos, mas, seria um enorme erro promover um grupo de oposição também responsável por graves abusos", disse o diretor da divisão para o Oriente Médio da HRW em Washington, Joe Stork. O documento de 28 páginas foi divulgado em meio a um processo de crescente tensão entre Washington e Teerã, basicamente pelo suposto desenvolvimento de armas nucleares por parte do regime islâmico, que o presidente George W. Bush qualificou de "inaceitável".

O governo norte-americano não adotou formalmente a "mudança de regime" como sua política oficial para o Irã, porém, poderosas figuras, como o vice-presidente, Dick Cheney, e o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, não escondem sua preferência por essa opção. Desde que os Estados Unidos encabeçaram a invasão em março de 2003 a invasão do Iraque – onde a MEK estava radicada desde 1986 – o grupo tenta convencer o governo Bush de que a queda da República Islâmica do Irã deve ser seu próximo passo. Esta organização conta nos Estados Unidos com apoio de legisladores direitistas, do grupo Comitê de Políticas do Irã (que reúne personalidades do setor neoconservador, a ala mais direitista do governo Bush, com oficiais militares da reserva) e de alguns funcionários, especialmente no Pentágono.

Estas figuras acreditam que a MEK poderia ser utilizada para desestabilizar o regime iraniano e, inclusive, para derrubá-lo em coordenação com ataques norte-americanos contra alvos selecionados. O apoio do Pentágono impediu a dispersão e deportação dos militantes da MEK no acampamento de Ashraf, em território iraquiano perto da fronteira com o Irã. Mas a organização não conseguiu convencer o Departamento de Estado de a retirar de sua lista de grupos terroristas, na qual foi colocada em 1997. É que a MEK atacou nos anos 70 funcionários militares norte-americanos e participou, em 1979, da ocupação da embaixada dos Estados Unidos em Teerã. O grupo também figura na lista de organizações terroristas da União Européia. Após um ano de deliberações entre o Pentágono e o Departamento de Estado, ambos chegaram a um certo acordo. Assim, Departamento da Defesa concedeu aos membros do acampamento de Ashraf a proteção das Convenções de Genebra.

Desde então, o Pentágono recruta integrantes da MEK individualmente para que se infiltrem no Irã e procurem localizar instalações nucleares secretas, segundo informes publicados pelo jornal The Nova York Times e pela revista Newsweek. Ao mesmo tempo, cerca de 300 membros da organização aceitaram a anistia dada pelo regime iraniano para regressarem ao seu país, restando, então, em março, 3.534 combatentes no acampamento de Ashraf, segundo a HRW. Nesse contexto a MEK e seus simpatizantes pressionaram para que o grupo fosse retirado da lista do Departamento de Estado.

De fato, essa foi a principal demanda do ato realizado no mês passado em Washington, por parte da presidente da organização rebelde, Maryam Rajavi, que participou através de videoconferência. Um dos representantes da MEK, Ali Safavi, descreveu Rajavi como uma pessoa firmemente comprometida com a democracia.

Rajavi garantiu que seu grupo está "comprometido com a realização de eleições livres e justas no prazo de seis meses após a troca de regime, para escolher uma assembléia constituinte e entregar os assuntos públicos aos representantes do povo". Mas, essas afirmações ficam cercadas de cepticismo devido ao relatório da Human Rights Watch, baseado em entrevistas feitas entre fevereiro e maio com 12 ex-integrantes da MEK que hoje moram na Europa. Estas personalidades asseguram que existe nos acampamentos militares do grupo no Iraque um persistente padrão de torturas, espancamento e confinamento solitário e prolongado contra membros que criticam as políticas e práticas antidemocráticas da organização. Dois dos entrevistaram afirmaram que presenciaram a morte de dois prisioneiros quando eram interrogados.

Aqueles que desejavam abandonar o grupo foram mantidos incomunicáveis em unidades especiais, e se possuíam um status alto, permaneciam assim por longos períodos. Um dos entrevistados sofreu esta situação durante oito anos e meio, e outro por cinco anos. Quatro das testemunhas, suspeitos de dissidência, afirmaram que através de tortura foram obrigados a assinar confissões falsas, segundo as quais mantinham vínculos com agentes da inteligência iraniana. Três deles presenciaram a morte de Parviz Ahmadi, ex-comandante de unidade, em fevereiro de 1995, vítima de espancamento. Seu falecimento foi anunciado três anos depois na publicação da MEK Mojahed. Paradoxalmente, Ahmadi foi descrito nessa oportunidade como um "mártir" assassinado por agentes iranianos.

Cinco das testemunhas foram transferidas para a prisão de Abu Ghraib nos anos 90 e libertados pelo governo de Saddam Hussein em 2001 e 202. De acordo com os testemunhos, A MEK é mais um culto do que um movimento político. Esta versão sugere que o exílio do grupo no início dos anos 80, seguido pelo casamento entre Masoud e Maryam Rajavi, em 1985, instalou uma série de práticas que o casal descreveu como "revolução ideológica". Estas práticas incluíam o divórcio forçado, sessões regulares de "autocrítica", abstinência sexual e dedicação mental e física absoluta aos desejos dos líderes. "O nível de devoção que se esperava dos militares ficou claro em 2003, quando a polícia francesa prendeu Maryam Rajavi em Paris", ressaltou a HRW. Em protesto, 10 membros e simpatizantes da MEK colocaram fogo no próprio corpo em várias cidades européias, e dois morreram". (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *