Katmandu, 24/05/2005 – Não é fácil ser ativista no Nepal. Os grupos que pressionam pelo retorno á democracia constitucional nesse país da Ásia meridional são perseguidos pelas forças de segurança, enquanto trabalhadores para o desenvolvimento rural são hostilizados pelos rebeldes maoístas. A guerra civil no Nepal já dura nove anos e deixou mais de 11 mil mortos. Quatro agências internacionais para o desenvolvimento anunciaram na semana passada que suspenderiam seu trabalho no distrito de Kalikot, um dos mais pobres do país, depois que os maoístas detiveram e torturaram dois trabalhadores voluntários. Os ativistas, um homem e uma mulher da agência alemã para o desenvolvimento GTZ, estiveram detidos por três dias, tendo apanhado em várias oportunidades.
Os rebeldes ordenaram à mulher que cavasse um buraco onde colocariam seu próprio cadáver, mas ela não conseguiu porque estava muito fraca em razão dos golpes recebidos. Por fim, os maoístas decidiram tirar-lhes o dinheiro e libertá-los, explicou á IPS o diretor da GTZ, Ulf Wernicke. "Para nós, isto é muito grave. Não é como roubar um carro. Na comunidade de doadores todos consideram isto muito grave", afirmou. A GTZ, o Programa Mundial de Alimentos da Organização das Nações Unidas, o Departamento para o Desenvolvimento Internacional, da Grã-Bretanha, e o Serviço Holandês de Cooperação para o Desenvolvimento também decidiram suspender seus programas no Nepal até que os maoístas peçam desculpas pelo ocorrido e se comprometam a não atacar novamente seu pessoal.
Em Kalikot, a GTZ realizava uma série de projetos de desenvolvimento rural e infra-estrutura, que incluía a construção de uma estrada. As agências internacionais, em geral, empregam os moradores do lugar, aos quais garantem fornecimento de alimentos por vários meses. Wernicke admitiu que ao suspender o programa cerca de 1.200 pessoas ficarão sem emprego. Os grupos da sociedade civil nepaleses pediram às agências que não suspendessem seus programas. "Dizem que não acontecerá novamente, mas já ocorreram outras tantas vezes que decidimos pela suspensão", explicou o dirigente da GTZ. Estima-se que os maoístas controlam mais de três quartos dos arredores de Katmandu, além de outras cidades importantes do Nepal.
Os rebeldes lançaram sua "guerra do povo" em 1996 para acabar com um sistema econômico que deixou os principais recursos do país em mãos de uma pequena elite, e marginalizou as classes mais baixas e os 60 pequenos grupos étnicos. É comum que os maoístas reclamem "doações" para as organizações que trabalham dentro de suas jurisdições, exigindo antes que se registrem junto ao seu "governo". As agências internacionais garantem que nunca cedem a essas determinações, mas reconhecem que os grupos locais não resistem à pressão. O governo do Nepal suspeita que os traidores sociais entregam com freqüência dinheiro aos rebeldes, segundo disse à IPS uma fonte do Ministério do Desenvolvimento local.
Basant Raj Gautam, responsável pelo agora suspenso projeto da GTZ em Kalikot, disse à IPS que nos últimos meses diminuíram as hostilidades por parte dos rebeldes, mas ressaltou que as agências estão cansadas desse ambiente. Há duas semanas, a Associação Dinamarquesa para a Cooperação Internacional convidou outras organizações não-governamentais para uma reunião em seu escritório de Katmandu para avaliar se era adequado manter seus trabalhadores nesse país. Vários grupos disseram que era muito perigoso. No entanto, chegaram à conclusão de que deviam permanecer no Nepal porque era importante "os habitantes saberem que nem todos os estrangeiros estão fugindo", e porque "a presença internacional lhes dá certa proteção", disse à IPS Nina Ellinger, representante da Associação em Katmandu.
O rei Gyanendra Bir Bikram Shah destituiu, no dia 1º de fevereiro o governo constitucional do país, acusando-o de corrupto e incapaz de controlar a guerrilha maoísta. O monarca prometeu resolver os problemas do Nepal e restaura a democracia no prazo de três anos. Gyanendra também declarou o estado de emergência e suspendeu a maioria dos direitos constitucionais, uma medida que reverteu em 29 de abril, embora a repressão aos opositores continue. Desde o golpe de Estado, 3.284 líderes políticos, jornalistas, ativistas pelos direitos humanos e estudantes foram detidos, segundo informe da Coalizão Nepalesa de Defensores dos Direitos Humanos. "O governo também impôs muitas restrições ao traslado dos ativistas, os quais não foram previamente informados sobre essa decisão", diz o documento.
No dia 26 de fevereiro, a Coalizão denunciou que um defensor dos direitos humanos foi proibido de ir até o distrito de Nepalgunj para participar de um encontro sobre lei humanitária. Paradoxalmente, o ativista era convidado pelas próprias forças de segurança distritais, que participavam do encontro. O relatório também indica que "o governo agora está considerando impor restrições às atividades de todos os grupos defensores dos direitos humanos, incluindo organizações internacionais como a Cruz Vermelha". (IPS/Envolverde)
Foto: Li Onesto

