Espanha e Estados Unidos: adversários persistentes ou aliados reticentes?

Miami, 13/05/2005 – José Bono e Donald Rumsfeld, responsáveis da Defesa da Espanha e dos Estados Unidos, se reuniram no Pentágono no último dia 3 e fumaram o cachimbo da paz. Ficou longe a irritação do presidente George W. Bush pela escapada do Iraque. Fora do estereótipo e das frases feitas, Espanha e Estados Unidos devem ser a dupla mais insólita na história das relações internacionais desde a Paz de Westfalia (1848). O fato de pertencerem à Aliança Atlântica e de estarem do mesmo lado na maioria das intervenções militares recentes ou pacificações não significa, em absoluto, que tenha sido norma desde o nascimento da União em 1776 ou desde a conscientização nacional na Espanha a partir do início do século XIX. Pelo contrário, a Espanha quase sempre esteve em lados opostos ao dos Estados Unidos, e somente pertenceu à mesma coalizão para incomodar outra potência (a Inglaterra), estar sob uma ditadura que mudava de rumo de acordo com o vento, ou seguia os caprichos de algum governante iluminado e ansioso em aparecer na foto.

Acreditar que a Espanha sinceramente apoiou a independência das 13 colônias por altruísmo simplesmente disfarça que o inimigo da época era a Britânia, como em outro momento seria a França, com a qual compartilha seu desdém e desconfiança pelos britânicos. Também é ilusório interpretar que o apoio modesto de Washington ao independentismo latino-americano no século XIX se movia por similares sentimentos elevados. Era cruamente um aperitivo da Doutrina Monroe. Nada de estranho então que a desavença familiar entre cubanos e espanhóis fosse aproveitada pelos norte-americanos para se colocarem no lado contrário à Espanha e manipular o acidente do Maine. Assim começou em 1898 o longo século XX hispano-americano, em contraste com o mais curto em nível mundial, que se diz, começou em 1914 e terminou com a queda do Muro de Berlim em 1989.

É desta forma coerente que a antiga potência se declara neutra na Primeira Guerra Mundial, enquanto os Estados Unidos resgatavam a Europa pela primeira vez de suas lutas fratricidas. Pela mesma lógica, o generalíssimo Franco repetiu o número em 1939, e além disso apoiou descaradamente Hitler e Mussolini, em agradecimento pelo apoio militar durante a Guerra Civil. Para desespero dos republicanos que esperavam que, depois da queda do Eixo, os aliados castigassem Franco, os Estados Unidos perdoaram a Espanha. Neutralizada, deveria ter continuado em hibernação pelas reticências do presidente Truman, mas a Guerra Fria a lançou nos braços de seu sucessor, Eisenhower. Dessa maneira selou-se a sobrevivência da ditadura que permitiu Guernica e enviou à Rússia uma divisão de voluntários equipados por Hitler.

Porém, nem na Coréia, nem no Vietnã, a Espanha franquista apresentou uma atuação. Contentou-se em ser cenário de reserva em caso de uma invasão soviética na Centroeuropa. Franco inclusive se manteve fiel à relação histórica com Cuba, apesar do enfrentamento quase nuclear com Washington. Junto com a permanência na Otan e a sólida integração na União Européia, lealmente foi cumprido um pacto de silêncio e se preferiu concentrar-se em temas mais estratégicos. Entretanto, as condições impostas pelas duas partes na intromissão nos respectivos cenários naturais também são notórias. Washington sempre se mostrou desconfiado da participação espanhola na pacificação da América Central. Nunca apoiou a possível intermediação em Cuba. Simplesmente tolerou a participação em modestas operações com a do Haiti. Agora, se alarma pela aproximação entre Zapatero com Chávez.

Em justa retribuição, Madri permitiu o uso regulamentar das bases na Espanha, mas limitou certas operações punitivas como na Líbia. A redução da espetacular presença militar norte-americana na Espanha com a saída de Torrejón não foi inicialmente bem recebida pelo Pentágono, mas acabou sendo aceita com resignação pragmática com a permanência em rota. Entre desacordos pontuais, o consenso básico se expressou em casos diáfanos de alta estratégia depois do final da Guerra Fria, como no Kuwait e no Afeganistão, em diferentes fases, onde a aliança hispano-norte-americana foi executada sem fissuras. A alça discursiva, portanto, de todo esse balé foi a foto dos Açores no apoio moral, simbólico e político de Aznar a Bush que desencadeou a mais grave crise entre os dois países depois da mudança de governo em março de 2004. Washington apenas se recuperou da contundência da retirada das tropas espanholas do Iraque. A teimosia imperial não fará mais do que reforçar a desconfiança mútua. Se é o caso de sair na frente, isso cabe primeiro a Bush.

(*) Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami (jroy@miami.edu).

Correspondentes da IPS

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