Espanha: Ecos de bombas no parlamento basco

Madri, 17/05/2005 – O nacionalismo moderado do País basco ficou na encruzilhada ao pactuar com os socialistas ou com os legisladores apoiados pelo braço político do grupo terrorista ETA (Euskadi Ta Askatasuna – Pátria Basca e Liberdade, em basco), após fracassar nesta segunda-feira a designação do presidente do parlamento autônomo. Tanto esse fracasso quanto os atentados do ETA e a ruptura do pacto antiterrorista entre o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e o centro-direitista Partido Popular (PP) colocam em risco a estratégia de paz exposta na semana passada no Congresso da Espanha pelo primeiro-ministro, o socialista José Luis Rodríguez Zapatero. Enquanto se realizava a sessão de votações que concluíram com um empate reiterado entre o nacionalista moderado Juan Maria Atutxa e o socialista Miguel Buen, nos corredores da sede do Parlamento Basco ecoavam as explosões em quatro atentados cometidos no domingo pelo ETA.

As bombas explodiram em quatro empresas localizadas na província basca de Guipúzcoa, sem causar mortes, mas deixando três feridos, dois deles agentes da polícia autônoma basca e um guarda de segurança privada. Fontes dos governos central e autônomo atribuíram ao atentado o objetivo do ETA de amedrontar os empresários e obrigá-los "a dar dinheiro em favor da libertação do Euskal Herría (País Basco, em basco)", como afirmou o grupo em um comunicado após ter realizado ações semelhantes no dia 8 de janeiro. O Círculo de Empresários Bascos reagiu qualificando de "puramente mafioso e criminoso" o modo de agir do grupo e de "seus cúmplices sociais e políticos que o apóiam".

A Confebask, entidade que agrupa empresas do País Basco, afirmou em um comunicado que estes atentados "fazem pairar nuvens sobre as esperanças que o conjunto dos cidadãos bascos está depositando no fim da violência". Esta advertência da Confebask aponta para um tema que preocupa todos os partidos políticos, embora de diferentes pontos de vista: a resolução sobre a proposta para a luta contra o terrorismo, que prevê uma negociação com o ETA, apresentada sexta-feira pelo governante PSOE e que seria votada nesta terça-feira no Congresso dos Deputados, em Madri. Na votação para escolher o presidente do Parlamento Basco, o candidato á reeleição, Atutxa, recebeu 33 votos, 32 deles da coalizão governante integrada pelo Partido Nacionalista Basco (PNV), sua cisão Eusko Alkartasuna (EA) e Esquerda Unida, coalizão baseada no Partido Comunista. O outro voto para Atutxa foi do Aralar, uma cisão do Batasuna, o braço político ilegal do ETA, do qual se separou por não apoiar a violência.

Por sua vez, Buen, o candidato socialista, também obteve 33 votos, 18 dos quais de seu próprio partido e 15 do PP. A chave do empate está nos votos em branco dos nove deputados do Partido Comunista das Terras Bascas (PCTGV), que segundo especialistas foram eleitos com os votos que no passado haviam sido do Batasuna. O PCTV, inscrito em 2002 mas que só apareceu em 2005 depois que o Tribunal Constitucional o proibiu de apresentar candidatos pró-ETA, coloca como condição para apoiar o nacionalismo moderado que não seja Atutxa o candidato e que se negocie a participação de seus representantes na Mesa do Congresso.

Atutxa foi ministro do Interior do governo basco de 1998 a 2001, e a partir desse cargo se caracterizou pela prevenção e investigação dos atentados do ETA e a repressão dos autores desses crimes. Essa atividade foi reconhecida, inclusive com prêmios concedidos conjuntamente a ele e ao então ministro do Interior da Espanha, Jaime Mayor Oreja, do PP. O PNV esclareceu nesta segunda-feira que manterá a candidatura de Atutxa, apesar de o PCTV reiterar que não votará a seu favor e que o fará em branco. Se forem mantidas essas posições, os dois candidatos voltariam a empatar, com um grande problema pela frente, já que o regulamento do Parlamento não prevê uma solução para casos de empate, a não ser votar.

Diante dessa situação, o secretário de Organização do PSOE, José Blanco, destacou "a necessidade de se chegar a um consenso", enquanto o porta-voz desse partido no País Basco, Rodolfo Ares, pediu "solenemente" ao PNV que dialogue "em busca de uma Mesa que represente a todos e seja fruto do consenso". Sobre os atentados, a posição do PP se centrou em criticar o governo por ter "abandonado a via da derrota policial do ETA", afirmação que seu secretário-geral, Angel Acebes, sustentou que Zapatero ao falar no domingo em um ato pré-eleitoral na Galícia não se referiu aos atentados. "Nem mesmo condenou o grupo terrorista", afirmou o dirigente do PP.

Entretanto, o ministro do Interior, José Antonio Alonso, condenou os atentados e destacou que "não se cederá diante dos que tentam impor seus objetivos fazendo uso da violência e do terror". Por outro lado, o porta-voz parlamentar socialista, Alfredo Pérez Rubalcaba, também condenou e esclareceu que esses atentados "não jogam por terra" a resolução sobre a luta contra o terrorismo marcada para ser votada nesta terça-feira no Congresso, e que cria a possibilidade de dialogar com o ETA se este grupo abandonar antes a violência. Porque, destacou, "somente se poderá falar com quem deixar as armas". Essa resolução conta com o apoio de todos os grupos parlamentares, com exceção do PP, o que faz prever uma grande vitória do PSOE.

A possibilidade de negociar depois de o ETA aceitar o fim da violência foi sugerido ao governo através da comprovada debilidade operacional do grupo, evidenciada na contínua detenção de seus dirigentes, descoberta de depósitos clandestinos de explosivos e documentos, bem como na redução de seus atentados. De fato, os de domingo foram os únicos nos últimos três meses. Mas estes atentados e a posição do PCTV fizeram trazer à memória dos políticos uma entrevista da direção do ETA publicada no jornal Barria de 2 de abril. Nessa matéria o grupo apresentou a exigência de compensações políticas para renunciar ao terrorismo e, entre outras, a autodeterminação do País Basco, a incorporação do mesmo à Navarra e a saída de todas as forças de segurança dessa região, entre elas a militarizada Guarda Civil e a Polícia Nacional Espanhola.

Um dos entrevistados se referiu a conversações "a duas mesas". Em uma seriam discutidos acordos políticos e, caso se chegasse a um final satisfatório, discutiriam depois com o governo de Zapatero sobre a renúncia às armas. No caso do ETA manter essa posição, o governo reiterou que não haverá nenhuma negociação, já que a primeira condição que impõe é uma renúncia expressa e concreta ao uso da violência. A não ilegalidade do PCTV permitiria aos partidários do ETA agir livremente no campo político e na eventual negociação com o governo de Madri.O que se colocaria sobre a mesa é a situação dos presos e exilados etarras. Fontes socialistas admitiram que se estudaria a liberdade e a volta escalonada dos mesmos, mas "sempre partindo do abandono total e definitivo da violência". (IPS/Envolverde)

Tito Drago

Tito Drago es corresponsal de IPS en Madrid. Periodista y consultor especializado en relaciones internacionales, nació en Argentina y vive en España desde 1977, tras su paso por varios países latinoamericanos y europeos. En 1977 abrió la primera corresponsalía de IPS en España y en 1978 se trasladó a la sede mundial de la agencia en Roma para reestructurar la jefatura de redacción. Es escritor y conferencista. Fue presidente del Club Internacional de Prensa de España, del que es presidente honorario desde 1999. También presidió la Asociación de Corresponsales de Prensa Extranjera (ACPE). Entre 1989 y 2008 fue director general de la agencia de comunicación y editora Comunica, de la revista Mercosur y de los libros y los sitios web de las Cumbres Iberoamericanas de Jefes de Estado y de Gobierno. Desde 1992 dirige el portal sobre la Actualidad del Español en el Mundo.

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