Bruxelas, 05/05/2005 – Ousmane Sy deu novas esperanças ao continente africano com o sucesso da implementação de seu programa de descentralização em Malí, segundo o júri que este ano o escolheu para receber o Prêmio Internacional Rei Balduíno de Desenvolvimento. Sy recebeu nesta terça-feira este prêmio criado em 1979 com o nome do rei da Bélgica para a cada dois anos homenagear uma pessoa ou organização que tenha feito uma "contribuição substancial para o desenvolvimento do Hemisfério Sul", e "pela solidariedade entre países industriais e em desenvolvimento". A Fundação Rei Balduíno reconheceu, ao atribuir o prêmio a Sy – ele próprio um especialista em desenvolvimento – seu papel vital na conquista de "um futuro de paz, estabilidade e prosperidade" para a África. O comitê que o escolheu descreveu Sy como "um homem de visão, pioneiro de ações em matéria de governabilidade na África".
Com suas idéias sobre descentralização, Sy foi uma figura-chave na reforma da administração de Malí. Co-fundador da Rede pela Governabilidade na África, criada em 1994 para promover o intercâmbio de experiências entre os países ocidentais do continente, o especialista utilizou a tradicional rede de comunicações entre os anciões dos 11 mil povoados de Malí para construir um consenso sobre sistemas de governos democráticos e sustentados localmente.
A descentralização envolveu a criação de entidades subnacionais – regionais, distritos e povoados – governados com autonomia por conselhos eleitos. As privatizações e a liberalização comercial acompanharam este processo nos anos 90. Quando começou sua tarefa, em 1993, Malí tinha apenas 13 municipalidades. Hoje, são 703.Dm um processo de descentralização participativa, ao qual se somou a organização de eleições transparentes, Sy lançou campanhas aplaudidas por sua originalidade, e que criaram, segundo o comitê que o premiou, "um ambiente dirigido a uma melhor administração pública e a uma estabilidade maior, duas condições cruciais para o desenvolvimento". o diretor do Programa Conjunto das Nações Unidas contra o HIV/aids (Onusida), Peter Piot, disse nesta terça-feira que o trabalho de Sy é a prova de que a África pode produzir "respostas viáveis" para seus próprios problemas. "Ousmane Sy é uma inspiração para todos os africanos", acrescentou. Suas propostas tiveram um impacto positivo imediato na vida diária de Malí.
Mulheres e crianças passam menos tempo caminhando em busca de água graças á criação de serviços em muitas municipalidades. Antes, um grande número de meninas e meninos ficavam ser por ir à escola por esse motivo. Ao mesmo tempo, foram criados centros municipais de saúde para combater a elevada mortalidade infantil. Sy afirmou que os africanos devem refletir sobre o modo como manejam suas sociedades, e criar novos instrumentos. "A África deve, imperativamente, encontrar meios de governabilidade baseados nos valores e princípios africanos, cumprindo, ao mesmo tempo, os requisitos do mundo moderno", afirmou o ativista, ao receber seu prêmio, em Bruxelas. "Além da organização de eleições democráticas e da luta contra a corrupção, a descentralização produziu uma nova visão na idéia de governabilidade", acrescentou.
Até lançar o processo, a maioria da população via a governabilidade como uma "noção extremamente artificial, porque o exercício do poder e a administração da democracia em nível nacional estavam concentrados em algumas poucas centenas de pessoas", explicou. Sy insistiu em que a descentralização permite consolidar o processo democrático ao "ampliar sua base". A descentralização dá dinamismo à economia ao levar a tomada de decisões políticas para muito mais perto dos agentes locais, acrescentou. "Agora, os que tomam as decisões nascem e são criados na localidade, não são mais pessoas designadas pelo governo central. As autoridades locais também enfrentam o desafio dos idiomas regionais. A descentralização atuou como reconhecimento da diversidade lingüística e cultural", afirmou Sy. O especialista afirmou que passa a vida combatendo o "afropessimismo".
"Apesar das imagens negativas e das manchetes da África, as coisas começam a mudar. Uma nova geração de africanos sente que pode deixar para trás o passado de colonização e maus governos", disse. "É tempo de assumir a responsabilidade de organizar um futuro possível construído sobre modelos políticos que funcionem. A África, agora, encontra respostas para essas perguntas que estiveram bloqueadas por tanto tempo". Sy mantém o otimismo sobre a possibilidade de mais avanços em Malí e de uma mudança real em todo o continente. "Trabalho para continuar oferecendo esperanças, para demonstrar aos africanos que a África pode mudar. Assumir a responsabilidade de nosso próprio futuro é único caminho adiante, porque esse é o modo de lutar contra a má governabilidade que freia todo progresso em tantos de nossos países. Para mim, encontrar a estabilidade governamental é uma das tarefas mais importantes da África", afirmou. (IPS/Envolverde)

