Haiti: Três maneiras de não entender a União Européia

Miami, 31/05/2005 – Não se sabe bem qual é a melhor maneira de opor-se ao desenvolvimento da União Européia, mas aparentemente a estratégia se reduz a três táticas básicas. Fora dos setores eurocéticos, que fazem um trabalho de solapamento muito efetivo e que lamentavelmente pode terminar com a queda do sonho da integração européia, os opositores no exterior se dividem em três formidáveis setores.

O primeiro tenta espalhar com má intenção a noção de que a UE pretende se converter em um super Estado. Segundo essa visão, não somente se proporia enfrentar os Estados Unidos política e estrategicamente, como também se inflaria nos bolsos dos norte-americanos. A missão dessa nova União Européia seria conquistar economicamente o mundo.

O segundo é o que confunde certas experiências de colaboração intra-Europa, baseados na simples e pura relação econômica, com a realidade que depois foi a verdadeira UE. Em outras palavras, nega-se as cinco etapas da integração regional e se reduzem à primeira. Desaparecem a união aduaneira, o mercado comum (livre circulação de todos os fatores econômicos) e a união econômica (incluída uma moeda comum), escalas necessárias para a união política.

Finalmente, o terceiro método é aquele que considera agora como urgentemente necessário o puro e simples livre comércio de alguns países latino-americanos. A novidade é que não se propõe estar entre eles, mas com os Estados Unidos, como a vacina necessária para evitar um futuro escuro. Vamos por partes.

A primeira tática começou a ser tornar evidente quando a antiga Comunidade Européia se converteu na União Européia pelo Tratado de Maastricht de 1992 e anunciou sua intenção de adotar uma moeda comum, e com o tempo também uma política externa e de segurança comuns. Mas em nenhum momento esta nova UE foi projetada para irritar os Estados Unidos. A União Européia foi colocada em marcha para ser mais eficaz em cumprir, primeiro, sua missão original (de terminar com as guerras européias). Em segundo lugar, foi criada para dotar-se dos meios mais eficientes para não somente proporcionar sua nova defesa, como também para colaborar na pacificação de zonas conflitivas e ajudar no desenvolvimento. Esta transformação foi executada mediante o reforço das estruturas institucionais e a insistência na supranacionalidade das mesmas, bem dotadas e autônomas da influência dos diferentes Estados.

Curiosamente, esta supranacionalidade, que necessariamente deve ser aceita por todos (e não à la carte), esteve desde o princípio questionada pelos criadores de esquemas que vagamente não iam além do mais débil perfil intergovernamental, onde cada Estado pode exercer o veto e não está sujeito ao voto majoritário. Essa foi a idéia original de Winston Churchill. Embora ele tenha sugerido uns "Estados Unidos da Europa" em seu famoso discurso de Zurique em 1946, não viu seu próprio Reino Unido como integrante. A Britânia já contava com a Commonwealth e a privilegiada "relação espacial" com os verdadeiros Estados Unidos do outro lado do Atlântico. Schuman e Monnet nunca tiveram em conta esse modelo. Desde a cessão do carvão e do aço em mãos de uma Alta Autoridade (predecessora da Comissão atual) consideraram a economia como um simples meio para a integração política. É algo que o Reino Unido, antes e depois de Churchill, nunca esteve disposto a digerir.

É muito mais curioso agora que o livre comércio dos países centro-americanos com os Estados Unidos se apresente como uma necessidade política para evitar os desastres aos quais parecem estar condenados. Como que por mágica, a desculpa pela qual o autoritarismo e a chantagem foram a norma de numerosos regimes da América Latina e do Caribe durante Guerra Fria, hoje se transformou. Antes, o perigo era cair na órbita soviética, e assim se fez vista grossa e foram exigidos elevados fundos de ajuda (sobretudo militar). Hoje, o perigo de caos tenta se revolver pelo livre comércio, não entre os próprios países centro-americanos e caribenhos, mas com os Estados Unidos, mediante a colocação em marcha do (somente conhecido em inglês) Central America Free Trade Área-Dominican Republic (Cafta-DR). Ou seja, que a mínima operação de câmbio livre (que não a verdadeira integração econômica) agora se justifica como mecanismo insubstituível para resolver um problema político e um dano irreparável no futuro.

De uma perspectiva européia, portanto, a estupefação é óbvia. O que reticentemente se aceita como raiz da experiência européia (acabar com as guerras), se acrescenta agora na América Central e no Caribe para evitar o desastre social e político. Mas da mesma perspectiva não é possível compreender como se pode insistir no livre comércio com o gigante do norte sem ter a própria casa centro-americana e caribenha integradas. (IPS/Envolverde)

(*) Joaquín Roy é catedrático "Jean Monnet" e diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami. jroy@miami.edu.

Correspondentes da IPS

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