Banco Mudial: Wolfowitz entra em campo com a bola de Bush

Washington, 01/06/2005 – O ex-subsecretário da Defesa dos EUA, Paul Wolfowitz, a partir desta quarta-feira é o novo presidente do Banco Mundial, assumindo o cargo em meio a insistentes versões de que dirigirá a instituição por um caminho cada vez mais politizado. Na contagem regressiva de sua investidura, dezenas de organizações não-governamentais e instituições acadêmicas especializadas em questões de desenvolvimento manifestavam essa preocupação. Wolfowitz – afirmam – precisa modificar seu discurso, ou fará despencar a credibilidade do Banco Mundial. Considerado o planejador e principal motor da invasão do Iraque, deve restaurar a legitimidade da instituição e melhorar sua eficácia, advertiram especialistas convocados pelo Centro para o Desenvolvimento Global (CGD), com sede em Washington.

O Banco também deverá recuperar sua influência sobre os mercados emergentes e de médio ingresso que solicitam sua assistência, especialmente os da Ásia e América Latina, segundo os especialistas em finanças e desenvolvimento que participaram do painel do CGE. Ministros das Finanças da Ásia afirmaram, em abril, que estavam se afastando das recomendações do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI). A afirmação foi feita durante a reunião conjunta anual das duas instituições, realizada em Washington. Os ministros se queixaram de que as duas organizações, criadas em 1944 pelas nações vitoriosas da Segunda Guerra Mundial, favoreciam extremamente os interesses dos países industrializados às custas do Sul em desenvolvimento e de milhares de milhões de pobres. Os especialistas do CGD, incluídos veteranos funcionários de instituições financeiras multilaterais, propuseram que o Banco iniciasse avaliações de todos os projetos de assistência realizados.

Essa iniciativa coincide com a demanda norte-americana de que o Banco Mundial deve orientar suas operações com base nos resultados de seus projetos. Wolfowitz deverá combinar encanto, pressão e talento negociador para obrigar os membros da instituição, incluindo seu principal acionista, os Estados Unidos, a destacarem a credibilidade, influência e eficácia do Banco, disse a presidente da CGD, Nancy Birdsall. "Para atingir o sucesso, Wolfowitz deve fazer os máximos esforços em seus primeiros meses de gestão, aproveitar a lua-de-mel", afirmou Birdsall. Outro sinal de alinhamento das forças do Banco com a agenda de Bush, segundo ativistas, é o relatório do Departamento de Avaliação de Operações da instituição, segundo o qual esta deve se dedicar a incentiva ro crescimento econômico, mais do que priorizar os serviços sociais.

Em seu informe de 2004, o Departamento afirmou que o crescimento econômico deve se concentrar no ênfase estratégico das operações do Banco, não na educação ou saúde. O documento também reflete a importância de instaurar na instituição "um enfoque baseado em resultados", como proposto pelo governo Bush em seu primeiro mandato (2001-2005), e renovar a importância dada ao desenvolvimento de infra-estrutura e ao crescimento do setor privado. "Trata-se de um esforço do Banco Mundial para começar a corrigir a direção antes que Wolfowitz assuma o cargo, de modo que possa dizer: Isto começou antes da minha chegada", disse Soren Ambrose, da rede Cinqüenta Anos são Suficientes, que propões o perdão da dívida externa dos países pobres. "De fato, as diretrizes sugeridas no relatório são as mesmas que o governo Bush vem incentivando nos últimos anos", ressaltou Ambrose.

Numerosas organizações não-governamentais que vigiam de perto as operações do Banco Mundial consideram que a intenção de Bush ao propor Wolfowitz foi pressionar governos fracos e desacreditados que poderiam priorizar os direitos sobre seus cidadãos em detrimento dos interesses das corporações multinacionais. "Ele se encarregará de impulsionar a agenda do governo" Bush dentro do Banco "em nome da democracia", disse Doug Hellinger, da Development GAP, organização não-governamental com sede em Washington. "Abrirá mais ainda o acesso das companhias aos mercados, a recursos como o petróleo, a bens como os sistemas bancários e o trabalho barato", acrescentou. "Não só enfrentará grandes resistências na Ásia e na América Latina como, também, na África e no Oriente Médio", ressaltou.

Por sua vez, Wolfowitz já adiantou que considera a pressão econômica uma ferramenta para acabar com o que os Estados Unidos vêem como tiranias. Isso é o que preocupa os ativistas. Dizem que Wolfowitz usará palavras como "democracia" para promover a hegemonia norte-americana, particularmente no Oriente Médio. "A equipe de relações públicas do Banco deve convencer as pessoas de que o novo presidente é independente do governo Bush e de suas controvertidas políticas", diz uma carta pública assinada por numerosos ativistas. Para esta quarta-feira estão previstos protestos do lado de fora da sede do Banco Mundial em Washington e em outras partes do mundo. Mas, um porta-voz da instituição disse à IPS que o compromisso de Wolfowitz com a sociedade civil será uma prioridade do novo período, bem como o desenvolvimento da África. Trata-se de dois assuntos caros às organizações não-governamentais especializadas em desenvolvimento. (IPS/Envolverde)

Emad Mekay

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