Adis Abeba, 02/06/2005 – As eleições nacionais da Etiópia caminha para um final de conflitos, pois os dois principais setores de oposição se negam a aceitar como bons os resultados provisórios oficiais que dão maioria ao oficialismo. A Caolizão para a Unidade e a Democracia (CUD), principal grupo de oposição, ameaçou boicotar a próxima sessão parlamentar e realizar protestos se não forem investigadas suas denúncias sobre irregularidades em 139 distritos eleitorais. A CUD, que se considera vencedora das eleições do dia 15 passado, também recorreu aos tribunais para impedir que a Junta Nacional Eleitoral publicasse os resultados preliminares questionados, que favorecem o oficialismo.
Por outro lado, exigiu que a Justiça levante a proibição de realizar manifestações públicas em Adis Abeba recentemente estabelecida pelo governo do primeiro-ministro Meles Zenawi. Mas, observadores internacionais afirmaram que as eleições foram livres e justas, embora uma equipe da União Européia tenha ressalvado que o atraso nos locais de votação poderia ter originado abusos. Os resultados divulgados no final de semana indicavam que o a governante Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (EPRDF) havia conquistado a maioria absoluta das cadeiras no parlamento, aproximadamente 300. a oposição nem mesmo teria obtido um terço dos votos no Legislativo necessários para bloquear certas leis ou, pelo menos, reclamar concessões do governo.
Segundo dados divulgados na terça-feira, a CUD e as também opositoras Forças Democráticas Unidas da Etiópia (EUDF) somaram uma representação parlamentar sem precedentes de 175 cadeiras, entre elas até 23 correspondentes á capital. "Se tivermos pelo menos um terço das cadeiras, poderemos negociar. Com uma maioria oficialista de dois terços, o parlamento se limitará a colocar um selo de aprovação sobre as decisões do governo. Estou cansado disso", disse à IPS o vice-presidente da EUDF, Beyene Petros. Para aprovar caminhos constitucionais são necessários dois terços dos votos dos parlamentares. E é preciso contar com um terço para iniciar um debate.
É muito cedo para prever quais leis a oposição tentará promover ou bloquear, diz Beyene, "mas, os problemas urbanos são uma grande preocupação", acrescentou. Outra questão importante é a propriedade da terra onde são realizados cultivos de subsistência. "Não falamos de uma nova lei agrária, mas, esses agricultores têm algum título sobre o pedaço de terra em que trabalham? Essas coisas devem ser analisadas", advertiu Beyene. Mesmo se a oposição não conseguir um terço das cadeiras no parlamento, seu último avanço eleitoral foi notável. Na legislatura que termina, o EPRDF controlava 88% das 547 cadeiras.
A ministra de Informação Netsanet Asfaw admitiu que nesta quara-feira a escala de vitória opositora em Adis Abeba e outros distritos, mas, a atribuiu á insatisfação pela pobreza do país mais do que á adesão que pudessem ter conseguido esses partidos. "O desemprego pode ter sido um dos fatores. Não é tão alto como em outros países, mas, existe. Procuramos criar postos de trabalho, mas isso não significa que corremos tão rápido como querem as pessoas", disse Asfaw. A Junta Nacional Eleitoral, responsável por supervisionar as eleições do mês passado, aceitou esta semana integrar um comitê com representantes de todos os países para investigar as denúncias de irregularidades.
Mas, uma repetição do ato eleitoral em determinado distrito "pode ser determinada apenas se estimar-se que as irregularidades cometidas podem ter sido decisivas no resultado", disse o presidente da Junta, Kemal Bedri. A CUD aplaudiu a formação do comitê. "Mas, também esclarecemos que não aceitaremos nenhuma tentativa de manter o poder por meio da força. Nos prepararemos para tomar todo tipo de medidas pacíficas e legais" para impedi-lo, disse o vice-presidente da coalizão opositora, Berhanu Nega. "Uma das opções em nosso arsenal pacífico é decidir se seremos, ou não, parte de um governo tão ilegal, embora seja muito cedo para tomar uma decisão", afirmou.
Também se analisa a possibilidade de convocar greves, fechar escolas e bloquear o comércio e o transporte. Ainda restam ser preenchidas 15 cadeiras. A votação na região de Somali, que tem 23 lugares no parlamento, foi adiada para agosto. As autoridades eleitorais prevêem ter o resultado definitivo no dia 8 de junho, uma vez que tenham sido investigadas as denúncias de irregularidades. O novo parlamento deverá eleger o chefe de governo, responsabilidade que, segundo todos os prognósticos, voltará a recair sobre Zenawi. (IPS/Envolverde)

