Washington, 20/05/2005 – Mais de 40 milhões de indígenas da América Latina vivem em piores condições de saúde, educação e renda do que o resto da população, apesar dos avanços em matéria de representação política, afirma o Banco Mundial. "Houve algumas melhoras a respeito do desenvolvimento humano, particularmente em educação, mas isso ainda não permitiu uma redução substancial da pobreza", diz um relatório do Banco que analisa os esforços para melhorar a qualidade de vida dos indígenas nos últimos 10 anos. O estudo, divulgado nesta quarta-feira, intitulado "Povos indígenas, pobreza e desenvolvimento humano na América Latina: 1994-2004", se concentra nos cinco países com maior proporção de população nativa da região: Bolívia, Equador, Guatemala, México e Peru.
A população indígena constitui 10% do total da região, mas seu nível de renda e seus indicadores de desenvolvimento humano ficam persistentemente para trás dos índices gerais, segundo o informe. "O estudo reflete algumas evidências de mudanças positivas nas condições de vida dos povos indígenas entre 1994 e 2004", disse Gillette Hall, economista do Banco Mundial e co-autora do relatório. "As taxas de educação, por exemplo, melhoraram. Mas as principais conclusões ressaltam o fato de não terem ocorrido muitas mudanças positivas", acrescentou Hall.
Milhares de comunidades indígenas, com suas próprias línguas e culturas, permanecem em seus territórios ancestrais de todo o mundo, especialmente na América Latina, África e Ásia. Muitas mantêm suas tradições na alimentação, medicina e vestimenta, produzidas com materiais extraídos de seu próprio entorno natural, e vivem freqüentemente em conflito com as populações dominantes. O Banco considera que os resultados do estudo representam um mau presságio para a economia da América Latina. "A pobreza entre os indígenas é superior à do resto da população e cai com maior lentidão, uma notícia ruim para um continente dedicado a cumprir os Objetivos das Nações Unidas para o Desenvolvimento do Milênio, como reduzir à metade os pobres até 2015", disse outro co-autor do estudo, Harry Patrinos, também economista do Banco Mundial.
Entretanto, o documento constatou um aumento na pujança política das comunidades nativas da América Latina, para o qual avaliou a existência de partidos indígenas, de cláusulas constitucionais, programas de saúde e educação em benefício da população originária. Segundo os autores do informe, as organizações não-governamentais têm um grande papel em realçar a influência política dos indígenas. Nos últimos 20 anos, aumentou em todos os países a proporção de legisladores nacionais pertencentes a estas comunidades. Mas, esse aumento da representação política indígena não se traduziu em benefícios concretos.
"Apesar de sua crescente influência política, os povos indígenas consideram sua voz em questões governamentais como extremamente limitada, e associam esta condição co a contínua pobreza", diz o relatório. O próprio Banco Mundial é criticado pelos aparentes prejuízos que os projetos financiados com seu dinheiro causaram ao habitat, à cultura e aos meios de vida dos povos indígenas. "Parte da história verdadeira é o quanto prejudicial são alguns dos investimentos quanto ao uso de territórios indígenas e violação dos direitos de sua população", disse Peter Kostishack, co-diretor da não-governamental Aliança Amazônica. Kotishak e outros ativistas se referem, em particular, ao desmatamento, à mineração e outras atividades extrativas.
Indígenas do Peru, incluídas comunidades muito isoladas, estão ameaçados pelo projeto Camisea, para extração em uma jazida de 11 bilhões de pés cúbicos de gás natural e mais de 600 milhões de barris de gás liquefeito de petróleo, que serão transportados por gasoduto a casas e indústrias da região e para a exportação. Porém, funcionários afirmam que o Banco faz tudo ao seu alcance para proteger a população indígena e melhorar sua qualidade de vida. Asseguram que a política nesse sentido é constantemente reavaliada. O Banco Mundial é a primeira instituição multilateral a contar com uma política regulatória de seu trabalho a respeito da população indígena, acrescentam os funcionários. Esta instituição aprovou mais de 109 projetos envolvendo povos indígenas nos últimos 12 anos. "Nossa vontade de divulgar este relatório é um indicador de nosso interesse e preocupação. Do meu ponto de vista, como funcionária do Banco Mundial, nunca senti outra coisa que não apoio em meu trabalho sobre estes assuntos", afirmou Hall. (IPS/Envolverde)

