Arcata, Califórnia, 20/05/2005 – Em todos os tempos e em todas as latitudes, os pobres e os discriminados por motivos raciais foram empurrados para as terras menos favorecidas e menos férteis, mais propensas a inundações e secas. Mas somente nas últimas décadas ficou evidente como as indústrias tóxicas se instalam de forma desproporcional nas vizinhanças desses grupos populacionais. O racismo ambiental é um fenômeno estreitamente associado à globalização econômica. A maioria das empresas multinacionais do Norte prefere se desfazer de seus dejetos nos países do Sul, onde a pobreza e a falta de emprego transformam o manejo do lixo tóxico em uma trágica necessidade.
Também é nítida a tendência das indústrias contaminantes de se instalarem em países onde a mão-de-obra é barata, como China e Índia. Com isso, não só diminuem os custos trabalhistas, como também evitam as regulamentações ambientais que vigoram em seus países de origem e que tornariam seus produtos menos competitivos. A discriminação se reproduz em alguns países do Sul. Por exemplo, em sua precipitada investida rumo ao desenvolvimento econômico, a China está submetendo seus cidadãos mais pobres a grandes riscos ao manter em suas proximidades atividades manufatureiras sem considerar seus letais impactos no ar, na água e no solo que os cerca. Freqüentemente, os meios de comunicação fazem uma cobertura fugaz dos acidentes industriais distantes.
O catastrófico vazamento de produtos químicos letais em uma instalação da Union Carbide em Bhopal, na Índia, há duas décadas, causou mais de três mil mortes e 500 mil feridos. Foi o pior acidente industrial da história. Entretanto, enquanto o ataque ao World Trade Center em Nova York em setembro de 2001, que matou uma quantidade semelhante de pessoas que em Bhopal mas que deixou menos feridos, atraiu a atenção mundial a ponto de se transformar em agenda global, a cidade indiana logo foi esquecida. Mesmo em uma nação opulenta como os Estados Unidos, os pólos de pobreza atraem as indústrias contaminantes. Os residentes pobres e na maioria brancos das comunidades à margem das usinas petroquímicas gigantes no chamado "Beco do Câncer" no Estado de Luisiana e em outros locais ao redor do país, são afetados de forma desproporcional por causa da contaminação do ar, do solo e da água e pelo envenenamento com pesticidas e chumbo.
Mas não é fácil realizar estudos comprobatórios das relações causa-efeito entre a contaminação e as enfermidades. São necessárias investigações caras e a longo prazo, que quase sempre os afetados não podem exigir. Em Diamond, na Luisiana, uma comunidade afro-americana situada junto ao rio Mississippi, ao longo do chamado Corredor Químico, entre Nova Orleans e Baton Rouge, várias centenas de descendentes diretos de escravos vivem entre duas enormes refinarias químicas instaladas pela companhia Shell. Durante meio século, eles subsistiram com um coquetel tóxico de ar contaminado, queima maciça de gás e periódicos acidentes industriais.
Os moradores de Diamond sofrem doenças que, segundo eles, são causadas por sua exposição às operações químicas da Shell: dores de cabeça, alergias, asma, problemas respiratórios, afecções na pele, além de numerosos casos de câncer que cobraram muitas vidas. Entretanto, na comunidade de Norco (que inclui oficialmente Diamond) 98% dos habitantes são brancos. As duas comunidades estão separadas por uma área arborizada e por um abismo de cultura e experiência que as converte em mundos separados. Ao contrário dos moradores de Diamond, poucos dos quais podem conseguir trabalho na Shell, na comunidade branca de Norco prevalecem os empregados da empresa, que proporciona escolas, hospitais e outras formas de assistência a várias gerações de moradores.
Enquanto os moradores de Diamond denunciavam sintomas graves de contaminação química, seus vizinhos de Norco afirmavam que seu estado de saúde era melhor do que a média nacional. As contrastantes percepções das duas populações mostram as conseqüências da segregação institucionalizada. Em meados dos anos 90, os moradores negros de Diamond embarcaram em uma árdua campanha para conseguir que a Shell comprasse suas terras a preços que lhes permitisse iniciar a vida em outro lugar. Resistente a princípio, a companhia finalmente cedeu às pressões de uma campanha magistralmente orquestrada por militantes ambientalistas em todo o país, e também à ação de especialistas legais e cientistas que rebateram com sucesso os argumentos da indústria e do governo.
Ajudaram na campanha outros casos de luta ambientalista, como a notória repressão da Shell contra a comunidade Ogoni, no delta do Níger. Durante uma conferência internacional sobre mudança climática, a dirigente de base de Diamond, Margie Richard, apresentou a um funcionário da Shell uma amostra do coquetel tóxico de Diamond. Assombrado e comovido, Robert Kleiburg mobilizou rapidamente a alta direção da Shell para adotar ações que impeçam a repetição de experiência semelhante à da Nigéria. Com o tempo, a aparentemente quixotesca reclamação de uma indenização por parte de Diamond não somente teve êxito, como também se converteu em modelo para as campanhas pela justiça ambiental em outros países.
Entre as muitas lições desta experiência, se destaca de que o sucesso depende da coordenação de diversas estratégias complementares: ativismo de base, experiência científica e legal, obtenção de verbas de fundações, participação de celebridades e políticos e a mobilização de diversas associações em níveis local, nacional e internacional. E requer também presteza, tanto para erguer barricadas quanto para estender pontes no contexto de um entendimento compartilhado entre os aliados de que tais táticas, aparentemente contraditórias, freqüentemente são essenciais. Assim como é decisivo permanecer fiel aos princípios originais, é fundamental se comunicar em nível humano com aqueles que "do outro lado" defende interesses diferentes dos nossos, mas igualmente respeitáveis. (IPS/Envolverde)
(*) O jornalista Mark Sommer dirige o Mainstream Media Project e coordena o premiado programa de rádio "A world of possibilities".

