Ambiente: Bush defenestra Bolívar

Fort Lauderdale, Flórida, 10/06/2005 – Se há algo a ser reconhecido na personalidade de George W. Bush é que se trata de uma pessoa tenaz. Também é inovador. Seu perfil é o mais distante do que pretende passar desapercebido. Chegou à Presidência através de eleições polêmicas e algumas poucas papeletas lhe deram a vitória sobre Al Gore. O dia 11 de setembro o colocou para sempre na história e sua teimosia em derrubar Sadam Hussein desembocou na mais grave quebra do Ocidente desde a Guerra do Vietnã.

Agora, em um ambiente afastado da centralidade das prioridades estratégicas dos Estados Unidos, uma vez mais imerso em um período de desdém em relação à América Latina, foi imposto a Bush um líder importuno e populista. Mas, em lugar de esbofeteá-lo diretamente, as recriminações no momento são verbais. O que pode ser mais grave é que, Bush decidiu ignorar o emblema do processo político de Hugo Chávez, essência insubstituível da "revolução" que, não gratuitamente, o coronel antigo golpista e tenazmente reeleito e superconfirmado, chama de "bolivariana".

O contexto escolhido por Bush foi uma novidade nos anais da OEA, em cuja Assembléia Geral realizada na cidade de Fort Lauderdale, na Flórida, ofereceu o discurso principal de boas-vindas. Os historiadores, provavelmente, se mostrarão surpresos ao comprovarem que Bush pode ser o primeiro presidente norte-americano que em tais reuniões não reconheceu a (pretendida e exagerada) autoria do sistema interamericano no desenho do Libertador, Simon Bolívar.

Durante mais de um século, provavelmente desde a fundação em 1890 da predecessora da OEA, a União Internacional de Repúblicas Americanas, depois melhor conhecida como União Panamericana, vista freqüentemente como uma espécie de Ministério de Colônias, qualquer presidente norte-americano sucumbia à tentação. Apreciando melhor as relações com a América Latina, havia um elogio a Bolívar a quem se dava devido crédito como fundador visionário não somente da unidade latino-americana, mas também da própria integração interamericana.

Um veículo preferido pelos presidentes e secretários de Estado era recordar que quando Bolívar, em 1824, convocou o Congresso Anfictiônico realizado no Panamá em 1826, de fato estabeleceu as bases não somente da atual OEA, mas de todo os esquemas de cooperação e integração nas Américas. Nem mesmo Clinton deixou de conceder certa homenagem ao Libertador no momento de criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) em Miami, em 1994.

De nada servia recordar com rigor histórico que Bolívar não se sentiu inclinado a incluir os Estados Unidos (país que considerava de uma tradição social diferente) no projeto. Reticente, convidou seus representantes, e um deles chegou atrasado e o outro morreu pelo caminho. Tampouco, por razões diferentes (se tratava de uma monarquia, na época), podia aceitar o Brasil.

Mas enfim, havia um consenso entre protocolar e americanista: Bolívar servia para tudo. Até que agora, em Fort Lauderdale, o expulsaram da história interamericana, sendo substituído pelo general José de San Martín, artífice da libertação latino-americana, junto com José Martí. A razão é óbvia, e não escapou aos venezuelanos na audiência: é uma maneira de ignorar Chávez, sem se referir diretamente a ele.

Quem escreveu o discurso de Bush, entretanto, terá reparado que a famosa entrevista de Guayaquil entre o libertador do sul da América do Sul e do norte se resolveu enigmaticamente com o argentino calando-se no fórum e deixando a finalização do processo independentista em mãos do venezuelano. Tampouco Bush mencionou que San Martín terminou exilado, triste e pobre, em Londres.

Não se pode mais do que meditar com preocupação sobre o uso e abuso que se faz das grandes figuras da história latino-americana, e sobretudo de suas estrelas máximas do pensamento político. O mais manipulado e tergiversado é precisamente Bolívar. Seu pensamento contraditório, às vezes conservador e autoritário, às vezes progressista, mas nunca revolucionário no sentido que se que atribuir a ele agora, já foi muito danificado. Agora, sofre com a defenestração e com o obscurantismo. Mas o problema é que o silêncio deste concreto caso de discurso na OEA tinha uma clara intenção de proceder pelo confronto verbal com Chávez.

(*) Joaquín Roy é catedrático Jeann Monnet e diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami (jroy@miami.edu).

Correspondentes da IPS

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