Ambiente: Natureza caribenha contra as Metas do Milênio

Havana, 09/06/2005 – O impacto dos desastres naturais nos países caribenhos é um obstáculo às metas de desenvolvimento traçadas para o milênio pela Organização das Nações Unidas, admitiram funcionários do fórum mundial em Cuba. "Está demonstrado que os desastres afetam de maneira dramática as economias nesta região", disse à IPS Margherita Vitale, diretora da Iniciativa Caribenha de Manejo de Riscos (CRMI, sigla em inglês), que mencionou entre os casos mais recentes o de Granada. As conseqüências do furacão Ivã, um dos mais fortes que atingiu a região em 2004, causou a essa pequena ilha do Caribe de língua inglesa, prejuízos avaliados em US$ 889 milhões, equivalente a mais que o dobro de seu produto interno bruto de 2003.

As Metas de Desenvolvimento do Milênio fixadas pela ONU incluem a redução pela metade da pobreza extrema e da fome, educação primária universal, promoção da igualdade de gênero, fazer retroceder a mortalidade materna em três quartos e a infantil em dois terços, combater a síndrome de imunodeficiência adquirida, malária e outras doenças. Essas metas específicas estão programadas para serem cumpridas antes de 2015 e têm como referência os níveis de 1990. Um relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) indicou que os efeitos do desastre serão sentidos por muitos anos na economia desse país, que perdeu 89% de suas moradias.

Entre as atividades mais afetadas figuram turismo e produção de cultivos tradicionais. Quase 90% do custo total correspondeu a danos diretos e o restante ao efeito na produção doméstica de bens e serviços, acrescenta o relatório da Cepal. Segundo a avaliação desta agência da ONU, a última temporada de ciclones, que vai de junho a novembro, deixou perdas superiores a US$ 2,1 bilhões em toda área do Caribe. "Em Granada, onde praticamente não ficou um único edifício sem danos, o impacto sobre as metas do milênio é dramático", disse Ulrika Richardson-Golinski, representante residente adjunto em Cuba do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

Nesse sentido, as duas funcionárias concordaram que os desastres naturais na região aumentaram tanto em número quanto em intensidade, panorama que obriga a melhorar a capacidade de resposta das nações da área. "A redução de riscos é tão importante quanto a prevenção dos desastres e tem a ver com a agricultura, moradia, meio ambiente, uso da terra e muitos outros setores", disse Richardson-Golinski. Como exemplo, a especialista disse que minimizar os perigos de desastres significa construir casas com materiais resistentes e em lugares menos vulneráveis ou então, no caso de seca prolongada, utilizar sistemas de irrigação e cultivos adaptados à escassez de água.

Em sua opinião, essa é uma maneira de utilizar os recursos dos doadores de uma maneira mais eficiente. "Investir para reduzir o risco de desastre é proteger os projetos de desenvolvimento", afirmou a representante do Pnud. Para fortalecer suas capacidades nacionais e regionais de minimizar os riscos diante de cataclismas naturais, representantes de países da Bacia do Caribe acolheram em Havana a idéia de criar uma rede para o manejo desses perigos. O acordo faz parte do Consenso de Havana, subscrito por representantes da Associação de Estados do Caribe (AEC) ao término de um seminário para autoridades nacionais sobre políticas, sistemas e experiências sobre manejos de riscos no Caribe, realizado na semana passada na capital cubana.

"A rede é parte da CRMI, que tem por objetivo colocar sob o mesmo teto as diferentes iniciativas e projetos já existentes no Caribe", disse Vitale, assinalando que o sistema da ONU é uma prioridade à questão da redução dos perigos de desastre. A especialista recordou que um dos resultados principais da reunião de Kobe (Japão), em janeiro deste ano, foi a decisão de fortalecer a comunicação e a cooperação regionais para melhorar a resposta a desastres naturais. Essa conferência mundial também adotou, entre outros documentos, uma declaração sobre o maremoto no oceano Índico de dezembro de 2004, voltada a reduzir o risco de futuros desastres.

A CRMI está projetada para criar capacidades na região caribenha a fim de enfrentar adequadamente a crescente ocorrência de perigos naturais e ambientais, bem como enfatizar o conceito de mudança climática e vulnerabilidade social. Suas atividades são colocadas em prática através dos escritórios do Pnud em Cuba, Barbados, República Dominicana, Haiti e Jamaica. Informes do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) consideram urgente levar em conta a vulnerabilidade sócio-econômica e ambiental em todo planejamento futuro do desenvolvimento sustentável.

"É necessário priorizar os pobres, que em geral são os mais afetados, devido à sua maior vulnerabilidade e porque têm menores opções de recuperação", afirma o Pnuma em seu relatório regional de 2003. A esse respeito, Vitale disse que um dos objetivos do CRMI é ajudar de modo particular os países com problemas maiores em nível institucional e menor capacidade para enfrentar eventos extremos, como é o caso do Haiti, de alta vulnerabilidade diante de tempestades tropicais, inundações e outros desastres."Temos em conta as diferenças de desenvolvimento e sabemos quais são os países que necessitam mais apoio. Em Cuba, conversamos com autoridades da Defesa Civil, que estão dispostas a participar de um projeto de colaboração com o Haiti", disse a especialista.

Previsões de especialistas cubanos para 2005 indicam que a atual temporada de ciclones também será intensa em toda área formada pelo Atlântico Norte, golfo do México e mar do Caribe, com cerca de 13 tempestades tropicais e furacões previstos. Entre as causas que explicam essa atividade figuram a ausência do evento ENOS (El Niño/Oscilações do Sul), pelo menos durante os próximos quatro meses, e o notável aquecimento do mar em toda faixa tropical do Oceano Atlântico, incluído o Caribe. Estima-se que pelo menos um dos furacões previstos pode passar por Cuba, cujo sistema de alerta e prevenção diante desses fenômenos hidrometeorológicos figura entre os mais eficientes da região. (IPS/Envolverde)

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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