Comércio: EUA querem yuan valorizado

Washington, 24/06/2005 – Legisladores norte-americanos propuseram uma lei para forçar a China a valorizar sua moeda, sob ameaça de aumento das tarifas alfandegárias para suas exportações. Esta é a última medida dos Estados Unidos para frear as importações baratas da China que, segundo Washington, ameaçam trabalhadores, indústrias e empresas norte-americanas. Os legisladores afirmam que a desvalorização da moeda chinesa, o yuan, mantida em paridade com o dólar norte-americano, artificialmente faz com que os produtos chineses sejam mais baratos e as exportações dos Estados Unidos menos atraentes. "As pessoas estão perdendo seus empregos e nossa economia sofre com as práticas comerciais injustas da China, e é hora de lhe enviarmos uma dura mensagem", afirmou o congressista republicano Mark Green, um dos quatro co-patrocinadores do projeto.

Junto com Green, Phil English, Chris Chocola e Robin Hayes, todos do governante Partido Republicano, anunciaram esta semana seu projeto de lei de Iniciativa de Harmonização Monetária Mediante Ações Neutralizadoras. Segundo o projeto, a taxa de câmbio da China infringe as normas da Organização Mundial do Comércio e também pode estar violando o Artigo IV da Carta Constitutiva do Fundo Monetário Internacional, que proíbe a manipulação monetária para impedir ajustes na balança de pagamentos ou obter vantagens comerciais injustas. Mas em Washington existe o consenso de que o verdadeiro motivo por trás da iniciativa é o crescente déficit comercial dos Estados Unidos, que atingiu o recorde de US$ 195,1 bilhões no primeiro trimestre deste ano.

Segundo a Comissão Estados Unidos-China de Análise Econômica e de Segurança, o déficit comercial norte-americano com os chineses se multiplicou por 20 nos últimos 14 anos, ao passar de US$ 6,2 bilhões em 1989 para US$ 160 bilhões no ano passado. Como resultado, o Tesouro dos Estados Unidos reclamou publicamente em várias oportunidades que Pequim fazia o yuan flutuar. As medidas de pressão incluíram um relatório divulgado em maio pelo Departamento do Tesouro que, pela primeira vez, afirma que a China agora está em condições técnicas de fazer sua moeda flutuar. O informe semestral "Políticas econômicas e cambiais internacionais" adverte que Pequim poderia ser citada no relatório de novembro como manipuladora de sua moeda, caso não adotasse medidas corretivas.

Muitos economistas norte-americanos apóiam a reclamação oficial de uma valorização da moeda chinesa. "Os Estados Unidos têm um grande déficit comercial que não é sustentável, e é claro que a China é parte desta história, por sua taxa de câmbio", disse Dean Baker, co-diretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas. "Portanto, considero razoável que Washington pretenda uma taxa de câmbio diferente", acrescentou. Baker compartilha a idéia de que seria melhor, tanto para a China quanto para os consumidores norte-americanos, que Pequim valorizasse sua moeda, em lugar de ter de enfrentar um aumento das tarifas alfandegárias.

"Se as tarifas aumentarem 40%, por exemplo, custará mais 40% para os norte-americanos adquirirem os produtos. Esse adicional será arrecadado pelo governo dos Estados Unidos como impostos. Mas se os produtos aumentarem 40% pela valorização do yuan, pelo menos uma parte irá para os produtores chineses", explicou. Porém, outros economistas afirmam que não cabe culpar a China pelos problemas comerciais dos Estados Unidos e que as novas medidas podem expor este país a acusações de protecionismo que teriam um grande custo a longo prazo. "Provavelmente, a China reajustará sua moeda em um futuro não muito distante. As ameaças do Congresso e da Casa Branca se baseiam em bobagens populistas que, se constarem de uma lei, causarão um prejuízo real às famílias norte-americanas", advertiu Daniel Griswold, diretor do Centro de Estudos de Políticas Comerciais do Instituto Cato, de Washington.

Griswold recordou que a China tem uma forte demanda de produtos norte-americanos como trigo, soja, algodão, plástico, semicondutores e máquinas industriais, e que desde 2000 as exportações chinesas para os Estados Unidos duplicaram, passando dos US$ 35 bilhões, enquanto as exportações para o resto do mundo aumentaram apenas 2%. Além disso, "os dólares que os chineses ganham com suas vendas no mercado norte-americano não estão guardados em colchões, mas voltam aos Estados Unidos, seja para comprar nossos produtos ou como investimentos em bônus do Tesouro", destacou o economista. O aumento das tarifas alfandegárias para os produtos procedentes da China afetaria "uma relação mutuamente benéfica" com a economia mais dinâmica do mundo, advertiu. (IPS/Envolverde)

Emad Mekay

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