Darfur: Bush fala de genocídio, mas mantém distância

Washington, 03/06/2005 – O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, quebrou silêncio de seis meses sobre a crise na região sudanesa de Darfur, ao reiterar sua crença de que ali está ocorrendo um genocídio. Porém, nas declarações que fez esta semana não deu nenhum sinal de que seu governo irá realizar gestões mais contundentes para deter o massacre. "Esta é uma situação séria", disse o presidente durante uma sessão de fotos para a imprensa junto com seu colega sul-africano Thabo Mbeki. "Como vocês sabem, o ex-secretário de Estado, Colin Powell, com minha anuência, declarou a situação como genocídio", afirmou.

Bush informou que realiza consultas com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e outros aliados ocidentais à procura de aumentar o apoio logístico aos 2.300 integrantes da missão militar e policial da União Africana (UA) em Darfur. Numerosos ativistas de direitos humanos e pelo desenvolvimento da África, cada vez mais preocupados pela aproximação de Washington com o regime da Frente Islâmica Nacional (NIF), não se deixaram impressionar pelas declarações de Bush. "São desesperadamente oportunistas", afirmou Eric Reeves, professor do centro universitário Smith College, que teve papel destacado na campanha internacional para chamar a atenção sobre as matanças em Darfur.

"Isso só pode ter a intenção de reverter a percepção de que o governo norte-americano se retrata de sua outrora forte posição" contra o regime islâmico em Cartum, afirmou Reeves. "Parece que Bush tenta se esconder por trás de Colin Powell", concordou Ann-Louise Colgan, subdiretora da organização norte-americana África Action. "É uma resposta completamente insuficiente para um genocídio dizer que está enviando um avião cargueiro", completou. Os informes mais aceitos indicam que a matança de negros muçulmanos por milícias árabes janjaweed – patrocinadas pelo regime de Cartum – continua, segundo Golgan. "A prioridade é proteger a população. Neste momento, nada menos do que uma intervenção multinacional poderia conseguir tal objetivo", ressaltou.

As declarações de Bush foram feitas em meio a uma crescente pressão sobre o governo para que adote ações após dois anos e meio de campanha contrainsurgente em Darfur por forças governamentais e os Janjaweed. As ações nessa região já causaram a morte de, pelo menos, 400 mil pessoas e o deslocamento forçado de 2,5 milhões. Na semana passada, cerca de 80 organizações religiosas e de direitos humanos reclamaram da Casa Branca, através de uma carta pública, que proponha ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas que autorize a força da UA a utilizar armas para proteger a população civil. Com o argumento de que o genocídio é uma preocupação mundial, as organizações, entre elas África Action, Conselho Nacional de Igrejas dos Estados Unidos e Médicos pelos Direitos Humanos, também pediram a Bush uma "forte mobilização internacional" para ajudar no trabalho da UA.

Por outro lado, os promotores de um projeto de lei autorizando o presidente a usar a força militar para deter as matanças anunciaram que 144 representantes (25% dos membros da Câmara baixa) o assinaram como co-patrocinadores. Uma pesquisa publicada na quarta-feira pelo Grupo Internacional de Crise indica que quase quatro em cada cinco entrevistados norte-americanos são a favor de uma forte ação por parte da comunidade internacional para por fim ao massacre. E, entre outras medidas, previram a instauração em Darfur de uma zona proibida para sobrevôo de aviões sudaneses.

Apesar de apenas 64% dizerem saber da situação em Darfur, 84% consideraram que os Estados Unidos não deveriam tolerar atos de genocídio ou crimes contra a humanidade por parte de um regime extremista, e que nesse caso poderia enviar tropas para impedi-lo. De todo modo, a maior pressão sobre Bush procede de fontes externas, principalmente de Mbeki, que aplaudiu o gentil apoio logístico de Washington à operação da UA. "Note-se que não pedimos a ninguém de fora do continente africano o envio de tropas a Darfur. É uma responsabilidade africana, e podemos fazê-lo", disse o presidente da África do Sul. "A UA demonstrou sua liderança, mas, não pode enfrentar sozinha essa carga, e não deveria, pois o genocídio é um crime contra a humanidade", acrescentou.

Na semana passada, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, viajou a Darfur para expressar sua preocupação. Mas, após deixar o Sudão, as autoridades detiveram seu intérprete sudanês e os dois principais ativistas na região da filial holandesa da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras. Por sua vez, o subsecretário de Estado norte-americano, Robert Zoellick, que visitará Darfur no final de semana, disse que o regime de Cartum "trabalha duro para encontrar uma solução política" para a crise humanitária. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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