Haiti: Um país pela metade!

Jeremie, Haiti, 06/06/2005 – A província Sul do Haiti sofreu uma severa seca que impediu, inclusive, a semeação, mas não chega ajuda financeira internacional para enfrentar a situação. A queixa é de Cécile Banatte, a governante local designada pela administração interina central para a região de maior produção agrícola do país. a preocupação de Banatte ganha traços de tragédia se levamos em conta que essa vasta zona do sudoeste haitiano, onde opera um batalhão uruguaio como parte da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah), é responsável por boa parte dos minguados alimentos para a população do país, calculada em cerca de 8,5 milhões de habitantes, mas sem dados oficiais confiáveis.

A falta de água e o atraso no início da temporada de chuvas, que normalmente vigora entre final de abril até junho, com precipitações fortes que lavam a terra, é visto claramente desde o avião que levou, desde Lês Cayes até Jeremie, as duas principais cidades da província, um grupo de jornalistas uruguaios, do qual a IPS faz parte. Desde a montanha que atravessa a região de leste a oeste descem quatro rios nos quais agora só tem barro e um fio de água, suficiente apenas para que as pessoas do lugar se banhem e lavem suas roupas, como fazem desde tempos ancestrais por falta de infra-estrutura e saneamento. Também pode-se ver áreas áridas onde em algum momento houve cultivos.

Apesar disso, o sul do Haiti continua mostrando um verdor que há anos desapareceu na maior parte do país, especialmente no norte e no vale central de Artobonite, até 20 anos atrás coberto de arrozais que chegaram a abastecer o consumo nacional. Hoje, essa produção está em seu nível mínimo para subsistência dos camponeses, que resistem em emigrar. Por isso, e pela desatenção histórica do governo central para com o sul é que afloram ali, de tempos em tempos, desejos separatistas, diz Banatte. As árvores ainda se sucedem a curta distância e a agricultura familiar é uma constante em cada casa localizada ao lado dos caminhos de pedras soldas, que ficam intransitáveis em muitos trechos quando as chuvas chegam e inundam tudo.

No Haiti, a única coisa semelhante ao termo médio é a associação de muitos males com o número 50. Somente são produzidos 50% dos alimentos que consomem, a expectativa de vida está em torno dos 50 anos, 50% da população são analfabetos, 50% dos habitantes têm menos de 21 anos, muito pouco mais do que 50% têm acesso a água potável e saneamento, e a desnutrição também tem incidência semelhante. No Haiti, morre uma criança de fome por hora por má nutrição e em regiões do norte, de escassa ou nula produção agrícola, chega-se a 29 mortes a cada dia, em uma população total de pouco mais de um milhão. A mortalidade infantil, por essa razão e por falta de saneamento, já está na casa dos 69 por mil, disse a dinamarquesa Anne Poulsen, da delegação no país do Programa Mundial de Alimentação (PMA).

Indicadores explicáveis se considerar-se que três em quatro haitianos dependem, de uma ou outra maneira, da agricultura, em grande parte de sobrevivência e na qual ainda prevalece a tração a sangue, animal e humana. Transitar pelas zonas rurais do Haiti é como regressar ao século XIX. Em uma semana percorrendo o sul, os jornalistas uruguaios só chegaram a ver um trator. O ministro da Agricultura, Recursos Naturais e Desenvolvimento Rural, Philippe Mathieu, disse em entrevista coletiva aos jornalistas uruguaios que cerca de 700 mil famílias vivem da terra, que sofre erosão até o esgotamento pelo desmatamento histórico que deixou apenas 2% das árvores encontradas pelos colonizadores.

Com um entusiasmo que se parece mais com um discurso "para exportação", Mathieu comentou que, de todo modo, seu país ainda conserva muitas riquezas naturais, entre elas manga, fruta da qual é o quinto exportador mundial. A agricultura também produz arroz, cacau e pimenta, e cria-se aves, caprinos e porcos, muitos dos quais podem ser vistos em pleno centro de Porto Príncipe buscando comida nas pilhas de lixo que ficam nas ruas. "O sul é um exemplo do esforço para superar a violência que expulsou muita gente do campo", afirmou o ministro. "Ali a situação está controlada", acrescentou se referindo ao trabalho realizado pelo Batalhão Conjunto Uruguaio 1, destinado a esse lugar pelo comando da Minustha.

"O que esperamos também é que as forças de paz trabalhem com nossos camponeses", acrescentou. Mas, advertiu que "a solidariedade internacional é fundamental para que possamos conseguir a institucionalidade", em óbvia referência ao atraso na chegada da cooperação financeira prometida pelos países ricos. Um estudo feito no ano passado por especialistas internacionais junto com o governo interino de Boniface Alexandre (designado depois da derrubada, em 29 de fevereiro) do presidente Jean-Bertrand Aristide), estabeleceu que era necessária a ajuda externa de, pelo menos, US$ 1,3 bilhão em dois anos para reconstrução e institucionalização do país. depois, essa previsão aumentou com mais US$ 1 bilhão, mas, até agora, os doadores somente desembolsaram US$ 250 milhões, e argumentam que os eventuais beneficiários não estão bem identificados ou não são confiáveis.

Mais além da queixa do ministro pelos recursos que não aparecem, quando consultado sobre dados referentes à área que maneja, duvida ou diretamente admite que não conta com um panorama. Claro. Respostas igualmente nebulosas obteve a IPS ao consultar seu colaborador imediato, o diretor de Pesca, Roberto Badieu. Entre seus planos está revitalizar a produção de arroz, "produto estratégico", segundo Badieu, e outrora bandeira das exportações haitianas, até que o abriu, sob pressão externa, suas fronteiras comerciais, em meados dos anos 80, quando se aprofundava no mundo a aplicação do modelo chamado neoliberal. Essa eliminação das barreiras comerciais permitiu a entrada de arroz norte-americano subsidiado, um furacão devastador para o cultivo nacional, apesar de estes darem um grão de alta qualidade, muito apreciado pelo paladar local e estrangeiros.

A queda de 50% (novamente o número funesto) das vendas locais e ao exterior do arroz haitiano empurrou para Porto Príncipe uma multidão de camponeses quase famélicos, e em pouco mais de duas décadas duplicou a população da capital, hoje calculada em cerca de quatro milhões de pessoas. A ajuda alimentar internacional é fundamental nesse panorama agrícola, em um país onde a renda per capita apenas supera os US$ 400 ao ano e a ingestão de água em más condições provoca freqüentemente diarréia, desenteria e tifo, entre outras doenças. "Por sorte, hão há muitas crianças com má nutrição muito aguda, mas, existem muitos desnutridos, e isso já é muito grave", afirmou Poulsen.

Isso causa problemas físicos e mentais, acrescentou, acrescentando que há no Haiti regiões onde 47% das crianças sofrem de problemas de nutrição. Aproximadamente 1,5 milhão de haitianos dependem da ajuda humanitária do PMA, embora o país disponha de uma grande variedade de ecossistemas que oferecem amplas possibilidades de produção diversificada, tanto para o consumo local como para exportação, disse a especialista dinamarquesa. Poulsen informou que o PMA ajuda este ano 550 mil famílias, ao custo de US$ 20 milhões entregues especialmente por países e doadores privados, especialmente dos Estados Unidos, da União Européia, Suíça, Canadá e Japão.

Nos próximos dois anos serão necessários mais de US$ 40 milhões para chegar às 850 mil famílias previstas, que são assistidas também por outros programas, entre eles os do Fundo das Nações Unidas para a Infância e organizações não-governamentais. Mas, "os doadores são difíceis de se obter", porque "no mundo há muitos problemas" e esta pequena nação sem valor estratégico não chama a atenção nos países do Norte industrializado, queixou-se Poulsen. "Na Dinamarca, meu país, a sociedade nem mesmo conhece a situação política e econômica do Haiti, porque não estão nas primeiras páginas da informação mundial, embora mesmo assim existam grupos da sociedade civil e igrejas que cooperam. O Haiti está fora de foco", enfatizou Poulsen. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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