Desenvolvimento: Cooperação Sul-Sul é o caminho do futuro

Doha, 14/06/2005 – Representantes de 132 países em desenvolvimento se reunirão na capital do Qatar para adotar um plano de fortalecimento da cooperação Sul-Sul, como resposta ao tratamento desigual do Norte em matéria de comércio e investimentos. Enquanto proliferam as alianças econômicas regionais, como a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), União do Magreb Árabe, Sistema Econômico Latino-americano e Comunidade Econômica de Estados da África Ocidental, na segunda Cúpula do Sul em Doha serão discutidas formas de acelerar o crescimento econômico e as relações comerciais entre os países em desenvolvimento.

"Devemos conseguir que a cooperação Sul-Sul seja um verdadeiro instrumento para nosso desenvolvimento, mas, deve reconhecer que não pode ser um substituto das relações Norte-Sul", disse à IPS o representante permanente do Qatar na Organização das Nações Unidas, Nassir Abdulaziz Al-NAsser. O governo desse país crê profundamente na importância da cooperação Sul-Sul em tempos em que proliferam as barreiras comerciais discriminatórias, diminui a assistência ao desenvolvimento, aumenta a dívida externa dos países pobres e caem os preços das matérias-primas, disse o diplomata. "Devemos fortalecer a unidade e a solidariedade entre os países em desenvolvimento como condição prévia para fortalecer a capacidade do Sul de negociar em fóruns internacionais multilaterais", acrescentou.

A reunião de Doha é organizada pelo Grupo dos 77 países em desenvolvimento – o maior bloco de nações dentro da ONU, com 132 membros – mais a China, e acontecerá nesta quarta e quinta-feira. Do encontro participarão, entre outros, os presidentes Abdelaziz Bouteflika, dz Argélia, Emile Lahoud, de Líbano, Olusegun Obasanjo, da Nigéria, d Hugo Chávez, da Venezuela, bem como os primeiros-ministros Khaleeda Zia, de Bangladesh, e Abdulá Haji Badawi, da Malásia. O ministro da Economia e Comércio do Qatar, xeque Mohamed bin Ahmad bin Jassim Al Thani, destacou que as exportações de seu país para Brasil, Argentina e China duplicaram nos últimos anos.

Em 2003, quase a metade de todas as importações dos Estados Unidos e do Japão, e mais de um terço de todas as importações da União Européia foram provenientes do Sul. A ONU criou uma Unidade Especial para a Cooperação Sul-Sul dentro do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), com o objetivo de promover a colaboração entre países em desenvolvimento. em um relatório divulgado em dezembro, o diretor da Unidade Especial Yiping Zhou, destacou a importância de fortalecer a assistência mútua "em um período de rápida globalização". O conceito de cooperação Sul-Sul se consolidou depois de uma conferência sobre ajuda técnica entre países em desenvolvimento realizada em 1978, em Buenos Aires.

Desde então, estas nações procuram fortalecer seus vínculos comerciais, impulsionados especialmente pela liderança de Brasil, China, Cuba e Qatar, explicou Zhou. O Brasil "tem um dos programas mais importantes de apoio a outros países em matéria de desenvolvimento em diversas áreas, como administração pública, saúde, educação, agricultura, meio ambiente, energia e pequenas empresas", diz o estudo. A China, importante mercado para as exportações de matérias-primas, assinou uma ampla gama de acordos comerciais e de desenvolvimento com nações do Sul, especialmente no setor energético. A Índia também está emergindo como uma potência, sobretudo na indústria das tecnologias da informação, diz o documento da Unidade Especial.

China e Índia contam com "importantes programas" de capacitação técnica para cidadãos de outras nações em desenvolvimento e para melhorar a capacidade institucional desses países", afirma o relatório. Talvez, o melhor exemplo, segundo o informe, seja o do sudeste asiático, onde a cooperação regional é impulsionada por uma combinação de ações dos governos com iniciativas do setor privado. Em outubro de 2003, a Asean (formada por Brunei, Birmânia, Camboja, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Cingapura, Tailândia e Vietnã) conseguiu um "histórico acordo" para criar uma comunidade econômica em 2020.

China e Índia foram os primeiros países fora da Asean em aceder ao Tratado de Amizade e Cooperação no Sudeste da Ásia, que deu origem ao grupo. Estes países também assinaram um acordo para construir uma estrada pan-asiática, que atravessará 32 nações do continente. "Quando estiver completado, este sistema solucionará os problemas de transporte na Ásia central e facilitará o acesso às capitais, aos principais portos, às atrações turísticas e aos centros comerciais e industriais", diz o relatório. Por outro lado, Bangladesh, Butão, Birmânia, Nepal, Sri Lanka e Tailândia acertaram a criação de uma zona de livre comércio em 2017.

Entretanto, o estudo da ONU reconhece que "muitos países em desenvolvimento enfrentam grandes problemas para se integrarem, especialmente na África". As principais iniciativas para fortalecer a cooperação entre as nações desse continente são impulsionadas pela União Africana, com 53 membros, e a Nova Sociedade para o Desenvolvimento da África. "As estradas, as ferrovias e todas ligações de transportes africanos, quando existem, são freqüentemente de má qualidade, enquanto as regulamentações existentes são um obstáculo ao transporte de bens e pessoas entre as fronteiras", afirma o relatório. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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