Infância: Na Inglaterra, o perigo mora em casa

Londres, 15/06/2005 – A cada semana morrem duas crianças na Grã-Bretanha nas mãos de seus próprios pais. Este país é o lugar da Europa onde existem menos proteção legal para a infância diante da violência dos adultos, afirmam ativistas. "Apesar de serem menores e frágeis, os 13 milhões de menores gozam de menos garantias legais do que os adultos diante de atos de violência", afirma a Aliança Children are Unbeatable (As crianças não podem apanhar), com sede em Londres. A entidade lançou uma campanha em favor da infância britânica depois da divulgação de um relatório preparado pelo Comitê sobre Direitos Sociais do Conselho Europeu, que inclui os 25 países-membros da União Européia e as 21 nações da Europa central e oriental.

Este conselho é a organização de maior representação demográfica da Europa, criado em 1949 para trabalhar pela unidade do continente com base na liberdade, democracia, nos direitos humanos e no império da lei. O relatório conclui que apenas 15 do 46 membros contam com leis que consideram tão grave bater em meninos e meninas como em qualquer outra pessoa. O Comitê constatou que Bélgica, Grécia e Irlanda descumprem suas obrigações com a Carta Social Européia no tocante à proteção da infância, mas, destacou que na Itália e em Portugal a Justiça deu sentenças que proíbem todo tipo de castigo corporal. A investigação do Comitê foi elaborada em resposta a uma série de denúncias apresentadas em 2003 pela Organização Mundial contra a Tortura, que acusou esses países de falharem na proteção das crianças diante dos maus-tratos e das humilhações.

Não houve acusações contra a Grã-Bretanha "porque esse país não ratificou o procedimento de denúncias" do Comitê. Entretanto, "integra a Carta Social Européia e será investigado para que cumpra suas obrigações quanto aos direitos humanos", diz o relatório. Segundo o Comitê, as leis na Grã-Bretanha contradizem esses compromissos. Na Inglaterra e em Gales, a Lei da Infância, de 2004, permite bater em menores como "castigo razoável", enquanto na Escócia a Lei de Justiça Penal de 2003 permite a "agressão justificada" aos filhos. Na Irlanda do norte, as leis justificam "castigos razoáveis". Um estudo feito pelo Departamento de Saúde britânico em 1997 constatou que 91% das meninas e dos meninos desse país alguma vez apanharam.

Em famílias onde foram entrevistados os dois pais, quase a metade das crianças era maltratada a cada semana, ou com maior freqüência. Uma em cada cinco crianças foi agredida com algum objetivo e mais de um terço recebeu castigos "severos". Setenta e cinco por cento das mães admitiram ter "esbofeteado" seus bebês antes que completassem um ano de vida. Catorze por cento das meninas e dos meninos com um ano de idade apanharam com "moderada" severidade, enquanto 38% das crianças com 4 anos foram "esbofeteadas" mais de uma vez por semana. "Nos países escandinavos há proibições (contra o castigo corporal) há muito tempo. Comparados com as crianças da Escandinávia, os britânicos estão muito atrás", disse à IPS Rachel Hodgkin, porta-voz da Aliança.

Na Grã-Bretanha, uma ou duas crianças morrem todas as semanas "em mãos de seus pais", disse Hodgkin, enquanto na Suécia ocorre um caso destes, quando muito, uma vez por ano. A ativista disse que as leis britânicas sobre este problema não foram apoiadas por profissionais nem por defensores dos direitos humanos, e afirmou que "inevitavelmente" devem ser reformadas no curto prazo. O Comitê das Nações Unidas sobre Direitos da Infância enviou duas comunicações ao governo britânico, em 1995 e 2002, para que reformasse suas leis e garantisse a proteção de meninos e meninas. O Comitê Conjunto sobre direitos Humanos do Parlamento britânico exortou várias vezes o governo a dar esses mesmos passos, a última vez em outubro de 2004.

A Aliança recebeu o apoio de 400 organizações civis e acredita que a pressão será tão grande que o governo não poderá evitar que a reforma das leis esteja na agenda deste ano do parlamento. Dos países europeus em falta, a Grécia já anunciou que introduziria uma nova legislação de açodo com as recomendações do Conselho Europeu, enquanto se espera que Bélgica e Irlanda façam o mesmo no curto prazo. "Dar-lhes proteção contra agressões é um requisito internacional fundamental de direitos humanos que não devemos ignorar mais", disse o ativista Wiilia Utting, da Aliança. "Se a Grã-Bretanha tivesse assinado o procedimento de denúncias, não há dúvida de que também seríamos julgados pelo Comitê por nossa falta nas obrigações de direitos humanos, por não dar proteção igualitária para meninos e meninas", acrescentou.

Por sua vez, o diretor da Organização Mundial contra a Tortura, Eric Sottas, destacou as conclusões do Comitê: "Comemoramos estas decisões, pois aceleram os passos para dar aos menores de toda a Europa a mesma proteção de que gozam os adultos, e evitar que sejam maltratados e humilhados. Colocam a Europa no rumo certo para se converter em uma zona livre de castigos corporais e onde meninos e meninas gozem do direito a uma proteção igualitária", afirmou. As reformas legais na Europa para proibir o castigo corporal começaram em 1957, quando na Suécia foi rejeitado um projeto para justificar os pais que causavam danos menores aos seus filhos durante a aplicação de um castigo.

Em 1979, a Suécia se tornou o primeiro Estado europeu a proibir explicitamente o castigo corporal e outros tratamentos humilhantes contra meninas e meninos. Foi seguida pela Finlândia, 1983, Noruega, 1987, Áustria, 1989, Chipre, 1994, Dinamarca, 1997, Letônia, 1998, Croácia, 1999, Bulgária e Alemanha, 2000, Islândia, 2003, Hungria, Ucrânia e Romênia, 2004. (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *