Iraque: Os Estados Unidos sem atenuantes

Istambul, 28/06/2005 – Na última sessão do Tribunal Mundial sobre o Iraque (WTI, sigla em inglês) organizado na cidade turca de Istambul, ativistas e acadêmicos apresentaram novas evidências de crimes de guerra e violações dos direitos humanos cometidos pelas forças dos Estados Unidos. O tribunal é uma "corte popular" integrada por acadêmicos, defensores dos direitos humanos e representantes da sociedade civil que procuram fazer uma investigação independente sobre as ações dos soldados norte-americanos e da Grã-Bretanha em território iraquiano. Foi inspirado no Tribunal Bertrand Russel, criado às instâncias desse filósofo britânico para investigar os crimes cometidos durante a guerra do Vietnã (1964-1975).

A sessão de três dias (de número 21 em uma série de reuniões feitas nos últimos dois anos) teve como contexto outro foco de violência no Iraque, que deixou 41 mortos no domingo, entre eles quatro norte-americanos. O WTI argumenta que sua legitimidade reside na "moral universal" e nos direitos dos habitantes do planeta, já que a guerra contra o Iraque foi lançada "apesar da resistência dos povos e governos de todo o mundo". Em Istambul foi realizado no domingo um "júri de consciência", integrado, entre outros, pela escritora indiana Arundhati Roy e o sociólogo belga François Houtart, que também integraram o Tribunal Bertrand Russel nos anos 70.

Cinqüenta e quatro pessoas testemunharam sobre os crimes cometidos pelas forças norte-americanas na invasão e ocupação do Iraque. "A agressão ao Iraque é uma agressão a todos nós, à nossa dignidade, á nossa inteligência e ao nosso futuro", disse Roy, no domingo. "Reconhecemos que o WTI não tem capacidade de dar sentença nem autoridade na lei internacional, mas nossas ambições superam isso. O tribunal se baseia na consciência de milhões de pessoas em todo o mundo que não querem ficar paradas e ver como a população iraquiana é massacrada, subjugada e humilhada", acrescentou.

Entre os que apresentaram seu testemunho ao WTI se destacou o irlandês Danis Halliday, que renunciou ao cargo de assessor do secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, em protesto pelas sanções adotadas contra o Iraque nos anos 90 pela ONU. "As Nações Unidas aceitaram silenciosamente as totalmente ilegais zonas de exclusão aérea no Iraque, imposta pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha, que serviriam depois para os ataques da também ilegal invasão (de março de 2003)", afirmou. As zonas de exclusão foram impostas contra o governo de Saddam Hussein depois da primeira guerra do Golfo, de 1991.

"Desta forma, a ONU destruiu por si só os direitos humanos básicos do povo iraquiano através de uma deliberada negação dos artigos 22 e 28 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Além disso, não protegeu as crianças iraquianas antes e depois da invasão de 2003", acrescentou. Por sua vez, o médico norte-americano Thomas Fasy, professor da Escola de Medicina Monte Sinai de Nova York, apresentou provas de que as más-formações congênitas nos bebês iraquianos aumentaram sete vezes entre 1999 e 2001. Fasy também indicou que os casos de câncer em menores de 5 anos se multiplicaram por 26 entre 1990 e 2002 na cidade iraquiana de Basra.

Fadhil Al Bedrani, jornalista da agência Reuters e da rede BBC de Londres, que cobriu o ataque norte-americano à cidade de Faluja, em novembro passado, apresentou evidências de castigos coletivos a civis por parte das forças de ocupação. Por seu lado, a ativista iraquiana Hana Ibrahim disse que 90% das mulheres de seu país estão desempregadas e muitas são vítimas freqüentes de violações. "Desde o dia em que começou a ocupação no Iraque ocorrem violações sistemáticas contra as mulheres", afirmou Herbert Docena, pesquisador da organização Focus on the Global South (Enfoque no Sul Global), com sede em Bangcoc, falou no tribunal sobre os interesses políticos e econômicos por trás da invasão.

"Em fevereiro de 2003, os Estados Unidos já haviam elaborado o que o jornal The Wall Street chamou de "desesperados planos para refazer a economia iraquiana à imagem norte-americana", disse Dozena. O especialista afirmou que, mesmo antes de começarem os bombardeios, Washington tinha previsto acabar com todas as leis e instituições iraquianas, menos aquelas que coincidissem com seus projetos. O WTI reconheceu "o direito do povo iraquiano de resistir à ocupação ilegal de seu país". O tribunal pediu uma "imediata e incondicional retirada de todas as forças de ocupação" e exortou "os governos da coalizão invasora a pagarem uma completa compensação aos iraquianos por todos os danos", além de exigir que anulem "todas as leis, contratos, tratados e instituições criadas sob a ocupação".

O WTI também reclamou uma imediata investigação sobre os crimes contra a humanidade cometidos pelos governos do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e do primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, e pelos demais governos que integraram a coalizão invasora. O tribunal, inclusive, pediu que sejam levados à justiça os jornalistas e os responsáveis pelos meios de comunicação que "mentiram e promoveram a violência no Iraque", bem como as grandes corporações que se beneficiaram do conflito. (IPS/Envolverde)

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

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