Meio Ambiente: Grama seca, uma nova forma de bioenergia

Brooklin, Canadá, 06/06/2005 – Uma pequena bola de grama seca. À primeira vista, não parece nada interessante, mas, esconde um potencial energético que, segundo especialistas, pode ajudar a reduzir a pobreza, minimizar o aquecimento do planeta e mudar a vida nas localidades rurais e nas grandes cidades do Sul em desenvolvimento. As bolas de grama seca constituem uma das tantas formas de bioenergia desenvolvidas por cientistas nos últimos anos, como o biogás, o bioetanol e o biodiesel, obtidos com base em cultivos de cana-de-açúcar, beterraba e milho ou extraídos do carvão vegetal, esterco de gado ou dejetos agrícolas.

"Agora mesmo, com o petróleo na casa dos US$ 50 o barril (de 159 litros), a bioenergia pode facilmente competir com o óleo como recurso energético", afirmou o diretor-executivo do grupo de pesquisa e assessoria canadense Produção Agrícola com Recursos Eficientes (Reap-Canadá), Roger Samson. "A maior nova fonte de energia do mundo é um biocombustível feito a partir de pequenas bolas compactas de grama", disse o especialista à IPS ás vésperas do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado neste domingo. As economias baseadas em combustíveis fósseis poderão fazer uma transição para a bioenergia nas próximas décadas.

Essa mudança beneficiará não somente a população pobre das áreas rurais, mas, também, todo o planeta, porque os biocombustíveis minimizam a alteração climática, assinalou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em um relatório. A maioria dos cientistas concorda que o atual ciclo de aquecimento planetário é causado pelos gases que causam o efeito estufa, derivados, sobretudo, da queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás. Um hectare de grama cultivada em terras marginalizadas e áreas tropicais tem o potencial de produzir energia equivalente a 100 barris de petróleo por ano, segundo uma série de estudos feitos no Brasil, ressaltou Samson.

A grama é seca e transformada em pequenas esferas sólidas que são usadas em estufas e fornos. O processo é renovável, a energia eficiente e as emissões de gases que causam o efeito estufa são inferiores às da combustão de madeira, carvão ou petróleo. A FAO destacou que a bioenergia é uma alternativa para cerca de dois bilhões de pessoas que ainda vivem sem eletricidade ou outras formas modernas de energia em áreas rurais do Sul em desenvolvimento. Lhes dá a oportunidade de diversificar sua atividade agrícola, melhorar sua segurança alimentar e contribuir para um desenvolvimento sustentável.

Ao que parece, o sistema de bolas de grama seca já é aplicado em algumas partes da China pelos próprios fazendeiros, que as elaboraram com dejetos agrícolas e as usam nas cozinhas de suas casas. Por outro lado, o nascente mercado de "créditos de carvão" também favorecerá a bioenergia, segundo alguns especialistas. O Protocolo de Kyoto, que obriga os países industrializados a reduzirem suas emissões de gases causadores do efeito estufa, permite às companhias do Norte, através da aquisição de créditos de carbono, investir em projetos de redução em países em desenvolvimento e contabilizá-los como próprios para seus países de origem. Isto poderia beneficiar projetos de bioenergia em países do Sul. Por outro lado, a busca de novas formas de energia se faz mais urgente conforme diminuem os fornecimentos de petróleo no mundo.
Aproximadamente, 35% da energia usada no planeta procede do petróleo. Em 2004, o consumo chegou a 82,4 milhões de barris diários, 3,4% mais do que no ano anterior, impulsionado especialmente pela crescente demanda interna da China, segundo dados do independente Instituto Worldwatch, com sede em Washington, dedicado à pesquisa ambiental. No ano passado houve um aumento geral no consumo de todo tipo de produtos, desde grãos ate carne, metal e petróleo, estimulado pelas crescentes economias da Ásia, particularmente a chinesa. "As decisões da China têm um peso transcendental no futuro da humanidade e do planeta", disse o presidente do Worldwatch, Christopher Flavin.

Há mais consumidores com renda média e alta (mais de US$ 7 mil ao ano) na Ásia Pacífico do que na Europa Ocidental e América do Norte juntas, segundo um estudo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnud). "Tudo isto contribui para um futuro cenário onde mais e mais pessoas que satisfazem suas necessidades básicas através de um grande consumo aumentem a demanda para níveis semelhantes aos da Europa e América do Norte", afirmou Wei Zhao, diretora do projeto Consumo Sustentável na Ásia, do Pnud. (IPS/Envolverde)

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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