Johannesburgo, 27/06/2005 – Aproximadamente 12 milhões de meninos e meninas da África subsaariana perderam pelo menos um de seus pais por causa da síndrome de deficiência imunológica adquirida (aids), segundo a Federação Internacional da Cruz Vermelha e as sociedades da Meia Lua Vermelha. Esse número pode duplicar até 2010, alertaram. A quantidade de órfãos da aids também é grande na África austral, epicentro da epidemia no continente. "Nos 10 países em que a Cruz Vermelha atua na região da África austral, há aproximadamente 4,1 milhões de crianças que perderam um dos pais devido à enfermidade", disse Kenneth Motlogeloa, da Sociedade da Cruz Vermelha da África do Sul.
Os governos, envolvidos pelas campanhas de prevenção e o fornecimento de medicamentos anti-retrovirais aos enfermos, freqüentemente deixam de lado as necessidades dos órfãos. Os avós dessas crianças, as organizações não-governamentais e os voluntários, como Victoria Sibisi, procuram preencher essa lacuna. Victoria é uma trabalhadora social em Soweto, bairro da periferia de Johannesburgo com quase um milhão de moradores, em sua grande maioria negros. Ela é voluntária da Cruz Vermelha da África do Sul e faz parte de uma equipe que atende 126 meninas e meninos órfãos da aids ou em risco de contraírem a doença.
"Quando começamos a visitar os enfermos, em 2002, descobrimos que os mais vulneráveis são as crianças e assim passamos a nos preocupar mais com eles. Os moradores nos viam e nos convidavam a ajudá-los", contou em recente conferência sobre aids, em Johannesburgo. "Há muitos outros que precisam de assistência. Lamentavelmente, não podemos aumentar o número de pessoas que ajudamos por não termos recursos suficientes", explicou Sibisi. A prevalência da enfermidade na África do Sul é de 21,5%, e 5,1 milhões dos 44 milhões de habitantes do país estão infectados pelo HIV (vírus da deficiência imunológica humana, causador da aids), segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas para a Luta contra a Aids. As demandas dos que sofrem de doenças vinculadas à aids e também o crescente número de crianças que necessitam de cuidados superam completamente a capacidade dos voluntários.
"Às vezes, até tiramos comida de nossas famílias para compartilhar com os que estão desesperados, especialmente os que tomam medicamentos anti-retrovirais. Eles necessitam ingerir alimentos antes de tomar o remédio. Muitas vezes, não temos comida em casa, então, damos dinheiro a eles para que comprem alimentos", disse Sibisi. "A situação mais desanimadora é quando tanto a mãe quanto o filho estão doentes, e a mãe não pode ajudar o filho", acrescentou. A chefe do escritório da Cruz Vermelha para a África austral, Françoice Le Goff, disse que cerca de 700 mil órfãos na região foram infectados pelo HIV. Devido à escassez de medicamentos anti-retrovirais para tratar as crianças, o problema se converteu em um "tsunami silencioso", afirmou.
Tsunami é uma palavra japonesa para designar as grandes ondas que invadem o litoral, provocadas por terremotos ou erupções vulcânicas submarinas. O termo ficou conhecido em todo o mundo no final do ano passado, quando ondas desse tipo causaram grande devastação no sul da Ásia.
Dez sociedades da Cruz Vermelha na África austral se comprometeram a redobrar seu apoio aos voluntários em campanhas de prevenção da aids e atenção domiciliar a vítimas da doença. Isso implicará uma melhor coordenação. "A estrutura já existe. O que precisamos é apoiar os programas existentes", disse à IPS o chefe de informação para a África do Sul da Federação Internacional da Cruz Vermelha, Tapiwa Gomo. "Coordenamos tarefas com todas as agências que atendem aos órfãos da aids, incluindo o setor privado. Algumas empresas financiam a educação de meninos e meninas, mas apenas por um ano. Acreditamos que deveria haver um programa a longo prazo", afirmou. Há várias iniciativas em marcha para estimular o setor privado e outras agências para que doem roupa para os órfãos. "É preciso um compromisso sustentável a longo prazo para atender às necessidades destes pequenos e garantir que possam desenvolver todo seu potencial e terem vidas felizes, saudáveis e produtivas", disse Motlogeloa.
Se isto não for conseguido, pessoas como Christine Mnguni, também moradora em Soweto, continuarão fazendo o que podem pelos órfãos da aids. "Fiquei responsável por três crianças. A mãe era minha filha, que morreu em 2004", disse esta mulher no dia 15 passado, durante o lançamento de uma campanha da Cruz Vermelha para melhorar a atenção aos órfãos na África austral. "Não posso sair para trabalhar porque esta criança está sempre doente", disse, apontando para o bebê que trazia consigo. "Não confio em ninguém", acrescentou. Mnguni depende completamente do governo. "Agora mesmo, dependo de um subsídio para os cuidados com a criança de 180 rands (US$ 27) por mês. Mas este dinheiro não é suficiente para o que precisa", ressaltou. "Sempre que acordo pela manhã me preocupo com o futuro no colégio das crianças. Quero que se eduquem. Às vezes, vão à escola com o estômago vazio e não posso comprar livros para estudarem", acrescentou. "Cuidar de 15 crianças é uma grande carga para uma mulher. Este é um fenômeno muito comum na região", disse Le Goff. (IPS/Envolverde)

