Comércio: China coloca discurso norte-americano à prova

Washington, 13/07/2005 – Uma oferta não solicitada feita pela companhia de petróleo Chinese National Offshore Oil Co. (CNOOC) para comprar a Unocal, importante firma petrolífera dos Estados Unidos, coloca à prova o discurso de Washington sobre o livre mercado. As normas econômicas internacionais impostas pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial estimulam os investidores, tipicamente de nações industrializadas, a apresentarem ofertas para comprar empresas em outros países ricos ou pobres, em nome da abertura dos mercados e do crescimento econômico. Mas a resistência norte-americana à oferta da CNOOC demonstra que, nas raras ocasiões em que uma empresa de uma nação do Sul apresenta proposta para comprar uma do Norte, essas normas não se aplicam.

As aquisições norte-americanas de empresas no exterior somaram US$ 855,5 bilhões em 2004, contra US$ 328,4 bilhões em 2003. Os ativos norte-americanos no estrangeiro somavam US$ 9 trilhões no final do ano passado, segundo o Escritório de Análise Econômicas. Embora a companhia chinesa tenha feito sua oferta de acordo com as normas fixadas por Wall Street, o Congresso dos Estados Unidos rapidamente se colocou na defensiva, considerou a oferta uma ameaça à segurança nacional e pediu que o governo de George W. Bush a rejeitasse com urgência.

"Do ponto de vista das políticas públicas, esta oferta apresenta graves assuntos de segurança nacional, já que a energia é um tema de segurança nacional", advertiu Michael Wessel, membro da Comissão Sino-Norte-americana de Segurança Econômica e Comércio, um grupo assessor do Congresso para as relações com a China. "A CNOOC é uma empresa controlada pelo Estado. Não é uma companhia do livre mercado", argumentou. Wessel disse á IPS que existem grandes probabilidades de, em momentos de crescente demanda e escassa oferta de energia, "uma entidade controlada pelo Estado poder adquirir uma empresa e, em seguida, restringir o acesso de outros países e outros consumidores a esse ativo".

O governo Bush, que terá a palavra final sobre o assunto, permanece em silêncio até agora. No final de junho, membros do Congresso enviaram uma carta ao Departamento do Tesouro solicitando uma revisão da proposta da CNOOC, que ofereceu US$ 18,5 bilhões pela Unocal, acima da oferta feita pela norte-americana Chevron, que foi de US$ 16,5 bilhões. O grupo de congressistas, liderado por representantes dos Estados do Texas e Lousiana (dois importantes produtores de petróleo), alertaram que a "agressiva estratégia" da China para aumentar suas fontes de energia poderiam prejudicar os Estados Unidos, porque Pequim possui 70% das ações da CNOOC.

O governo chinês respondeu exortando o Congresso norte-americano a "deixar de politizar questões econômicas e comerciais". O presidente do CNOOC, Fu Chengyu, disse que a Unocal representa apenas 1% da produção total de gás e petróleo nos Estados Unidos, por isso de maneira alguma sua compra constituiria uma ameaça à segurança nacional. A empresa chinesa também prometeu vender petróleo produzido pela Unocal dentro dos Estados Unidos. No entanto, isto não acalmou os críticos do acordo. "A China já celebrou acordos especiais com Sudão, Irã e outros países", recordou Wessel.

O voraz apetite da China está impulsionado por seu impressionante crescimento econômico, que atingiu a média de 9% desde 1978. "A China não busca competir a longo prazo no livre mercado por empresas de energia, como os Estados Unidos e outros países", disse Wessel. Mas Todd Malan, diretor-executivo da Organização para o Investimento Internacional, que representa investidores estrangeiros nos Estados Unidos, advertiu que um bloqueio do acordo por parte do Congresso indicaria que o discurso de Washington sobre as normas abertas de investimento é uma "rua de mão única".

Inclusive o Banco Mundial, considerado por muitos países em desenvolvimento como um instrumento da política econômica norte-americana, considerou natural a China tentar adquirir ativos no estrangeiro, inclusive nos Estados Unidos. "A China alcançou uma fase de desenvolvimento na qual faz sentido que algumas de suas empresas saiam para investir no mundo", declarou David Dollar, diretor do Banco Mundial para a China, em entrevista concedida á IPS através de e-mail. "Como cidadão norte-americano, me parece normal que empresas chinesas invistam nos Estados Unidos, assim como firmas norte-americanas vêm fazendo na China durante décadas", acrescentou.

Os investimentos cruzados, prosseguiu, fazem com que cada país tenha maior interesse no bom funcionamento da economia do outro, e isto incentiva os governos trabalharem juntos para manter um sistema de comércio aberto e coordenar suas políticas macroeconômicas. "A integração entre China e Estados Unidos requer certos ajustes dolorosos de cada lado, mas esta integração beneficiaria a longo prazo os interesses políticos e econômicos de cada país", concluiu. (IPS/Envolverde)

Emad Mekay

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