Bruxelas, 29/07/2005 – A União Européia deve acabar com suas "tentativas agressivas" de aproveitar as negociações comerciais desta semana em Genebra para abrir mercados em países pobres para benefício de grandes corporações, conforme exigência de ativistas. A rede Seattle a Bruxelas (S2B), integrada por grupos de apoio ao mundo em desenvolvimento e ao comércio justo, ambientalistas e defensores de direitos humanos, pediu urgência à Comissão Européia, o braço executivo da UE, em abandonar sua "agenda corporativa". A intenção dessas entidades é promover um acordo que também beneficie os países em desenvolvimento nas negociações que começaram quarta-feira na Organização Mundial do Comércio.
O Conselho Geral da OMC, órgão máximo de tomada de decisões do qual participam delegados de todos os governos, tenta esta semana reanimar a bloqueada Rodada de Desenvolvimento de Doha de negociações comerciais multilaterais. A negociação, que leva o nome da capital do Qatar – onde foi lançada em 2001 – avançar em ritmo lento desde o colapso da conferência ministerial da OMC no balneário mexicano de Cancún. O objetivo das reuniões desta semana é preparar um rascunho de reformas ao regime comercial internacional com vistas à sua aprovação na conferência ministerial de dezembro próximo, em Hong Kong.
Entretanto, organizações não-governamentais advertem que a "relação privilegiada" entre a Comissão Européia e grandes empresas ameaça as negociações, pois levam a UE a conciliar suas políticas com interesses comerciais. A menos que a União Européia mude o enfoque das negociações, o que consideram democrático, não haverá acordo na OMC, o que será melhor do que um mau acordo, segundo os ativistas. "Não se trata de alcançar um acordo a todo custo. Se tudo o que podemos oferecer aos países em desenvolvimento é um mau acordo, então será melhor para eles não concordarem", disse esta semana Peter Hardstaff, diretor de políticas do Movimento Mundial pelo Desenvolvimento, com sede na Grã-Bretanha.
Em um relatório divulgado ao mesmo tempo em que começavam as negociações, a agência humanitária Oxfam acusou os países ricos de bloquearem a Rodada de Doha ao defenderem somente seus interesses. O documento, intitulado "interesses desnudos", narra a Rodada de Doha e afirma que a série de prazos não cumpridos na negociação pode ser atribuída à reticência dos países ricos em cumprir seus compromissos de reforma. "Cada prazo prorrogado é mais um passo para o fracasso. Aos países em desenvolvimento foi prometido que esta rodada de negociação não trataria do desenvolvimento e atenderia as maciças desigualdades existentes no sistema de comércio mundial", disse a chefe da campanha pelo Comércio Justo da Oxfam, Céline Charveriat. "Porém, as nações ricas defendem constantemente seus próprios interesses, quebrando suas promessas a cada passo do caminho", advertiu.
A Oxfam identifica 10 áreas nas quais os "interesses desnudos" bloqueiam as reformas em favor do desenvolvimento. Entre elas estão as demandas de reciprocidade por parte dos países ricos aos pobres e sua insistência em uma fórmula de reduções para tarifas alfandegárias agrícolas que não considera as diferenças entre o Sul e o Norte. Charveriat afirmou que uma conclusão positiva da Rodada de Doha deveria servir para tirar a pobreza milhões de pessoas, e acrescentou que todos os membros da OMC estão envolvidos nas decisões. "Todos os países em desenvolvimento deveriam ser tratados com igualdade e receber garantias do "tratamento especial e diferenciado" consagrado na Declaração de Doha e nas normas da OMC", afirmou a ativista.
As ONGs também questionam o papel nas negociações do comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson. A rede S2B planeja uma manifestação fora da sede da comissão para esta sexta-feira em protesto contra o que considera a "agenda corporativa" da UE. "Com Mandelson como comissário, a democracia recebe outro golpe das grandes empresas, que serão as ganhadoras das negociações. As pessoas e o meio ambiente, os perdedores", disse Alexandra Wandel, coordenadora de Assuntos Comerciais da organização ambientalista Amigos da Terra Internacional. Por sua vez, Oliver Hoedeman, do Observatório Europeu de Corporações, com sede em Amsterdã, disse á IPS que Mandelson "tem relações que consideramos inapropriadas com grupos empresariais, como o Diálogo Empresarial Transatlântico e o Fórum Europeu de Serviços". (IPS/Envolverde)

