Cairo, 28/07/2005 – Operadores de turismo do Egito se preparam para o impacto econômico provocado pelos ataques terroristas no balneário de Sharm el-Sheik, acreditando em uma recuperação a médio prazo, porque – afirmam – os turistas de hoje em dia já se acostumaram a viver em um mundo mais inseguro. Pelo menos 88 pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas no sábado depois que três bombas explodiram em um hotel e uma cafeteria desse balneário localizado no Mar Vermelho. Um grupo denominado Brigadas de Abdullah Azzam assumiu os ataques. Pelo menos oito dos mortos eram turistas estrangeiros, embora outras fontes digam que esse número chega a 16. A polícia procura 15 homens que estariam vinculados com os atentados de sábado, bem como com os cometidos em outubro passado nos balneários de Taba e Rãs Shitan, que deixaram 34 mortos, entre eles vários israelenses.
"Não devemos minimizar o duro impacto que o atentado em Sharm el-Sheik terá na indústria turística, sobretudo na região do Mar Vermelho", disse à IPS o diretor da Federação Egípcia de Câmaras de Turismo, Hisham Zaazou. Como era de se esperar, os atentados tiveram um efeito imediato na ocupação da rede hoteleira. "Agora estamos recebendo alguns pedidos de reservas, mas é maior o número de pessoas que partem do que o das que chegam. É muito cedo para julgar quais serão os efeitos a longo prazo", afirmou o diretor de desenvolvimento empresarial no Egito da rede multinacional de hotéis Accor. Por sua vez, o diretor do Aeroporto Internacional de Sharm el-Sheik, Gamal Youssri, informou esta semana que aproximadamente 18 mil turistas estrangeiros deixaram o país dois dias depois dos ataques.
Outros representantes do setor disseram na televisão que 5% dos visitantes que estavam no Egito no dia dos atentados decidiram regressar aos seus países. O diretor de mercadotecnia de uma rede hoteleira internacional confirmou esse número, e estimou entre 5% e 10% os cancelamentos de reservas em diversos destinos turísticos da península do Sinai, incluindo Sharm e-Sheik. Mas também destacou que os centros de atração turística fora do Sinai não foram afetados. "Alguns turistas partiram imediatamente, outros viajaram para outras localidades dentro do Egito. Nas áreas fora do Sinai, os cancelamentos são mínimos", afirmou. Entretanto, Zaazou disse que "o problema é com as novas chegadas, que agora representam apenas 10% do que eram antes" dos ataques. "É uma redução drástica, mas uma reação normal ao ocorrido", acrescentou.
Hala Khatib, porta-voz do Ministério do Turismo, reconheceu que a atividade pode ser duramente afetada, embora tenha dito que o impacto será temporário. Os centros turísticos do Mar Vermelho "serão afetados no curto prazo. A recuperação levará um tempo, mas não creio que muito", disse à IPS. Representantes do setor concordam que os atentados de sábado não se comparam aos de 1997 na cidade de Luxor, quando extremistas muçulmanos que lutavam pela criação de um Estado islâmico assassinaram 58 turistas. A indústria do turismo, a primeira fonte de divisas do país, quase entrou em colapso após esse massacre.
Os hoteleiros ainda hoje se referem aos "dias de Luxor" como exemplo da maior calamidade. "Foi o que de pior aconteceu para a indústria do turismo nos últimos 10 anos", afirmou Mohamed Ghamrawy, ex-presidente da agência de viagens Touring Club. Para Kandil, da Accor, os atentados de Sharm el-Sheik não terão o mesmo efeito que o de Luxor. "Não creio que vejamos o mesmo tipo de reação. Em Luxor morreram muitos estrangeiros dos mesmos países (Japão e Suíça) e custou muito para recuperar esses mercados. Não é o caso de Sharm el-Sheik, onde morreram apenas oito estrangeiros de diversas nacionalidades", afirmou.
Por sua vez, Khatib também vê uma diferença com o ocorrido em Luxor e destacou que os atentados de Sharm el-Sheik se incluem em um contexto de aumento do terrorismo em todo o mundo. "Isto não é Luxor, é completamente diferente. Passaram-se oito anos desde aqueles atentados e o mundo mudou muito. Atualmente, as pessoas não estão dispsotas a renunciar à sua liberdade de movimento e ficar em suas casas", afirmou. "Quando foram cometidos os atentados de Luxor não havia muitas tragédias semelhantes em outros países. Mas agora inclusive nações como Espanha, Estados Unidos e Grã-Bretanha sofrem o terrorismo. Os turistas de hoje em dia pensam diferente e são mais fortes. O contexto internacional deve ser levado em conta", afirmou Zaazou.
Por outro lado, muitos egípcios de Sharm el-Sheik temem perder seus empregos, mesmo temporariamente. O Ministério da Mão-de-Obra e Imigração prometeu que nenhum dos trabalhadores do balneário e arredores, estimados em 110 mil, perderiam seus trabalhos, mas testemunhas afirmam ter visto dezenas de desempregados e ex-proprietários de estabelecimentos comerciais abandonando o lugar. "Creio que este é o fim para o futuro do turismo no Egito e em Sharm el-Sheik. Estamos arrumando nossas coisas e vamos embora, porque sabemos que tudo aqui estará morto", disse Hatem Gamal, proprietário de uma loja de artigos de eletrônica no balneário.
Kandil teme uma redução no número de italianos que chegam ao Egito depois que o governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi desaconselhou seus cidadãos a visitarem esse país. A Itália é o ponto de partida da maior parte dos turistas que visitam cidades egípcias. O empresário anunciou uma série de esforços para tentar atrair turistas de países árabes, de Israel, da Rússia e do próprio Egito. "Provavelmente começaremos logo a promover nossos destinos nestes mercados", afirmou Kandil.
As bombas também tiveram um impacto na bolsa de valores do Cairo, que experimentou drástica queda no domingo pela manhã, mas subiu lentamente pela tarde. "Os investidores se deram conta de que esta é a realidade de nosso tempo, sobretudo depois dos atentados em Londres. Isto acontece em todo lugar, e agora estão entendendo isso", diz em seu informe diário sobre a atividade na bolsa a corretora HC Brokerage. Entretanto, as autoridades se esforçam para o dano a curto prazo causado pelas bombas.(IPS/Envolverde)

