Direitos Humanos: Licença para matar

Londres, 27/07/2005 – O fato de uma pessoa inocente ter sido executada pela polícia de Londres é trágico, mas a justificativa oficial para esse ato é aterradora. Depois dos atentados do dia 7 no sistema de transportes londrino, que deixaram pelo menos 56 mortos, a polícia instaurou uma política de "disparar para matar" contra suspeitos de terrorismo. A suspeita não deve partir de fontes confiáveis de inteligência, mas da simples avaliação da aparência e do comportamento de um indivíduo por agentes policiais. Até sexta-feira passada, quando policiais à paisana perseguiram um homem por uma estação de trens, o empurraram para dentro de um vagão e o executaram com oito tiros diante dos olhares atônitos dos passageiros, todos acreditavam que somente um personagem da ficção como James Bond tinha "licença para matar". Agora é esta a política oficial da Grã-Bretanha.

Embora inicialmente a polícia afirmasse que o incidente estava "diretamente vinculado" às investigações de uma série de explosões no metrô no dia anterior, pouco depois se descobriu que o brasileiro Jean Charles Menezes, de 27 anos, não tinha relação alguma com esses ataques. O chefe de polícia de Londres, Ian Blair, disse "lamentar" a morte do jovem, que vivia na Grã-Bretanha desde 2002 trabalhando como eletricista, mas imediatamente esclareceu que a orientação de disparar para matar contra supostos terroristas suicidas continuará em vigor. "Esta não é uma política da polícia metropolitana, mas uma política nacional, e estamos convencidos de que é correta, porque são tempos muito difíceis… Alguém mais pode ser abatido", advertiu.

Poucos chefes de polícia metropolitana se animariam a fazer semelhante afirmação. A mensagem é que, com ou sem razão, se um policial armado suspeitar dos movimentos de alguém, agirá certo ao disparar e matar, e terá anuência das autoridades. Seu antecessor, John Stevens, explicou a nova política com detalhes sangrentos em um artigo publicado no semanário The News of the World: "Enviei equipes a Israel e outros países afetados por terroristas suicidas, e aprendemos uma terrível verdade: a única maneira de deter um terrorista suicida determinado a realizar sua missão é destruir seu cérebro instantaneamente. Isso significa disparar em sua cabeça com um poder devastador e matá-o imediatamente", explicou. Menezes recebeu oito disparos, sete na cabeça e um no ombro.

Os policiais suspeitaram que levava bombas em seu corpo porque usava um casaco grosso, embora seja verão, e fugiu para a estação de trens de Stockwell quando os agentes o mandaram parar. Stevens expressou compaixão, mas não com a vítima. "Meu coração está com o agente que matou este homem na estação Stockwell", escreveu. Por sua vez, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, se desculpou pela morte do cidadão brasileiro. "Entretanto – disse – devemos entender que a polícia está fazendo seu trabalho em circunstâncias muito difíceis. Se, por exemplo, se tratasse de um terrorista e os agentes não tivessem agido dessa forma, seriam criticados". As contradições que se sucederam depois da operação confirmam a falta de sustentação da suspeita que justificou a execução de Menezes.

Primeiro se disse que o brasileiro era observado desde que deixou o prédio onde vivia para pegar o ônibus e que, depois, foi seguido em sua viagem de 15 minutos até a estação de trens. Entretanto, a polícia não explicou por qual razão vigiava um eletricista brasileiro, nem por que, se suspeitava que carregava bombas, não o interceptou antes que entrasse no ônibus. Uma vez executado, as autoridades anunciaram que estava "diretamente vinculado" com as investigações sobre os atentados frustrados do dia anterior em trens metropolitanos. Pouco depois, reconheceram que não existia tal vínculo. Mais adiante, as autoridades afirmaram que se tratava de um imigrante ilegal e que por isso correu ao ver os policiais, mas em seguida se soube que não era ilegal. Nem uma palavra sobre as possíveis razões de sua fuga. Já era aterrador saber que, só por estar em determinado momento no lugar errado se podia ser vítima de um ataque terrorista. Agora, a isto se soma o temor de ser vítima de uma insana suspeita policial. Os britânicos pedem que alguém os salve dos terroristas, mas também que alguém os salve, por favor, de seus salvadores. (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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