Palestina: Nada de desocupação em Gaza

Jerusalém, 29/07/2005 – A retirada israelense da Faixa de Gaza não significará o fim da ocupação, porque Israel manterá o controle do movimento de bens e pessoas e esse território se transformará em uma "grande prisão", advertiram organizações palestinas. "A Faixa de Gaza ainda será um território ocupado, segundo o direito internacional", afirmou Renad Qubbaj, da Rede de Organizações Não-Governamentais Palestinas, com sede em Ramalá, na Cisjordânia. "Depois da implementação do plano de retirada, o exército israelense ainda controlará de fato todos os pontos de passagem na fronteira", acrescentou. Israel vai desmantelar todos os assentamentos judeus da Faixa de Gaza e alguns da Cisjordânia no próximo mês, por iniciativa unilateral do governo de Ariel Sharon.

Na Faixa de Gaza, no Mediterrâneo, junto a Israel, vivem 1,4 milhão de palestinos. A Cisjordânia, também sob controle relativo da Autoridade Nacional Palestina (ANP), fica do outro lado de Israel, às margens do rio Jordão. Funcionários dos dois governos expressaram esperanças de que o plano de retirada os aproxime da paz. Israel afirma que, uma vez evacuados os assentamentos judeus e as forças militares israelenses, nem os palestinos nem a comunidade internacional terão motivos para afirmar que a Faixa de Gaza é um território ocupado.

Mas Jader Wishah, subdiretor do Centro Palestino para os Direitos Humanos, não se mostra otimista. "Ainda não sabemos quais são as principais características do plano de retirada de Gaza", disse à IPS. "Nossa análise mostra que o plano não está baseado no direito internacional e que portanto não haverá nenhuma mudança em Gaza", acrescentou. Um documento divulgado pela Rede de ONGs palestinas afirma que o objetivo do plano de retirada é "legitimar os assentamentos israelenses na Cisjordânia, em Jerusalém e seus arredores, onde estão em expansão, bem como o muro de separação (entre Cisjordânia e Israel) e anexação, erguido em violação do direito internacional".

A secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, em visita à região na semana passada, garantiu aos palestinos que Washington está comprometido com a realização de "dois Estados independentes, democráticos e viáveis: Palestina e Israel vivendo lado a lado, em paz e segurança". Também "reconhecemos que o ressurgimento econômico dos territórios palestinos é um elemento-chave para a paz. Isso significa que quando os israelenses se retirarem de Gaza esta não se converterá em uma área selada ou isolada", acrescentou. " Estamos comprometidos com a ligação entre Gaza e Cisjordânia (Israel está no meio) e com a abertura e liberdade de movimento do povo palestino", disse Rice. Entretanto, "os palestinos de Gaza não têm controle sobre os aeroportos, portos, nem recursos naturais, como água e gás", disse Qubbaj à IPS.

Dezesseis assentamentos de Gaza e quatro da Cisjordânia serão evacuados, à força, se necessário, no próximo mês. O Grupo Internacional de Crise informou que aproximadamente oito mil colonos judeus serão desalojados, além de uns 700 que chegaram nos últimos tempos em solidariedade e como protesto contra o desmantelamento de suas colônias. Apesar da crescente oposição dos israelenses e colonos em geral, o primeiro-ministro, Ariel Sharon, disse estar comprometido com o plano de retirada. À media em que se aproxima a data de retirada, antecipam-se mais conflitos entre evacuados e o governo, bem como choques entre palestinos e colonos judeus.

O presidente da ANP, Mahmoud Abbas, comemorou a iminente retirada. Na mesma entrevista coletiva de Rice, afirmou que "a retirada de Israel da Faixa de Gaza será uma oportunidade para desenvolvermos as instituições do Estado e estendermos nossa autoridade a essa querida parte de nossa terra palestina". Entretanto, acrescentou, "existe o risco de Gaza se transformar em uma grande prisão, porque não haverá ligação continuidade entre Gaza e Cisjordânia, e o exército israelense ainda controlará o movimento de bens e pessoas para dentro e fora de Gaza".

O plano de retirada estabelece especificamente que "Israel custodiará e vigiará o perímetro externo da Faixa de Gaza, conservará a autoridade exclusiva sobre seu espaço aéreo e continuará exercendo atividades de segurança diante de seu litoral". Isto "não nos trará estabilidade. Pelo contrário, aumentará a frustração dos palestinos que vivem em Gaza", disse Wishah á IPS. O bloqueio à entrada de trabalhadores em Israel "elevou o índice de desemprego em Gaza para 60%, enquanto 80% da população vivem abaixo da linha de pobreza", acrescentou. "A sociedade palestina se dividirá em distintas entidades políticas, sociais e econômicas, e Jerusalém se transformará em uma ilha", advertiu a Rede de ONGs Palestina. (IPS/Envolverde)

Ushani Agalawatta

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