Washington, 19/07/2005 – Nunca é fácil se defender e atacar ao mesmo tempo, mas quando o terreno político treme e perigosos vazamentos surgem desde a Casa Branca e Downing Street, é ainda mais difícil. Pelo menos essa é a sensação que deixam as últimas manobras políticas da extrema direita norte-americana. Por um lado, falcões e neoconservadores estão na defensiva frente a aliados tímidos que querem se retirar do Iraque e opositores democratas que pedem a cabeça do assessor presidencial Karl Rove, considerado o "cérebro" do presidente George W. Bush. Por outro, tentam persuadir seus compatriotas a se prepararem para enfrentar novos inimigos no que chamam de a "Quarta Guerra Mundial".
Os falcões se puseram na defensiva ao saberem que a Grã-Bretanha planeja reduzir sua presença no Iraque, dos 8.500 soldados atuais para três mil em meados de 2006, segundo um informe do Ministério da Defesa britânico que vazou para a imprensa. Londres poderia começar a retirar "gradualmente" suas tropas do Iraque, ao longo dos próximos 12 meses, se os iraquianos puderem assumir sua própria segurança, confirmou no domingo o ministro britânico da Defesa, John Reid, em declarações à rede de televisão norte-americana CNN. Ao mesmo tempo, ficou-se sabendo que o Pentágono (Departamento de Defesa dos Estados Unidos) pretende reduzir substancialmente suas forças no Afeganistão nos próximos dois anos.
As duas informações geraram irados protestos do diretor do semanário The Weekley Standar, William Kristol, que criticou longamente o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld porque, a seu ver, não enviou um número suficiente de soldados para o Iraque e Afeganistão. O conteúdo do memorando britânico "é uma ameaça maior do que qualquer outra coisa que ocorra diretamente em Londres", disse na semana passada a uma audiência do gabinete de especialistas American Entreprise Institute (AIE, Instituto Norte-Americano da Empresa). Em um artigo escrito juntamente com Gary Schmitt, diretor do Project for the New American Century (Projeto para o Novo Século Norte-americano), Kristol acusou Rumsfeld de "colocar em risco a visão estratégica do presidente".
Preocupado também de que, segundo pesquisas de opinião, cada vez mais cidadãos consideram que Bush e seus aliados mentiram sobre as razões da invasão do Iraque, Kristol dedicou mais da metade da última edição do Weekly Standar a um artigo intitulado "A mãe de todas as conexões". O autor da nota, Stephen Hayes, apresentou o que chamou de "novas provas" de um vínculo operacional entre a organização terrorista islâmica Al Qaeda e o deposto presidente iraquiano Saddam Hussein. Ao mesmo tempo em que se esforçam para manter a guerra no Iraque e defender Rove da acusação de ter colocado em risco a segurança nacional ao revelar a identidade de um agente secreto da Agência Central de Inteligência (CIA), falcões e neoconservadores despejam uma série inesgotável de conselhos geoestratégicos, por meios de editoriais, colunas e aparições no canal de televisão Fox News.
Alguns dos conselhos já eram conhecidos, especialmente os relacionados com Irã e Síria, alvos favoritos dos neoconservadores para a próxima fase da "guerra contra o terrorismo". De fato, desde a surpreendente vitória, em junho, do ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad nas eleições presidenciais do Irã, os neoconservadores relançaram sua campanha pela "mudança de regime" nesse país. "O país está maduro para a revolução", alertou Jefrrey Gedmin, diretor do Instituto Aspen, em Berlim, no semanário Weekley Standar. "Este regime deve acabar", pediu com urgência, e observou que, com o processo de reforma constitucional da União Européia paralisado e mais a "iminente morte política do presidente da França, Jacques Chirac, e do chanceler alemão, Gerhard Schroeder", Bush deveria alinhar o bloco europeu em uma campanha "pelo movimento democrático no Irã".
E se essa estratégia falhar, "Bush poderia decidir que o único mecanismo para deter as ambições (nucleares) da República Islâmica consiste em ataques militares específicos", sugeriu Michael Rubin, da AEI. Por sua vez, Michael Ledeen, também da AEI, adotou a mesma linha em artigos publicados na semana passada no National Review Online, apontando para "abundantes provas" dos vínculos iranianos com a Al Qaeda e a insurgência no Iraque. "Não sei se os iranianos tiveram a ver com os atentados de Londres", que deixaram mais de 50 mortos, "mas realmente não importa, porque o Irã é a força mais poderosa da rede do terror", escreveu. "Não poderemos ter segurança no Iraque a menos que coloquemos fim às tiranias sanguinárias de Teerã e Damasco", afirmou Ledeen, que em outra nota afirmou que as "elites" britânicas provocaram os ataques do dia 7 passado com "sua relação especial com o mundo árabe e seu "anti-semitismo".
Os falcões da guerra também trataram de aproveitar, na última semana, a preocupação do Congresso por uma oferta feita pela China para comprar a empresa norte-americana de petróleo Unocal e pela visita esta semana do primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, para sugerir uma ampla visão estratégica de aliados e inimigos. Clifford May, diretor da Fundação para a Defesa das Democracias, exortou Washington a "forjar novas alianças para uma nova era", que incluam Europa Oriental, Austrália, Israel, Japão e especialmente a Índia, a maior democracia do mundo". Outros neoconservadores argumentaram que Nova Délhi é chave para contrapor-se ás ambições estratégicas da China. O Japão também o é, destacou Rich Lowry, editor do The Washington Times e do National Review, em uma coluna publicada no Times.
"A China se prepara para substituir os Estados Unidos nos planos econômico e estratégico, e se for necessário, para nos derrotar militarmente nas próximas décadas", advertiu Frank Gaffney, presidente do Centro para Políticas de Segurança. Em um artigo publicado no The Washington Times, Gaffney também sugeriu que, em razão dos atentados de Londres, o governo Bush deveria impedir a retirada unilateral de Israel da faixa de Gaza. "Não se deve permitir que um amigo cometa suicídio", aconselhou. (IPS/Envolverde)

