Nagapattinam, Índia, 14/07/2005 – Quando os tsunamis de dezembro passado tragaram a costa do Estado indiano de Tamil Nadu, a morte agiu como niveladora social. Mas os esforços de reabilitação e o desembolso de ajuda econômica posteriores à tragédia não conseguiram superar a discriminação social que impera na Índia segundo o antigo sistema de castas inconstitucional, mas que existe de fato. O maremoto registrado no dia 26 de dezembro em frente à ilha indonésia de Sumatra, no oceano Índico, provocou ondas gigantescas que varreram localidades inteiras e centros turísticos no litoral do sul da Ásia e chegaram até a Somália, deixando para trás cerca de 280 mil mortos e milhões de pessoas sem casa nem meio de sustento.
As vítimas de Tamil Nadu, o Estado indiano mais devastado pelos tsunamis, esperam ansiosos a ajuda do governo e de agências humanitárias para poderem reconstruir suas vidas, mas os dalits – ou intocáveis – excluídos do sistema de castas hindu, não a recebem. "Não há um caminho até nossa aldeia. Ninguém sabe que vivemos aqui, e portanto ninguém vem nem procura vir", se queixou Poongavanam, um dalit morador da aldeia de Pattinacherry, no distrito de Nagapattinam. Neste distrito com importante população dalit viva a maioria dos 10 mil mortos e razão do maremoto em Tamil Nadu.
"Estamos morrendo de fome, literalmente. Nossa colheita ficou arruinada, nossa terra está cheia de sal e nossas reservas de grãos acabaram. Alguns de nossos vizinhos ajudaram familiares que vivem em outras partes, mas até quando irão nos manter?", disse Pitchai, da aldeia vizinha de Kuppam. "Até quando se pode viver das esmolas dos outros? Precisamos trabalhar para nos mantermos", acrescentou. Organismos governamentais, partidos políticos, organizações não-governamentais, grupos religiosos e associações comunitárias distribuem ajuda entre as vítimas desde dezembro do ano passado.
Mas os dalit, em sua maioria pobres e analfabetos, não podem documentar sua situação econômica nem reivindicar suas propriedades, e portanto não recebem ajuda de emergência nem compensação, e também ficam excluídos dos programas de recolocação. Em sua maioria, carecem de influência local ou política e servem a pessoas de castas superiores. Nos distritos de Tamil Nadu, com importante localidades dalit (Chennai, Cuddalore, Kanyakumari e Nagattinam), 10 mil pessoas morreram, 650 mil viraram refugiados e 200 mil casas ficaram destruídas pelo tsunami de dezembro. Somente em Nagapattinam foram registradas 6.065 mortes. Neste distrito, mais de 130 mil dalit vivem em 24 aldeias, numa população total de 1,5 milhão. Muitas famílias dalit não receberam compensação porque não estavam na primeira lista de beneficiários elaborada depois do maremoto.
Grupos de castas superiores frearam esforços coletivos ou individuais para ajudar os dalit, e as autoridades locais nada fizeram para impedir que isso ocorresse. "Vi com meus próprios olhos como distribuíam roupas e alimentos apenas aos membros da uma comunidade em Nagapattinam, enquanto no final da mesma rua os dalit esperavam em vão", contou Solomon Bernard Shaw, do Programa de Serviço Nacional, vinculado à Comissão Universitária de Bolsas. "Quando fui com minha equipe de voluntários a algumas aldeias próximas de Colachel e Nagercoil, fui impedido por funcionários locais de ajudar pessoalmente. Queriam que lhes entregássemos todo o material", afirmou T. Karunakaran, vice-presidente do Instituto Rural de Gandhigram, na cidade de Dindigul, em Tamil Nadu. Ultimamente foram registradas algumas iniciativas de ajuda aos dalit, a medida em que se aproximam as eleições legislativas estaduais, previstas para fevereiro do próximo ano.
Em algumas aldeias de Nagapattinam, os dalit conseguiram abrigos temporários, mas a discriminação continua sendo evidente pela localização e qualidade dos materiais que lhes são oferecidos. Tipicamente, os abrigos dos dalit estão próximos de cemitérios e lixões, sem saneamento nem energia elétrica, enquanto os que são oferecidos a comunidades pescadores são feitos com um material melhor, têm fornecimento regular de água e eletricidade e inclusive centros comunitários com televisores. Várias ONGs doaram tanques de água potável para uso comunitário, mas os dalit não têm permissão para beber desses tanques, porque membros de castas superiores afirmam que eles "contaminam" a água. "A intenção do governo de combater a discriminação por castas não se vê em absoluto, salvo no discurso", disse Henri Tiphagne, diretor-executivo da Peoples´ Watch, uma organização de direitos humanos com sede na cidade de Madurai. (IPS/Envolverde)
(*) Soma Basu escreveu este artigo para o Asia Media Fórum, um projeto patrocinado pela IPS/Ásia-Pacífico.
Foto:Hege Opseth-Christian Aid/ACT

