Madri, 29/07/2005 – O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e seu colega espanhol, José Luís Rodríguez Zapatero, se comprometeram, na quarta-feira, em Londres, a cooperar na luta contra o terrorismo, mas suas políticas não coincidem totalmente. Blair expressou seu apoio à Aliança de Civilizações proposta por Zapatero para enfrentar globalmente o problema do terrorismo. Entretanto, e à luz de suas reações sobre os métodos e os problemas para enfrentar esse flagelo, emergem divergências entre ambos especialmente no que se refere aos direitos humanos. Enquanto Zapatero rejeita que se infrinja leis e viole as liberdades básicas para enfrentar o terrorismo, Blair justifica ações como o assassinato do brasileiro Jean Charles de Menezes, morto a tiros no último dia 22 no sul de Londres pela Scotland Yard, que julgava estar diante de um dos terroristas procurados.
Na entrevista conjunta, Zapatero também indicou que não compartilha das declarações do presidente do Conselho Geral do Poder Judiciário da Espanha, Francisco José Hernando, que justificou as instruções dadas à policia britânica de "atirar para matar". Hernando disse que se está "diante da terceira guerra mundial, que é a guerra contra o terrorismo". E depois de afirmar que é contrário à pena de morte, acrescentou: "Mas quando o risco que se pretende evitar é maior ou pode produzir a morte de inocentes, evitar esse risco me parece oportuno". Zapatero ressaltou sua crítica a essa posição afirmando que "a contenda que temos contra o terrorismo não é uma guerra convencional, e portanto as fórmulas devem ser diferentes".
Horas depois, em Madri, o secretário-geral do Grupo Parlamentar Socialista, Diego López Garrido, disse ter ouvido "com estupor essas declarações justificando o tiro na cabeça de um inocente e um homicídio". Por isso, qualificou Hernando de "um líder do tiro à cabeça". Com exceção da principal força de oposição na Espanha, o centro-direitista Partido Popular, todos os demais setores criticaram Hernando, bem como as organizações de magistrados e juristas. Entre elas a organização Juízes para a Democracia e a associação Francisco de Vitória, integrada por profissionais de diferentes esferas da área judicial.
Blair não só expressou seu apoio à Aliança de Civilizações como também confirmou sua presença na Cúpula Euro-Mediterrânea, convocada para 27 e 28 de novembro, em Barcelona. Dela participarão chefes de Estado e de governo europeus e árabes que analisarão especialmente a cooperação para o desenvolvimento e para impulsionar a paz na região, algo que é o cerne da Aliança proposta pelo primeiro-ministro espanhol. Zapatero propôs a Aliança ao falar na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, em setembro de 2004, e dois meses depois recebeu em San José da Costa Rica o apoio explícito à Aliança dos chefes de Estado e de governo dos 23 países que participavam da XIV Cúpula Ibero-americana.
Na ONU, especificou que "o terrorismo não tem justificativa. Não tem justificativa como a peste, mas como acontece como a peste, se pode e se deve conhecer suas raízes, pode-se e deve-se pensar racionalmente como se produz, como cresce, para combatê-lo racionalmente". Sobre como enfrentar o flagelo, o ex-presidente de Portugal, Mário Soares (1986-1996), afirma que "a democracia vivida seriamente é a melhor e mais eficaz arma contra o terrorismo". Para que não haja dúvidas quanto à sua posição, Soares se pergunta como não se inclui dentro da definição de terrorismo atos criminosos que configuram "o chamado terrorismo de Estado" e "certos assassinatos cometidos por agentes secretos e mercenários a serviço de Estados organizados que, apesar disso, não deixam de se considerar Estados de Direito".
Como exemplo, citou as técnicas usadas por Israel contra a população da Palestina e recordou os bombardeios sobre as cidades de ambos os lados durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e as bombas atômicas lançadas sobre as cidades japonesas de Hiroxima e Nagasaki, bem como genocídios cometidos na África antes e depois da descolonização. Por isso, Soares conclui que "ao atacar o terrorismo se deve ter cuidado para não ferir o Islã e semear ódios e ressentimentos entre muçulmanos que condenam e combatem o terrorismo". Na mesma linha de defesa das liberdades básicas se coloca a austríaca Benta Ferrero-Waldener, comissária de Relações Exteriores da União Européia.
Em um artigo publicado nesta quarta-feira no jornal El Mundo, de Madri, afirma que "os esforços da luta contra o terrorismo não podem ser realizados ás custas dos direitos humanos e das liberdades fundamentais". Fazê-lo, explicou, "não somente faria mais mal do que bem como, além disso, atentaria contra nossos valores mais preciosos". Por isso, a tarefa "é fazer desaparecer as razões pelas quais cada vez mais pessoas se radicalizam e ficam sensíveis ao extremismo violento". É provável, acrescentou, que não se possa erradicar nunca o terrorismo, mas é possível "enfraquecer seus partidários e desarmar os recrutadores, lutando contra a pobreza no mundo".
A violação dos direitos humanos sob o argumento de lutar contra o terrorismo chega ao extremo de deslocalizar a tortura, segundo o socialista Emilio Menéndez Del Valle, deputado do Parlamento Europeu. Isso implica a realização de atos qualificados pela Agência Central de Inteligência (CIA, dos EUA) de "rendição extraordinária". Esses atos consistem no seqüestro de suspeitos de terem ligações com o terrorismo e seu envio para outro país, "normalmente árabe", especializado na tortura. "A brutalidade e o cinismo do procedimento resultam ainda mais patentes se for considerado que os casos acabam aparecendo na imprensa dos Estados Unidos", ressaltou. (IPS/Envolverde)

