Kunming, China, 06/07/2005 – Líderes de seis países da bacia do rio Mekong decidiram nesta terça-feira criar os primeiros corredores da Ásia para a preservação da biodiversidade, que, segundo críticos, está em risco pela acelerada integração econômica da região. Por sua vez, e sob a bandeira da diplomacia ambiental, a cúpula de dois dias realizada em Kunming, no sudoeste da China, deu mais um passo para a integração econômica mediante acordos sobre comércio, energia, facilitação do intercâmbio fronteiriço e uma auto-estrada de informação que atravessaria Birmânia, Camboja, China, Laos, Tailândia e Vietnã.
"A criação de corredores de biodiversidade será o legado desta cúpula", destacou Rajat Nag, diretor-geral do Departamento do Mekong do Banco Asiático de Desenvolvimento. "É um sinal de reconhecimento, de que não se pode ter desenvolvimento sustentável sem proteção ambiental. Cada líder desta cúpula se referiu à questão ambiental", acrescentou. O Banco promove o desenvolvimento da bacia do rio Mekong desde 1992 através da cooperação econômica. Mas nos 13 anos transcorridos desde então, gerou-se preocupação sobre o impacto da rápida integração econômica sobre vastas áreas de vida silvestre e comunidades locais únicas. Grandes superfícies de florestas já foram arrasadas para dar lugar a represas e estradas, por exemplo.
Um dos projetos mais polêmicos financiados pelo Banco é o plano para criar uma rede regional de energia que sentaria as bases para o desenvolvimento de energia hidrelétrica. A chamada Rede de Energia do Mekong tomará energia de algumas das hidrelétricas mais polêmicas da China, Birmânia e Laos para abastecer cidades da Tailândia e do Vietnã. "O fato de os líderes do Mekong terem assinado o acordo sobre intercâmbio de energia implica que aquilo que alguma vez foi uma vaga iniciativa comercial de governos individuais se transformou em algo mais institucionalizado e oficial", disse Yu Xiaogang, diretor da organização não-governamental Bacia Verde, de Kunming. "Nos alegramos por este projeto de corredores de biodiversidade. Mas se o plano de energia elétrica não for coordenado com esta iniciativa, então o novo projeto de conservação será apenas um pedaço de papel", advertiu.
A Iniciativa de Corredores para a Conservação da Biodiversidade selecionará nove áreas da região do Mekong, conhecidas pela importância e vulnerabilidade de sua biodiversidade, e criará corredores de preservação que irão restaurar as conexões entre parques nacionais e reservas de fauna existentes. Os seis países do Mekong abrigam "algumas importantes espécies ameaçadas, como o elefante asiático, o macaco de nariz arrebitado e o tigre indochinês. "A menos que sejam tomadas medidas urgentes, é provável que a região do Mekong perca mais de 50% de seus habitat terrestres e hídricos restantes no próximo século", preveniu Jin Liqun, vice-presidente do Banco Asiático de Desenvolvimento. "Um terço dos habitats podem ser perdidos somente nas próximas décadas", acrescentou.
O plano dos corredores foi lançado pela China há 18 meses, e Pequim teve um papel ativo na implementação do acordo. Em maio deste ano, o governo chinês organizou uma reunião dos ministros de Meio Ambiente da sub-região, em Xangai. Alguns especialistas consideram que a iniciativa chinesa tende a se contrapor às críticas ao seu voraz apetite por energia e à inexorável expansão do comércio no sudeste asiático. "É um sinal de que a China está assumindo sua responsabilidade como potência da região", destacou Shen Jiru, pesquisador do Instituto de Economia e Políticas Mundiais, ligado à Academia Chinesa de Ciências Sociais. "A China sabe que um vizinho satisfeito e próspero é um vizinho pacífico", acrescentou. (IPS/Envolverde)

