Lisboa, 07/07/2005 – Com ou sem acordo com a União Européia, os produtos têxteis da China e da Índia invadem Portugal, ao mesmo tempo em que companhias multinacionais da indústria deixam este país com destino à Romênia, Bulgária ou Marrocos para aumentar sues lucros. Este coquetel estimula novamente a emigração. A sombria situação econômica em gestação, especialmente no norte do país, faz com que muitos portugueses tenham de partir para o exterior, uma opção praticamente abandonada há três décadas. Nos vales de Ave e Cavado, o coração da indústria têxtil portuguesa, uma média de 88 pessoas por dia anuncia sua renúncia ao auxílio-desemprego porque se preparam para partir.
O Instituto Nacional de Estatísticas (INE) informou que 39 mil pessoas dessa região, em 2004, e outras 10 mil, neste ano, deixaram de cobrar esse direito, que se estende por 18 meses depois de ficarem sem trabalho, depois do qual quem vive abaixo da linha da pobreza tem acesso à chamada "renda mínima garantida" permanente. Os que abriram mão do auxílio preferem refazer suas vidas em países mais ricos da União Européia, e para o governo a boa notícia é dupla: deixa de pagar ao desempregado e, por outro lado, diminui o número de desempregados nas estatísticas. Os baixos salários, a falta de regras trabalhistas e de leis sociais, férias reduzidas, inexistência de décimo-terceiro salário e a demissão de trabalhadores sem grande burocracia são alguns dos pratos fortes do irresistível cardápio oferecido a empresas multinacionais para que decidam mudar-se para fora da UE, indo para países como Romênia, Bulgária e, inclusive, China, Índia ou sudeste asiático.
Estas "empresas beduínas", assim chamadas por seu caráter nômade de levantar acampamento e mudar-se para outro país sem prévio aviso aos seus trabalhadores, instalaram-se em Portugal devido ao baixo custo de vida e às ajudas da UE destinadas a equiparar o nível econômico com seus pares do bloco europeu. Outro fator que influiu na decisão das multinacionais de partir de Portugal é que este país deixou de ter um dos custos de vida mais baixos da União Européia para ter um dos mais altos, especialmente com relação às despesas fixas com eletricidade, gás, água e combustível. Para verificar essa realidade, não é necessário ir tão longe quanto Bulgária ou Romênia, bastando uma comparação de preços com a vizinha Espanha, onde o gás e a água custam a metade do que é cobrado em Portugal, a gasolina 20% menos e o índice de preços de artigos de primeira necessidade é 16% mais baixo.
Além disso, todo este cálculo da imprensa econômica especializada local foi feito antes de 1º deste mês, quando o imposto do valor agregado (IVA) passou ter os níveis mais altos da Europa, pulando de 19% para 21%, somente praticado nos países nórdicos, enquanto a Espanha o mantém nos 16%. Ao mesmo tempo, Portugal, um dos países com maior tradição no mundo quanto à indústria têxtil, de confecções e calçados, sofre as conseqüências do que os empresários do setor qualificam de "competição desleal" da China e Índia. O resultado está à vista: o desempregou subiu para 7,8% da população economicamente ativa, quando no final dos anos 90 era o menor da UE, com 3,4% dos ativos, e disputava esse privilégio com Luxemburgo.
Assim, pela primeira vez desde 1974, a emigração portuguesa recomeça em grande número. Grã-Bretanha com 250 mil portugueses e Irlanda do Norte com 25 mil aparecem nas estimativas do INE como os lugares preferidos para os atuais emigrantes lusos. Outro destino de preferência é a Suíça, aonde 125 mil portugueses chegaram entre 1998 e 2002, sendo que no ano passado eram calculados em 160 mil. A emigração portuguesa conheceu seu apogeu entre 1965 e 1973, alcançando em todo o mundo cinco milhões de portugueses morando em outros países, cifra excepcionalmente alta se considerar que a população no território de Portugal é de 10,2 milhões de pessoas.
A revolução dos capitães esquerdistas do exército, que em 1974 derrubaram a ditadura corporativista instaurada em 1926, deteve os grandes fluxos migratórios, que levaram dois milhões de portugueses para outros países da Europa, 1,3 milhão para o Brasil, 600 mil para a África do Sul, 400 mil para a Venezuela e 300 mil para os Estados Unidos, entre outros países. Em 1992, com a abertura de fronteiras dentro da União Européia, o fluxo migratório já era muito baixo e, a partir desse ano, praticamente não existia controle sobre as estatísticas, já que os imigrantes passaram a ser "trabalhadores de livre circulação" no bloco.
Entretanto, os problemas econômicos e os baixos salários mostram uma clara tendência ao aumento da emigração, também incentivada pelo enriquecimento da população desde sua entrada na UE, em 1986. Muitos portugueses preferem se declarar desempregados e não realizar determinados trabalhos difíceis, deixando-os aos 600 mil imigrantes, especialmente de países de língua portuguesa, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, bem como dos europeus Ucrânia, Moldávia, Rússia, Romênia e Bulgária. Para um "trabalhador de livre circulação", fixar residência em outro país da UE é tarefa fácil. A decisão é fundamentalmente econômica.
Pelo mesmo trabalho e com preços de mercado semelhantes, na Alemanha, Bélgica, França ou Holanda um português ganha três vezes mais do que em seu país, e na Espanha, com alimentos e despesas domésticas menores, recebe o dobro. França e Alemanha eram até agora os destinos mais procurados pelos portugueses, que parecem preferir a Grã-Bretanha pela situação de praticamente pleno emprego e por ser o mais caro da UE, o que permite que a poupança seja mais significativa no país de origem do trabalhador estrangeiro. Depois da ampliação da União Européia de 15 para 25 países, em maio de 2004, as oportunidades de trabalho se reduziram para os portugueses, "porque chegaram os poloneses, que não trabalham por salário mais baixo, mas falam melhor inglês", disse em recente entrevista na televisão Domingos Cabeças, dono de uma agência de empregos para a Grã-Bretanha.
Para a jornalista formada na Inglaterra Graça Morgado, voltar a Portugal seria o ideal, mas "durante anos ninguém me deu trabalho. Em Londres, em três semanas já estava empregada". Quando fazia trabalhos variados para me manter como estudante, reconhece que sua fisionomia nada meridional, mas ruiva e de olhos azuis, a ajudou a conseguir emprego, e admite com ironia que "isso facilitou minha vida, porque quando descobriam que eu era portuguesa era tarde demais". (IPS/Envolverde)

