Clima: Bush distorce debate sobre mudança climática

Edimburgo, Escócia, 06/07/2005 – O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, vai aproveitar a cúpula do Grupo dos Oito países mais poderosos para promover uma mudança de rumo nas discussões sobre o aquecimento do planeta. Em uma entrevista à rede de televisão britânica ITV, na segunda-feira, o mandatário deu a entender que procuraria concentrar o debate na busca de novas tecnologias e não no Protocolo de Kyoto, com o qual se pretende reduzir as emissões dos gases causadores do efeito estufa. "O tratado de Kyoto teria arruinado nossa economia, para falar sem rodeios", disse Bush, que retirou seu país do Protocolo logo que assumiu o cargo em seu primeiro mandato, em 2001.

Bush disse confiar que os demais líderes do G-8, com os quais se reúne entre esta quarta-feira e sexta-feira na localidade escocesa de Gleneagles, irão "mais além do debate sobre Kyoto". O G-8 está integrado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia. Com exceção de Washington, os demais governos estão obrigados pelo Protocolo de Kyoto a reduzir suas emissões e gases. "Isto é completamente vergonhoso, sobretudo porque chega a esta altura do jogo. Bush nem mesmo representa uma significativa maioria em seu próprio país", disse à IPS Catherine Pearce, da organização ambientalista Amigos da Terra.

Prefeitos de 166 cidades norte-americanas, tanto do Partido Republicano, no governo, quando do Partido Democrata, de oposição, assinaram o Acordo de Proteção do Clima, pelo qual se comprometem a "cumprir ou superar os objetivos do Protocolo de Kyoto", informou Pearce. "Entre as cidades, estão as mais importantes dos Estados Unidos, como Los Angeles e Nova York. O acordo envolve um total de 30 milhões de pessoas em 35 Estados. Mas Bush ainda resiste e rebate todo assunto sobre a mudança climática", acrescentou. A maioria dos cientistas concorda que o aquecimento da Terra se deve às atividades humanas, sobretudo aos gases liberados pela combustão de petróleo, gás e carvão, dos quais o principal é o dióxido de carbono. Esses gases ficam acumulados na atmosfera e, devido à sua grande capacidade de reter o calor dos raios solares, acentuam o chamado efeito estufa.

O Protocolo de Kyoto entrou em vigor em fevereiro e impõe aos países industriais que o assinaram e ratificaram a obrigação de reduzir suas emissões desses gases a volumes 5,2% inferiores ao nível emitido em 1990. O prazo para operar dessas reduções vence em 2012. O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, na qualidade de anfitrião de cúpula do G-8, pressionou para que a mudança climática fosse, junto com o desenvolvimento da África, um dos temas centrais da reunião. Bush repudiou o Protocolo em 2001 e retirou a assinatura colocada por seu antecessor, Bill Clinton (1993-2001), argumentando que afetaria a economia nacional. Ambientalistas e líderes de vários países que assinaram o tratado esperavam que Blair aproveitasse sua "relação especial" com Bush para persuadi-lo a somar-se ao processo, mas até agora sua decisão é inalterável.

Na entrevista à ITV, Bush negou que apoiaria o Protocolo em uma espécie de devolução de favores a Blair por ter aderido à invasão do Iraque em 2003. "Tony Blair tomou decisões pensando que era o melhor para manter a paz e ganhar a guerra contra o terrorismo, como eu fiz", disse o presidente. Também descartou apoiar um possível acordo semelhante ao de Kyoto promovido por Blair em Gleneagles. Entretanto, admitiu que é necessário fazer algo para enfrentar o aquecimento global. "Creio que se pode conseguir que a economia cresça e ao mesmo tempo fazer um bom trabalho para controlar os gases que causam o efeito estufa", afirmou Bush.

O presidente norte-americano reconheceu que as emissões de carbono são responsáveis "até certo ponto" pelo problema, e afirmou que o desenvolvimento de novas tecnologias é a melhor forma de combatê-lo. Entretanto, os ambientalistas duvidam de que realmente deseje encontrar uma solução. "O presidente Bush só está comprometido consigo mesmo", afirmou Pearce. "Atualmente existe tecnologia disponível para produzir eletricidade e energia de maneira limpa e sustentável. Fala-se de automóvel movido a hidrogênio, mas ainda demora. A ação está demorando. Ao falar de pesquisa e desenvolvimento senta-se em uma zona cômoda. Não avança na discussão", acrescentou.

Pearce afirmou que o argumento de Bush de que o Protocolo de Kyoto debilitaria a economia norte-americana não tem fundamento. "De fato, os 166 prefeitos não pensam da mesma maneira, nem os países que assinaram o Protocolo", afirmou. Bush se nega a reconhecer que por não agir agora "a economia se verá muito mais afetada no futuro", disse Pearce, e acrescentou que "os empresários sabem que o custo da mudança climática será muito maior no futuro do que o custo de se tomar medidas já". (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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