Johannesburgo, 05/07/2005 – Os anúncios de bom governo e combate à corrupção podem eclipsar os pedidos de mais ajuda para a África quando o Grupo dos Oito se reunir esta semana na Escócia para sua cúpula anual, alertam ativistas e acadêmicos africanos. Por isso, exortam os países industrializados que integram o G-8 (Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Japão e Rússia) a não olharem o continente mais pobre do mundo através da lente da corrupção e do mau governo. Na África "existe vontade política de combater a corrupção. Há alguns países, como a África do Sul, que estão atacando a corrupção no mais alto nível", destacou Prince Mashele, pesquisador do Instituto de Estudos de Segurança, com sede em Pretória.
Em entrevista à IPS, Machele citou a destituição, em junho, do vice-presidente sul-africano, Jacob Zuma, acusado de receber subornos de seu ex-assessor financeiro, Schabir Shaik, para promover seus interesses comerciais. Charles Mutasa, diretor-executivo interino do Fórum Africano e da Rede sobre Dívida e Desenvolvimento, do Zimbábue, ressaltou como esforço contra a corrupção o Mecanismo Africano de Revisão por Pares estabelecido no contexto da Nova Associação para o Desenvolvimento da África (Nepad, sigla em inglês), que procura atrair para o continente mais de US$ 600 bilhões em troca de governabilidade.
Até agora, somente Ruanda e Gana passaram pelo Mecanismo de Revisão por Pares, pelo qual qualquer país integrante do Nepad pode submeter-se de forma voluntária ao exame dos demais membros sobre diversos assuntos, desde administração até respeito pelos direitos humanos. "No informe sobre Ruanda, afirma-se que esse país não tem feito o suficiente para defender os direitos humanos e combater a corrupção. Esse relatório não sofreu censura, e isto é um fato animador na África", destacou Mashele. Apesar destes avanços, Mutasa reconheceu que é muito difícil combater a corrupção no continente, por diferentes razões. "Combater a corrupção requer recursos financeiros, humanos e intelectuais, além de vontade política", afirmou.
O ex-chefe da luta contra a corrupção no Quênia, John Githongo, é um dos que pagou o preço por demonstrar tal vontade política. Githongo renunciou ao cargo em fevereiro por considerar que seus esforços para combater a corrupção eram bloqueados por elementos de um governo que, paradoxalmente, foi eleito em 2002 com base em uma plataforma anticorrupção. Por sua vez, o atual governo da Nigéria tenta recuperar todo o dinheiro roubado pelo falecido ditador Sani Abacha entre 1993 e 1997. A organização humanitária ActionAid International afirma que US$ 1,3 bilhão do dinheiro roubado pela família Abacha estão depositados em mais de 20 bancos de Londres. Os ativistas se queixam que governos ocidentais, tão enérgicos em suas denúncias de corrupção na África, são menos rigorosos em seus esforços para assegurar "mãos limpas" de empresas e indivíduos de seus próprios países e oferecem "paraísos fiscais" a governantes corruptos.
"A corrupção não se limita à África. É um problema mundial", disse à IPS Sanusha Naidu, pesquisadora do Centro de Pesquisas sobre Ciências Humanas, de Pretória. Em um documento intitulado "Corporate Accountability" (Responsabilidade Empresarial), a ActionAid International diz que, segundo a Organização das Nações Unidas, 32 empresas estabelecidas em países do G-8 estiveram envolvidas na extração de recursos naturais da República Democrática do Congo. Essa atividade contraria as pautas emitidas pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, integrada por 30 países industrializados. A exploração ilícita dos recursos da RDC incentivou uma guerra civil de cinco anos que já cobrou quase quatro milhões de vidas através de combates, doenças e fome.
"Por um lado, o G-8 pede governabilidade aos países africanos para que o dinheiro da ajuda e o alívio da dívida externa beneficiem os mais pobres", mas "por outro lado, se auto-eximem de seu dever de exigir boa conduta das próprias empresas que consideram um veículo essencial para promover o desenvolvimento na África", afirmou a ActionAid International. Definitivamente, segundo Mashele, o G-8 deve ter cuidado ao julgar a África com extrema dureza. "Estamos saindo de uma terrível cultura de ditaduras. Durante as ditaduras militares no continente não se podia dizer uma palavra contra a corrupção. Agora, a sociedade civil criou um espaço para falar desse tema, e estamos avançando muito, considerando o ponto de partida", afirmou. (IPS/Envolverde)

