Gleneagles, Escócia, 11/07/2005 – Os líderes do Grupo dos Oito países mais poderosos ofereceram muito pouco à África, mas continuam exigindo muito em troca. Na cúpula do G-8, concluída sexta-feira na localidade escocesa de Gleneagles, foram manejados muitos números para satisfazer demandas das estrelas do rock que lideraram uma campanha contra a pobreza, entre elas o britânico Bob Geldof e o irlandês Bono Vox. Os chefes de Estado e governo do G-8 anunciaram que, "junto com outros doadores, impulsionarão um aumento da ajuda oficial para o desenvolvimento da África de US$ 25 bilhões anuais até 2010". Se considerarmos que hoje são outorgados US$ 25 bilhões de assistência, a ajuda prometida aumenta para a mágica quantia de US$ 50 bilhões.
Mas na África a quantia não soa tão mágica. "É um aumento da ajuda, mas não o que havia sido divulgado com tanta ênfase. Além disso, muito do que foi anunciado já havia sido prometido antes", disse à IPS Claire Melamed, da organização humanitária Christian Aid. Entretanto, era imperioso para os líderes do G-8 fazer algum anúncio com relação à África depois que o desenvolvimento desse continente foi colocado no topo da agenda da cúpula, junto com a mudança climática. O G-8 está integrado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia.
Em sua declaração final, o clube dos poderosos defendeu o princípio da privatização, apesar de centenas de estudos, vários deles aceitos pelo Banco Mundial, dando conta de processos de privatizações rápidas e ilimitadas que arruinaram várias economias. "A iniciativa privada é um motor-chave do crescimento e do desenvolvimento", diz o comunicado. "Os países africanos necessitam melhorar ainda mais o clima de investimentos, e nós continuaremos ajudando-os a fazerem isso. Na África, a sociedade entre o público e o privado é crucial", acrescenta o texto.
O G-8 ofereceu ajuda para construir na África "a capacidade física, humana e institucional necessária para o comércio". Entretanto, o grupo não fez menção alguma aos milionários subsídios que União Européia e Estados Unidos outorgam aos seus produtores agrícolas, prejudicando os agricultores africanos. E quem aproveitará melhor a privatização na África do que as empresas norte-americanas e européias? "O G-8 parece ter dito: Não pergunte o que podemos fazer pelos pobres, mas o que eles podem fazer por nós", afirmou Peter Hardstaff, do Movimento para o Desenvolvimento Mundial (WDM, sigla em inglês).
Os lides do G-8 também anunciaram que exortariam as instituições financeiras internacionais a considerarem "uma ajuda adicional aos países para que desenvolvam sua capacidade comercial e adaptem suas economias". Aqui se viu presente, uma vez mais, a sombra dos programas de "ajuste estrutural" impulsionados para que os países pobres liberassem suas economias em ritmo acelerado. O grupo também ofereceu apoio às iniciativas para incentivar o setor privado através do Banco Africano de Desenvolvimento. Os países do G-8 "enviaram uma clara mensagem de que somente considerariam atuar nos países pobres se estes liberalizarem o câmbio", disse o WDM, em um comunicado.
A organização afirmou que os países poderosos oferecem "subornos de ajuda pelo comércio", pois somente prometem assistência extra se as nações avançarem nos processos de privatização. Segundo a declaração do G-8, "depende dos governos dos países em desenvolvimento assumir a liderança para o crescimento. Têm que decidir, planejar e ser conseqüentes com suas políticas econômicas para cumprir suas próprias estratégias de desenvolvimento, pelas quais serão responsáveis diante de seu próprio povo", acrescenta. Para Christian Aid, esta parte do comunicado não é mais do que um "pedaço de senso comum", enquanto a WDM afirma que o comunicado é um desastre para os pobres do mundo.
"Estamos furiosos, mas não surpresos", disse Hardstaff. As pequenas quantias de dinheiro oferecidas como ajuda "não são nada mais do que um esparadrapo sobre as profundas feridas que o G-8 causa pressionando com políticas econômicas fracassadas como a privatização, a liberalização do comércio e a desregulamentação na África", acrescentou. De fato, o G-8 endureceu sua posição sobre o comércio, afirmou John Hilary, do grupo War on Wat (Guerra à Pobreza). Os poderosos "obrigam mais países a abrirem seus mercados, ameaçando milhões com a miséria. Quando chega o momento de agir, o G-8 dá as costas aos pobres do mundo", ressaltou.
A declaração incluiu compromissos específicos para apoiar a educação na África, como um programa de "educação para todos" impulsionado pelo presidente norte-americano, George W. Bush. Os líderes do G-8 também se comprometeram a redobrar a luta contra a aids e conseguir até 2010 um "acesso universal ao tratamento para todos os que dele necessitam". Apesar de as promessas serem poucas, "acompanharemos bem de perto os acontecimentos para constatar seu cumprimento", disse Melamed. (IPS/Envolverde)

