África: G-8 deve ajudar o povo, não os governos

Londres, 06/07/2005 – Ativistas exortaram os líderes do Grupo dos Oitos países mais poderosos a destinarem uma parte substancial de sua assistência diretamente à população da África, não aos governos. "Consideramos que pelo menos a metade da ajuda ao desenvolvimento, que deveria ser duplicada, seja destinada a iniciativas locais", disse à IPS a diretora do Instituto Internacional para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (IIED), Camilla Toulmin. Trata-se de um instituto de pesquisa no campo do desenvolvimento sustentável, voltado especialmente para África, América Latina e Ásia. O desenvolvimento da África será um dos temas centrais da reunião de cúpula do G-8. Chefes de Estado e de governo da Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia se reunirão na localidade escocesa de Gleneagles, entre esta quarta-feira e sexta-feira.

O IIED afirmou que um dos principais obstáculos para o desenvolvimento da África é o "déficit de poder", isto é, a incapacidade da população para controlar seu próprio destino, e em particular, as mulheres, que representam a maioria dos pequenos agricultores. A ajuda deveria ser direta para dar força à voz e à influência dos moradores e das organizações locais, pois dessa maneira as pessoas poderiam mudar por si mesmas seu futuro, afirmou o instituto. O IIED teme que as populações marginalizadas camponesas ou habitantes de assentamentos irregulares não sejam consideradas no debate sobre o futuro da África. "A assistência que vai de governo para governo faz com que o poder fique concentrado nos âmbitos centrais, e por isso as atividades em nível local não se beneficiam dos recursos", disse Toulmin.

Os governos africanos apelam para potências ocidentais para conseguir financiamento, distorcendo dessa maneira a dinâmica do sistema impositivo em cada país, acrescentou o ativista. Obter recursos através de impostos "obriga os governos a ouvir a população. Se os governos dependem de outros países para conseguir 80% ou 90% de seus recursos, rompe-se o vínculo com o povo, ao qual devem prestar conta. Por isso, quando o Ocidente pede a esses governos que escutem sua população, tem início um processo de consulta inútil", explicou Toulmin. A ativista também ressaltou que destinar a ajuda apenas aos governos muitas vezes fomenta a corrupção. "É um grave problema se 40% da riqueza da África terminam em contas bancárias pessoais ou investida em outras atividades no Ocidente. O sudeste da Ásia tem elites ricas, mas pelo menos estas reinvestiram o dinheiro em seus próprios países", acrescentou.

Toulmin destacou que a transparência e a luta contra a corrupção são partes essenciais da agenda do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush."Esse é um aspecto no qual Bush é relativamente forte. O problema é que combina isso como o fato de ser incrivelmente mesquinho", afirmou. O IIED também insistiu que os líderes do G-8 não considerem os africanos como "vítimas e pessoas passivas" e nem o continente como um lugar onde só existem "crimes e histórias de desastres". Isso "pode ser verdade em alguns poucos lugares, mas a África está cheia de energia e atividade. Boa parte do continente cresce e se desenvolve", e isto graças a uma "agenda popular" que não é considerada atualmente pelos governos, acrescentou a ativista.

Por sua vez, a presidente do IIED e ex-Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, a irlandesa Mary Robinson, criticou a falta de vontade para ajudar a população africana. "A África não é um fracasso nem está atrasada, ocorre que foi marginalizada pela falta de vontade da comunidade internacional e dos governos locais para confiar à população a direção de projetos próprios, como cultivos em pequena escala", afirmou. Robinson, que foi presidente da Irlanda entre 1990 e 1997, ressaltou em um comunicado que as mulheres africanas necessitam de particular atenção. "Elas – afirmou – enfrentam os maiores obstáculos para ter acesso às terras e aos mercados, e por isso necessitam de maior apoio em relação à pobreza e aos direitos de herança, sobretudo porque sua vulnerabilidade aumentou devido à pandemia de aids".

"Quem sabe como administrar melhor a terra e outros recursos naturais? É a população local, com centenas de anos de experiência e conhecimento, ou os governos distantes e os grandes empresários que promovem um modelo econômico que já falhou em todo o planeta?", perguntou Robinson. A presidente do IIED afirmou que a verdadeira solução é investir diretamente nos produtores agrícolas africanos e criar um mercado mais justo, pondo fim aos subsídios dos países ricos e ao escoamento de excedentes de produção nas nações pobres. A comunidade internacional deve ajustar melhor suas lentes para reconhecer as coisas positivas da África e de todas as regiões pobres para assim ajudá-las a crescer, e não sufocá-las", acrescentou.(IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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