Ásia: De aliada, a Índia passa a agente dos EUA

Nova Délhi, 05/07/2005 – A Índia, país alguma vez orgulhosamente não-alinhado, abandonou a independência de sua política estratégica ao assinar um acordo de cooperação militar com os Estados Unidos que a converte em agente de Washington na Ásia. Em razão do novo "Contexto para a Relação de Defesa entre Estados Unidos e Índia", Nova Délhi ajudará Washington a "incrustar-se" estrategicamente na Ásia, a fim de contrapor-se ao crescente desafio da China. O novo pacto envolve muito mais do que a compra e venda de armas e prevê a "terceirização" de várias funções à Índia, como operações conjuntas em terceiros países, patrulhamento de rotas marítimas e ajuda de emergência em casos de desastre.

Além disso, os dois países também estabeleceram uma colaboração em matéria de defesa contra mísseis balísticos e em outros esforços de pesquisa e desenvolvimento, bem como melhorar suas "capacidades para combater" a proliferação de armas de destruição em massa. "Este é o acordo militar de maior alcance que a Índia já assinou com algum país", comentou Achin Vanaik, analista independente de segurança e professor de ciência política da Universidade de Nova Délhi. Vanaik disse à IPS que o acordo assinado no último dia 28 de junho, em Washington, tem um alcance muito maior do que o tratado de amizade e cooperação assinado em 1971 com a então União Soviética, e que vela a cooperação na área de segurança indo-norte-americana para além do enfrentamento de ameaças de algum país ou grupo de países. "Também se destaca por ser um acordo de um único lado", acrescentou.

Em troca de ajudar os Estados Unidos a se estabelecerem estrategicamente na Ásia, a Índia poderá receber armas dos anos 70, como caças F-16 e uma nova versão do sistema antimísseis Patriot, e ainda co-produzir armas criadas nos Estados Unidos. A carta do acordo assinada pelo secretário de Defesa norte-americano, Donald Rumsfeld, e seu colega indiano, Pranab Mukherjee, apenas estabelece que as forças armadas dos dois países "aumentarão a oportunidade de transferência de tecnologia, colaboração, co-produção e pesquisa e desenvolvimento". mas o pacto é, em parte, a realização de uma oferta norte-americana, apresentada no dia 25 de março pro três altos funcionários de Washington, "para ajudar a Índia a se transformar em uma potência mundial no século XXI".

Além disso, se ajusta aos objetivos declarados dos Estados Unidos de conter a China, estabilizar o Afeganistão, o Nepal e Bangladesh e dissuadir o Irã de fabricar armas nucleares. A julgar pela experiência e pela doutrina estratégica dos Estados Unidos, as operações previstas no acordo serão plenamente controladas pelos Estados Unidos, apesar das referências textuais a "associação", "cooperação" e "interesses comuns". Os Estados Unidos sempre insistiram na hegemonia total e no controle exclusivo das operações militares conjuntas, inclusive dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Tal foi o caso das intervenções na Somália, na ex-Iugoslávia e no Iraque.

Nenhum discurso sobre "associação" e "interesses comuns" pode dissimular a enorme assimetria de poder entre Estados Unidos e Índia, nem os cálculos estratégicos de Washington. Documentos norte-americanos recentemente liberados à divulgação revelam qual era a idéia que Washington tinha da Índia quando esta interveio na guerra de Bangladesh, em 1971. "O que os indianos precisam é de uma enorme fome… A opinião mundial está do lado deles, mas são pessoas astutas e traiçoeiras", afirmou o então presidente norte-americano Richard Nixon, segundo os documentos.

"É uma amarga ironia que os políticos indianos tenham esquecido as lições do passado",lamentou Anuradha Chenoy, professora de relações internacionais da Universidade Hawaharlal Nehru, de Nova Délhi. "É igualmente triste o fato de a Índia pretender se transformar em uma grande potência às custas de uma hegemonia depredadora", acrescentou. Em virtude do novo acordo, os Estados Unidos usarão a Índia para terceirizar operações destinadas a "combater o terrorismo e o extremismo religioso violento", para "proteger o livre comércio por terra, mar e ar" e ainda prevenir a proliferação de armas de destruição em massa. (IPS/Envolverde)

Praful Bidwai

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