Ambiente: Seca mostra a diferença de desenvolvimento entre África e Europa

Madri, 01/08/2005 – A seca que afeta vastas regiões da África e Europa mostra a enorme brecha de desenvolvimento entre as duas regiões, pois na primeira a atenção se centra na fome e na morte que provoca, enquanto na segunda se mede sua incidência nos negócios, no turismo e nos subsídios. Na Europa, a escassez de água leva os governos a tomarem medidas para restringir o consumo e compensatórias para os usuários, que não chegam a passar sede, enquanto nos países africanos mobiliza organizações não-governamentais para tentar minimizar os males da população, embora seu esforço humanitário seja insuficiente. O consumo médio de água potável na Europa é de 55 mil litros por pessoa ao ano, taxa que duplica nos Estados Unidos e são notoriamente menores na África, onde há países, como o Sudão, que não superam os sete mil litros anuais, segundo o Centro Pan-americano de Engenharia Sanitária e Ciências do Meio Ambiente.

Assim na Somália o preço da água aumentou 350% este ano, provocando a perda de 95% do gado, e na Etiópia seis milhões de pessoas necessitam de ajuda urgente para matar a sede, enquanto os que passam fome chegam a 30 milhões, em grande parte devido à ausência de água. Sobre a gravidade do problema, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) afirma que a seca de 1984 na Etiópia afetou 8,7 milhões de pessoas, sendo que um milhão morreram e muitos milhões mais sofreram má nutrição e fome. O Pnud acrescenta que outra seca, em 1991 e 1992, causou na África austral a perda de 54% da colheita de cereais e expôs ao risco de inanição mais de 17 milhões de pessoas.

A agência da Organização das Nações Unidas também recorda que cem mil africanos morreram devido à seca que nos anos 70 e 80 afetou a região do Sahel, a zona de transição no ocidente do continente entre o deserto do Saara e a área mais fértil ao sul do continente africano. Por outro lado, um exemplo do que ocorre na Europa se está vivendo na Espanha, onde o debate é se deve-se ou não transpor águas de algumas regiões do país para outras, ao mesmo tempo em que se conhece a decisão da Comissão Européia, o órgão executivo da União Européia, de dispor do abastecimento de cereais e subsídios para minimizar as perdas ocasionadas pela seca.

Na sexta-feira, o governo espanhol informou que o Comitê de Gestão de Cereais da UE aprovou a concessão a esse país de 41.406 toneladas de milho da Hungria e 2.905 toneladas de cevada da Alemanha, para compensar a queda da produção nacional em razão da mais forte seca dos últimos 60 anos. A concessão faz parte de uma operação especial de intervenção pela qual a UE colocará no mercado espanhol meio milhão de toneladas de cereais até o final do ano. A Comissão Européia estuda além disso a entrega de mais fundos para subsidiar os agricultores espanhóis e também os portugueses afetados pela seca.

A falta de água, segundo um estudo da UE, poderá provocar na Espanha uma queda de 75% na produção do trigo duro e de 49% no trigo mole, enquanto na cevada a queda pode chegar a 42% em relação a safras anteriores. Em toda a União Européia, as previsões indicam que nesta colheita, com relação à do ano passado, cairá 24% a produção de trigo duro, 5,2% a de trigo mole, 10% a de cevada e 6% a de milho, embora neste último caso possa haver reduções "drásticas" se não chover nas próximas semanas. Muito mais aguda é a situação na África onde, por exemplo, 32% dos 12 milhões de habitantes de Níger sofrem de fome, quase a totalidade deles corre perigo de morte por essa razão, segundo a organização não-governamental católica Cáritas. Nesse país africano a seca e uma praga de gafanhotos provocaram este ano um déficit de 223 mil toneladas de cereais.

Na Espanha, uma questão que chama poderosamente a atenção é a água utilizada para irrigar parte dos 276 campos de golfe existentes no país, que ocupam uma superfície de 15 mil hectares e que nos próximos dois anos serão mais de 400. O setor turístico defende fortemente a manutenção desses mantos verdes, pois cerca de 800 mil turistas chegam anualmente à Espanha atraídos por esse esporte. Por isso, Juan Antonio, membro da ONG Ecologistas em Ação, afirma que "alguém terá que decidir se o que queremos é turismo ou deserto", porque considera inconcebível que o interesse comercial esteja acima da preservação ambiental e do desenvolvimento sustentável.

Entretanto, há os que defendem o uso da água para o golfe. Um deles é Alberto Recarte, vice-presidente da Sociedade da Informação e do Conhecimento da Espanha, uma instituição privada vinculada a grandes empresas. Recarte afirma que, em média, o consumo de água nos campos de golfe é menor do que na irrigação, de aproximadamente quatro mil metros cúbicos ao ano por hectare. Além disso, lembra que, segundo dados oficiais, a renda com turismo ligado ao golfe chega a três bilhões de euros anuais (US$ 3,6 bilhões), o que significaria "uma rentabilidade direta e indireta por hectare de golfe de 200 mil euros (US$ 243 mil) por ano". Por outro lado, acrescenta, "a melhor irrigação agrícola pode render três mil euros (US$ 3.600) ao ano por hectare, devendo-se somar a isso "como contribuição indireta" o valor agregado da indústria hortifruti, se existir?. (IPS/Envolverde)

Alicia Fraerman

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *