Iêmen: Mudança de direção. Para onde?

Sana´a, 11/08/2005 – O futuro do Iêmen ficou oculto sob densas nuvens depois do anúncio feito pelo presidente Ali Abdullah Saleh, de 63 anos, de que não será candidato nas eleições do próximo ano. Saleh governa desde 1990 este país da Península Arábica, que, com 21 milhões de habitantes, fica no cruzamento de caminhos entre África, Ásia e o mundo árabe. Contudo, desde o golpe de Estado, que dirigiu em 17 de julho de 1978, Saleh encabeçava o governo do Iêmen do Norte, então separado do Iêmen do Sul, cujo regime era marxista-leninista. O país, reunificado em 1990 sob a liderança de Saleh, sobreviveu a uma tentativa de secessão lançada por líderes do sul em 1994.

O presidente anunciou sua vontade de não se candidatar novamente quando dirigentes de seu partido foram cumprimentá-lo no vigésimo-sétimo aniversário de sua chegada ao poder. "Confio em que todos os partidos políticos encontrem jovens líderes para competirem nas eleições. Devemos treinar para praticar uma sucessão pacífica", disse na oportunidade. O mandato presidencial de sete anos terminará em setembro de 2006. Saleh está habilitado pela Constituição para se apresentar à reeleição. Em 1999, obteve 96% dos votos, em uma votação que membros da oposição qualificaram de fraudulenta. No entatanto, o fim de sua candidatura não significa o fim de sua carreira política.

Dirigentes do governante Congresso Geral do Povo (CGP) revelaram que Saleh não renunciará à liderança do partido, que deve restaurar sua credibilidade depois das acusações de mau manejo da economia e de corrupção. Alguns dirigentes do CGP vêem alguma esperança. "A forte competição incentivará o partido a apresentar candidatos jovens que nos alentarão para mais reformas", disse o dirigente Yasser al-Awadhi. Porém, a idéia das reformas pode ser algo controvertido. Dois dias depois de seu anúncio, o governo suspendeu os subsídios ao combustível, o que elevou os preços e desatou protestos que resultaram na morte de vários manifestantes.

As alternativas não são claras. O partido de oposição Islah está disposto a uma dura disputa com o CGP, disse o dirigente Mohammad Qahtan. "O governo deveria admitir seu fracasso", disse à IPS o analista político Mohammad al-Sabri. "O país necessita de reformas políticas e econômicas. Construir uma sociedade forte é essencial para construir um sistema democrático. Temos democracia, mas está sendo corroída. Temos liberdades, mas estão arquejando". Alguns dirigentes propõem uma aliança entre o CGP e o Islah em um novo governo. Os dois partidos eram aliados até 1994. "Devem saber que a boa relação entre eles é importante para a estabilidade do país e a democracia", disse à IPS o analista político Nasr Mustafá. "O Iêmen iniciou um processo de democratização e deveríamos continuar nesse caminho. De outro modo, se dirigiria para uma ditadura", acrescentou.

As mudanças políticas que se avizinham poderiam dar uma nova voz ao sul do país. Na semana passada, o Partido Socialista elegeu como secretário-geral Yassin Saeed Noaman, um dos líderes do Iêmen do Sul que foi expulso do país depois da guerra civil de 1994. Alguns dirigentes expressam temor de que um partido forte no sul possa levar a uma secessão. A população das áreas meridionais acredita que o governo a discrimina em benefício do norte. Saleh advertiu que manterá sua determinação de deixar o poder. "Por favor, presidente, não mude sua decisão", exortou o escritor kuwaitiano Ahmad al-Rabee em carta ao presidente iemenita. "O senhor será o primeiro líder árabe a deixar voluntariamente o poder. Seguirá os passos de grandes líderes como George Washington (presidente norte-americano) e Nelson Mandela (presidente da África do Sul)", afirmou. (IPS/Envolverde)

Nabil Sultan

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