Mineração: As duas faces do movimento evangélico norte-americano

Arcata, Califórnia, 11/08/2005 – Durante as duas últimas décadas, os cristãos evangélicos se converteram em uma verdadeira força da natureza na política norte-americana. Eles mesmos afirmam ter proporcionado a George W. Bush os votos que lhe valeram a vitória nas eleições de 2004, graças a uma combinação de zelo religioso, sofisticação tecnológica, destreza na negociação, criatividade na coleta de fundos e estruturas organizacionais autoritárias que serviram para construir a máquina política mais eficaz da atualidade no país. O fato de os Estados Unidos constituírem um império global, e de o movimento evangélico ter um alcance mundial, permitiu que um punhado de líderes evangélicos, que formam um estranho casal com seus aliados, os políticos neoconservadores, agora exerça uma influência fundamental no curso dos acontecimentos internacionais.

Em uma época de ansiedade e incerteza, com as lealdades para com a família, a comunidade, a companhia e a nação desmoronando diante das forças inexoráveis da globalização, e com as principais confissões religiosas extremamente tímidas para criar uma alternativa convincente, os evangélicos oferecem aparentemente estruturas sólidas de crença e pertinência, certeza e autoridade. Alguns líderes evangélicos buscam cobrar os créditos obtidos ao ganhar eleições para os políticos que dizem representá-los e exigem a instalação do que viria a ser uma teocracia, em lugar de uma democracia. Esse regime inclui uma draconiana estrutura legal baseada nos Dez Mandamentos, um repúdio à razão e à ciência em questões que vão desde a teoria da evolução até a mudança climática, uma reafirmação da autoridade masculina e de costumes puritanos tanto na vida pessoal quanto na pública, bem como uma militante intolerância em relação às diferenças de comportamentos e crenças.

Entretanto, sabemos muito pouco sobre esses evangelistas e em que acreditam. Billy Graham, pai do evangelismo norte-americano moderno, recentemente expressou pesar por não ter tido um papel mais ativo na luta pelos direitos civis na década de 90. Luis Palau, um conhecido pregador evangélico e amigo próximo de Graham, afirmou "que a mudança vem da convicção pessoal, não da cristianização de uma nação. Toda mudança, historicamente, vem de baixo para cima". Por outro lado, existem divisões dentro do movimento evangélico que, desenvolvidas, poderiam fazer surgir potentes alianças com não-evangélicos para enfrentar desafios globais como a pobreza e a mudança climática.

A National Association of Evangelicals (NAE), a maior associação norte-americana de igrejas evangélicas dos Estados Unidos, com 50 mil congregações e 30 milhões de membros, recentemente completou um processo de vários anos para definir uma ampla agenda política que vai além de assuntos como aborto e casamento entre homossexuais. A NAE fez um chamado à responsabilidade cívica no qual traça, com a linguagem da teologia cristã, uma série de valores e prioridades, a fim de promover uma agenda nacional e global notavelmente similar à de muitos seculares progressistas. No ano passado, a NAE divulgou dois documentos conclamando a favor da sustentabilidade ambiental, do fim do racismo e por uma ênfase na defesa dos direitos humanos e da justiça social.

O documento afirma que "nosso uso da Terra deve ser destinado a conservá-la e renová-la, em lugar de esgotá-la e destruí-la". Além disso, esses chamados condenam as crescentes disparidades econômicas e reclamam que a política externa norte-americana tenha como uma de suas preocupações centrais a redução da pobreza. "Deus mede as sociedades pelo modo como elas tratam as pessoas de baixo". A NAE também exorta no sentido de uma solução pacífica das disputas e pelo uso da guerra somente como último recurso. Também manifesta seu apoio à Declaração Universal dos Direitos Humanos. Seu vice-presidente para Assuntos Governamentais, Richard Cizik, causou um alvoroço meses atrás quando fez manifestações a favor de medidas obrigatórias para reduzir a contribuição dos Estados Unidos para o aquecimento global, em nome "do cuidado da Criação".

Os evangélicos também são uma força impulsionadora do Jubileu 2000, uma campanha inter-religiosa para convencer as principais nações industriais da necessidade de se perdoar a dívida do Terceiro Mundo. Ninguém pode estabelecer com segurança quanta convergência potencial poderia haver entre algumas partes do movimento evangélico e os progressistas em alguns assuntos fundamentais. O desafio para os progressistas, aos quais faltam os números, os recursos ou a organização para tornar realidade suas prioridades, é o de concretizar suas propostas em um esforço conjunto com setores evangélicos que têm semelhantes preocupações sociais. Em lugar de exigir ter "Deus do nosso lado" em uma guerra santa de uns contra outros, tanto progressistas quanto evangélicos poderiam estar "do lado de Deus" ao abandonarem suas diferenças e trabalhar ombro a ombro pelo bem da humanidade. (IPS/Envolverde)

(*) Mark Sommer apresenta o internacionalmente premiado programa de rádio A World of Possibilities (Um mundo de possibilidades) e é o fundador e diretor executivo do Mainstream Media Project.

Mark Sommer

Mark Sommer directs the U.S.-based Mainstream Media Project and hosts an award-winning syndicated radio programme, ''A World of Possibilities'' (www.aworldofpossibilities.com).

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