Mulher: Tráfico é um problema comum na Rússia

Moscou, 31/08/2005 – O tráfico de mulheres é um problema cada vez mais comum na Rússia. O ciclo de pobreza, enganos, escravidão e prostituição afetou mais de meio milhão de jovens nos últimos 10 anos, afirmam organizações não-governamentais. Katrina (o nome é fictício, o caso é real) aceitou aos 28 anos um trabalho de atendente em um restaurante de Bangcoc. Ao chegar à capital tailandesa soube que no lugar não se oferecia café, mas strip tease. Teve seu passaporte tomado e foi escravizada durante três anos. A jovem havia deixado Smolensk – sua terra natal no ocidente da Rússia – quatro anos antes, após se formar na universidade local. Era uma das 50 mulheres da Rússia, Ucrânia e Bielorússia com idades entre 18 e 30 anos que haviam sido levadas para a Tailândia por um agente que lhes prometera bons salários.

"Por causa da pressão de parte da minha família, decidi ir, apesar das conseqüências", disse Katrina à IPS. "Quando cheguei a Bangcoc fui escravizada, às vezes apanhava e obrigada a dormir com diversos homens em uma noite", contou. Ela levou mais de três anos para conseguir escapar. Este é o tipo de história que se torna cada vez mais familiar na Rússia, segundo uma pesquisa da Coalizão do Anjo, um grupo de 61 organizações não-governamentais desse país criado em 1999 para combater o crescente tráfico de mulheres russas e de outras repúblicas da ex-União Soviética. A Coalizão citou estudos da Organização das Nações Unidas, do Departamento de Estado norte-americano e da Organização para a Segurança e a Cooperação Européia (OSCE) para afirmar que mais de 500 mil mulheres da ex-União Soviética foram traficadas para mais de 50 países nos últimos 10 anos.

O grupo estima que 80% das mulheres foram vítimas de grupos criminosos. Afirma-se que Ucrânia e na Rússia são as principais fontes."O comércio é secreto, as mulheres são silenciadas, os traficantes são perigosos, os processos são raros e poucas agências têm pessoal e recursos para resgatá-las", afirmou a Coalizão. O tráfico está crescendo, e Moscou se converteu no principal ponto de trânsito, disse o diretor da Coalizão do Anjo, Oleg Kouzbit. "Poucos destes países têm leis para evitar o tráfico ou processar os traficantes, e estes criminosos são livres para operar com impunidade", explicou Kouzbit à IPS. A Coalizão critica severamente o governo russo por não agir com firmeza diante de um problema crescente, embora estejam sendo aprovadas novas leis para reprimir o tráfico.

"Acreditamos que seremos capazes de dar ao governo a informação que precisa para criar um programa amplo para abolir o tráfico de mulheres e crianças na Rússia", disse Kouzbit. "As mulheres russas sofrem grande exploração. Não merecem se transformar em prostitutas do mundo", acrescentou. A Coalizão do Anjo surgiu como um projeto de reabilitação e treinamento de pessoal no início deste ano, em aliança com Mulheres e Crianças Primeiro, Instituto MiraMed e ONGs semelhantes financiadas pela Fundação Infantil Mundial, com sede na Suécia. O Centro de Crise Psicológica de São Petersburgo serviu como modelo e centro de treinamento para muitas ONGs que ajudam mulheres escravizadas. Reabilitou mais vítimas do que qualquer outro abrigo na Rússia e continua desenvolvendo estratégias inovadoras para tentar reintegrar de maneira positiva as vítimas à sociedade.

Muitas mulheres são empurradas para a prostituição por causa de seus baixos salários. O Centro para os Estudos de Gênero de Moscou diz em um informe que o salário mensal médio das mulheres em 2004 foi de 6.929 rublos (US$ 230). Segundo esse documento, também influi a falta de consciência social sobre o problema. Falta informação pública, e comumente as vítimas estão muito envergonhadas para apresentar uma queixa judicial. Os integrantes das máfias as ameaçam para que não contem nada. Kouzbit estima que, por esse motivo, não mais do que 2% das mulheres denunciam a situação à polícia, que por sua vez é reticente em investigar.

Em pleno aumento das críticas por falta de ação governamental, o Ministério do Interior estabeleceu uma unidade para controle de fronteiras, destinada a frear o tráfico humano e a exploração sexual das mulheres. Também o governo de Moscou criou uma comissão para impedir o tráfico humano e a prostituição. "A comissão está buscando leis penais severas contra o tráfico e a prostituição", disse à IPS Tatyana Kholshevnikova, coordenadora de um grupo de trabalho legislativo. O projeto de lei contra o tráfico deve receber sua primeira leitura na Duma (parlamento) no próximo mês, depois de ser apresentado pelo grupo de trabalho formado por 20 pessoas. "Em Moscou e em toda a Rússia, não somos capazes de combater este problema porque não temos uma lei bem definida", afirmou. "Agora projetamos uma excelente lei e reformas do Código Penal que converterão o tráfico de mulheres em um crime maior", concluiu. (IPS/Envolverde)

Kester Kenn Klomegah

Kester Kenn Klomegah is the IPS Moscow correspondent. He covers politics, human rights issues, foreign policy and ethnic minority problems. His research interests include Russian area studies and Russian culture. Kester has worked for several years with the Moscow Times. He has studied social philosophy and religion and spent a year at the Moscow State Institute of International Relations. He is co-author of ‘AIDS/HIV and Men: Taking Risk or Taking Responsibility’ published by the London-based Panos Institute. In 2004, he was awarded the Golden Word Prize for excellence in journalism by the Russian Media Union, a non-governmental media organisation in Moscow.

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