Saúde: Governo birmanês freia doações para a luta contra a aids

Bangcoc, 30/08/2005 – O governo militar da Birmânia preferiu manter os férreos controles ao movimento de bens e pessoas a receber ajuda de um fundo internacional para combater a epidemia de HIV/aids. Em uma decisão sem precedentes, o Fundo Mundial de Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária cancelou todas suas doações à Birmânia e abandonou este país, governado por uma ditadura militar por mais de 40 anos, devido às restrições de viagem que Rangun impôs a todas as agências da Organização das Nações Unidas e aos grupos humanitários internacionais. "Trata-se da primeira vez que o Fundo Mundial cancela doações", disse à IPS o porta-voz dessa agência com sede em Genebra, John Liden. "Os programas financiados pelo Fundo Mundial podem funcionar em qualquer país sempre que o governo não os obstrua ativamente", explicou.

Mas foi precisamente isso que fez a junta militar birmanesa, depois que o Fundo aprovou doações no valor de US$ 98,4 milhões em um período de cinco anos para este país do sudeste asiático. Mais da metade dessa quantidade, cerca de US$ 54,3 milhões, estava destinada ao combate do HIV/aids. Entre os programas que o Fundo apoiaria na Birmânia se contavam alguns para conter a epidemia de aids através da educação, do tratamento e dos serviços de apoio, concentrados em um grupo de alto risco como os usuários de drogas injetáveis, trabalhadores sexuais e os jovens entre 15 e 24 anos.

Porém, tais programas não puderam ser aplicados por causa das restrições de viagem que Rangun impôs a agências da ONU e grupos humanitários internacionais. Quase todos os aspectos dos novos programas exigiam viagens, e as restrições impostas provocavam "semanas de demora" para obter permissões, explicou Liden. O Fundo, criado há três anos pela Assembléia Geral da ONU, aprovou doações para 127 países e distribuiu US$ 3,1 bilhões nos primeiros dois anos de funcionamento. "Desse total comprometido nesses dois anos, 56% se destinaram à luta contra o HIV/aids, 13% à tuberculose e 31% à malária", informa o site do Fundo.

O controle até 2015 dessas três epidemias que açoitam a humanidade é um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da ONU, fixados por seus Estados-membros em 2000. Outras metas são redução da pobreza extrema e da fome à metade, educação primária universal, promoção da igualdade de gênero e autonomia da mulher, redução da mortalidade materna em três quartos e da infantil em dois terços. As metas específicas devem ser cumpridas até 2015, tomando por referências índices de 1990. A decisão do Fundo de acabar sua relação com Rangun gerou dúvidas sobre o espaço disponível para o trabalho humanitário em um clima de opressão.

"Devido á complexidade da situação na Birmânia, é preciso bastante flexibilidade para enfrentar os problemas na medida em que surgem", disse Charles Petrie, representante residente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. "O Fundo Mundial foi muito rígido devido à natureza temporária das doações, portanto compreendo a decisão tomada", afirmou em entrevista por telefone de Rangun. "Mas a ação humanitária é possível na Birmânia", afirmou. A retirada do fundo aconteceu em meio a um agravamento da epidemia de aids no país. Estima-se que entre 170 mil e 620 mil pessoas vivem com o HIV (vírus da deficiência imunológica adquirida, causador da aids) neste país de 50 milhões de habitantes, segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids (Onusida). O índice de infecção de 1,3% só é superado no sudeste asiático pelo Camboja, com 2%. Rangun escolheu manter em silêncio a crise da aids até final de 2003, quando o general Khin Nyunt foi nomeado primeiro-ministro e permitiu às agências humanitárias levar adiante seus programas abertamente.

A doação anunciada pelo Fundo Mundial foi recebida com alívio por organizações como World Vision. "O Fundo deu uma grande esperança a muitas pessoas que seriam beneficiadas, inclusive com HIV", disse à IPS o chefe do escritório da World Vision na Birmânia, Roger Walker". Agora, "se não encontrarmos fundos substitutos, a esperança dessa gente vai se transformar em migalhas", afirmou. O governo birmanês expressou preocupação pela medida do Fundo Mundial, mas não mencionou sua participação nas circunstâncias que levaram a essa decisão. A decisão do Fundo "contraria os valores e princípios consagrados na Declaração do Milênio da ONU, à qual o Fundo Mundial deve sua existência", afirmou o Mecanismo Coordenador Nacional sobre HIV/aids, dependente da junta militar. (IPS/Envolverde)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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