Sri Lanka: Noruega pode ser responsabilizada pela morte de chanceler

Bangcoc, 16/08/2005 – A Noruega, promotora do processo de paz no Sri Lanka, deverá aceitar certa responsabilidade pelo assassinato do chanceler cingalês, Lakshman Kadirgamar, caso fique comprovado que seus autores são rebeldes dos Tigres para a Libertação da Pátria Tamil (LTTE). Órgãos de imprensa da Ásia meridional e do sudeste se encarregaram de recordar a Oslo que uma carta de crédito muito ampla foi dada aos Tigres, o que possibilitou o crime de sexta-feira. "A Noruega, como impulsionadora da paz, tem muito que responder. Desde o começo, defendeu sua aproximação 'suave' com os Tigres, pois assegurava que haviam mudado. O assassinato de Kadirgamar é uma trágica recordação de que isso estava longe da verdade", disse nesta segunda-feira o jornal indiano The Hindu, em seu editorial.

Seus sangrentos antecedentes fazem dos Tigres óbvios suspeitos, segundo o jornal Bangkok Post, da capital da Tailândia. Apesar de conversarem sobre paz com o governo cingalês, "por trás do cenário, consideraram difícil ou impossível diluir sua estratégia violenta e terrorista", acrescentou a publicação. Kadirgamar era um tamil cristão – a maioria é hindu – cujo discurso os Tigres indicam como responsável pela proscrição de sua organização nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e em outros países ocidentais. O surgimento de tantos dedos acusatórios não é produto da casualidade. A LTTE cometeu mais de três mil violações do cessar-fogo, desde a trégua estabelecida em fevereiro de 2002 com o governo de Sri Lanka, que, por sua vez, é responsável por 133 violações.

Entre esses atos, segundo a missão internacional que controla o cessar-fogo, figuram o recrutamento e seqüestro de crianças e adultos, e intimidação, extorsão e hostilidade contra civis do norte e do leste do Sri Lanka, onde o LTTE pretende estabelecer um Estado independente. O recrutamento de crianças é a mais comum dessas violações (1.624 casos), seguida do seqüestro de adultos (493). Além disso, foram registrados 13 assassinatos e 54 "provocações" por parte dos Tigres, segundo a missão. Um franco-atirador disparou contra Kadirgamar, na sexta-feira, quando el saía da piscina de sua casa. Nesta segunda-feira, o corpo do chanceler recebeu as honras de dignatários nacionais e estrangeiros e de outras personalidades na casa onde morava, antes de ser levado para a Praça da Independência para ser cremado.

A presidente Chandrika Kumaratunga declarou estado de emergência depois de acusar os Tigres pelo assassinato. Os insurgentes negaram qualquer responsabilidade no atentado. S. P. Tamilselvan, chefe da ala política do Tigres, criticou duramente o governo por se apressar em acusar seu grupo e, por sua vez, responsabilizou o exército do Sri Lanka. O LTTE aproveitou o cessar-fogo para perseguir seus críticos. Em julho, a organização recorreu a um suicida cheio de explosivo no corpo para atentar contra a vida de um ministro, Douglas Devanada, que sobreviveu.

Kadirgamar era um forte crítico dos rebeldes. Em círculos políticos e de inteligência da Ásia meridional sabia-se há muito tempo que era um homem marcado. Seu assassinato, caso seja confirmada a autoria dos Tigres, demonstraria a fraqueza do acordo patrocinado pela Noruega, que deteve a guerra na qual morreram mais de 64 mil pessoas sem conseguir encaminhar o LTTE pela via da democracia e dos direitos humanos. Não é segredo que a maioria das vítimas da organização rebelde, incluídas as crianças recrutadas e os adultos seqüestrados, são civis tamis. O secretário de Relações Exteriores da Índia, Shyam Saram, disse em maio, quando recebeu o enviado de paz norueguês, Erik Solheim, que o processo de paz propiciou a formação de uma "ditadura do LTTE" nas áreas dominadas por insurgentes.

O cenário político do Sri Lanka está cheio de contrastes desde o cessar-fogo de fevereiro de 2002. A democracia e os direitos humanos são mais sólidos nas áreas dominadas pela maioria cingalesa e estão ausentes nas dominadas pelos Tigres. De fato, Saran não foi o único a recordar aos noruegueses que o LTTE matou, durante a vigência do cessar-fogo, políticos tamis rivais e impediu partidos políticos que compartilham sua visão independentista de promover esta causa. O próprio Kadirgamar pressionava por maior democracia nas regiões tamis. Ao que parece, indicou aos noruegueses que "a democracia em alguns distritos do norte e leste do Sri Lanka deve começar a avançar", segundo informou em seu site na Internet o Fórum para a Democracia do Sri Lanka.

"Se o governo da Noruega é incapaz de lutar por esta causa com a convicção e determinação que merece, deveria afastar-se e deixar que outros levantem a bandeira da democracia nas áreas onde ainda prevalece a escuridão", teria dito Kadirgamar, segundo o Fórum. O maior obstáculo ao processo, nos últimos três anos e meio, tem sido a falta de respeito mostrada pelo LTTE em relação à cultura da democracia e dos direitos humanos, o que derivou em um clima de temor e miséria para os civis tamis, incluídas as crianças. Isto é, em prejuízo para o mesmo povo pelo qual os Tigres afirmam lutar. "O cessar-fogo, tal como está formulado, está se tornando cada vez mais insignificante devido às sistemáticas violações por parte do LTTE. O futuro do povo tamil está em jogo", afirmou o Fórum. (IPS/Envolverde)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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